sexta-feira, 19 de julho de 2013

CAPA E DIREITOS AUTORAIS

—opção—

'Santa Cruz do Rio Pardo - memórias, documentos e referências' - 2013-08-19 - 20:45:08 (SatoPrado)
Obra registrada em nome dos autores Celso Prado e Junko Sato Prado sob o número 137695590858382500, cujo Certificado Digital de Direito Autoral que atesta este assento.

Edição eletrônica 2014, revista, ampliada e concluída


pradocel@gmail.com

TÁBUA DOS ASSUNTOS TRATADOS

—opção—

ÍNDICE REMISSIVO

Apresentação

1608 – Prealegados históricos: atassalhando o véu das pressuposições
1. Antigos caminhos
2. A senda militar
3. As sesmarias ao longo dos caminhos
4. A falência dos empreendimentos 


1780 – Dos povos e nações indígenas
1. Caiuá
2. Xavante
3. Kaingang
4. Magotes ou os destroços tribais
5. Dos autodenominados tupi


1808 – Reconhecimentos historiográficos 
1. O capitalismo contido no alto da Serra Botucatu 
2. A fazendeiros obstinados em arredar os índios
3. A guerra ao índio


1849 – José Theodoro de Souza – o último bandeirante
1. A família
2. As posses
3. A morte do pioneiro
4. Theodoro sob o ponto de vista histórico
5. Quando efetivamente Theodoro chegou ao sertão


1851 – Pioneirismo histórico-documental 
1. Assentamentos no Turvo/Alambari
2. Fazendeiros à margem esquerda do Turvo
3. Fazendas no espigão Pardo/Turvo e Pardo à direita
4. Fazendeiros às margem e vertentes do Pardo à esquerda


1862 – A história referenciada para Santa Cruz do Rio Pardo 
1. Alambari – o primeiro bairro rural entre fazendas santacruzenses
2. Santa Cruz – sede de fazenda e bairro rural no pontal Pardo/São Domingos
3. Doações patrimoniais para formação de Santa Cruz do Rio Pardo
4. Formação da Capela Santa Cruz do Rio Pardo
5. Os fundadores  Manoel Francisco Soares e Padre João Domingos Figueira
6. As primeiras vias da integração 
7. Conquistas consolidadas – o papel da Igreja
8. Os vigários após o Padre Figueira


1870 – Do pós-guerra com o Paraguai 
1. Acontecimento e consequências
2. Subdelegacia de distrito
3. Organização urbana
4. O estranho equívoco político-histórico


1872 – Das transformações sociais
1. Freguesia de Santa Cruz do Rio Pardo
2. Subdelegacia de freguesia
3. Dados censitários
4. Dos nascidos livres de mães escravas
5. Dos aforamentos
6. Santa Cruz melhormente
7. Contestações de divisas

1875  Os coronéis e mandatários
1. Cel. Joaquim José Botelho
2. Cel. Joaquim Manoel de Andrade
3. Cel. Emygdio José da Piedade
4. Cel. Marcelo Gonçalves de Oliveira
5. Cel. João Baptista Botelho
6. Dr. Olympio Rodrigues Pimentel 
7. Dr. Antonio José da Costa Junior 
8. Dr. Francisco de Paula de Abreu Sodré
9. Cel. Antonio Evangelista da Silva – o Tonico Lista
10. Tenente-coronel Leônidas do Amaral Vieira

1876 – Ordenações político-jurídicas 
1. Vila e município de Santa Cruz
2. Estruturas político-partidárias do século XIX
3. A política santacruzense 


1877 – Poderes legislativo, executivo e juizado de paz...
1. Câmaras Municipais 
2. Apartes político-históricos - quem o primeiro prefeito?
3. Juizados de Paz
4. Inspetorias de Quarteirão
5. Os líderes políticos locais pós Revolução de 1930
- Os prefeitos na 'Era Vargas'
- Prefeitos na 'politica do compadrio'
- Os prefeitos do 'meio termo'
- Os prefeitos 'caciques' da vez
- Outros políticos destacados
- Dos serviços públicos
1. Quartel – Delegacia/Cadeia para a Vila de Santa Cruz
2. Agência postal
3. Termo de Comarca
4. Da formação jurídica municipal
5. Comissão Exploratória de Governo
6. Das coletorias


1879 – Escolas pioneiras
I – Ensino Público
1. Curso de primeiras letras
2. O curso primário e o grupo escolar
3. Antigo curso ginasial
4. Ensino secundário
5. Delegacia de Ensino
II – Ensino Privado
1. Nos idos de 1872
2. Uma escola não identificada
3. Colégio Nossa Senhora do Amparo
4. Escola de instrução de leitura
5. Escolas de ensino particular
6. Curso municipal preparatório e outras escolas
7. Escola confessional – Seminário Católico
8. Ensino laico por instituições religiosas
9. Escola técnica de comércio
10. Ensino particular residencial
11. Cursos regulares de ensino infantil, fundamental e médio
III – Educação integrada e profissionalizante
1. Centro Educacional do Serviço da Indústria – Sesi 
2. Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – Senai
IV – Alfabetização [Educação] de Massas
1. Campanha de Alfabetização de Adultos
2. Licença ginasial
3. Madureza e Curso Supletivo
4. MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização
V - Cursos superiores 


1881 – Formação político-administrativa
1. Divisas e regularizações de posses
2. Dos famosos 'grilos' de terras em Santa Cruz do Rio Pardo
3. Divisas municipais
4. Alistamento militar – Tiro de Guerra
5. Código de Posturas de 1883
6. Água potável através dos regos
7. Delimitações de área urbana e levantamento de construções
8. Iluminação pública

1883 – Saúde e assistencialismo
1. Os primeiros e os destacados profissionais médicos
2. Outros profissionais de Saúde 
3. Saúde Pública
4. Nosocômios
5. Repartições públicas de saúde
6. Entidades caritativas assistenciais

1886 – Vias e meios de transportes
A) Vias terrestres
1. Os caminhos pelo sertão
2. Os veículos
B) Vias férreas
1. Estrada Sorocabana
2. Ferrovia do Peixe
C) Via aérea

1888 – Acontecimentos notáveis: o fim do império e o início republicano
1. Escravidões em Santa Cruz do Rio Pardo
2. Santa Cruz – sinopse de 1888
3. As últimas realizações do Império e Província para Santa Cruz
4. Seitas [religiões] cristãs acatólicas 
5. O advento republicano
6. Comarca de Santa Cruz do Rio Pardo
7. A Maçonaria
8. Ajustes territoriais e divisas

1889 – Conflitos armados: participações santacruzenses
1. Golpe militar de 1889 – a proclamação de república
2. Revolução federalista – 1893
3. 1ª Guerra Mundial – 1914/1918
4. Revolução de 1924
5. Revolução de 1930
6. Revolução Constitucionalista de 1932
7. 2ª Guerra Mundial – 1939/1945
8. Revolução camponesa de 1953
9. Golpe militar de 1º de abril de 1964


1892 – A agricultura livre e as imigrações 
1. Produtividade cafeeira
2. As grandes fazendas e os fazendeiros
3. Imigrações e imigrantes
4. Sobrevalorização das terras
5. Santa Cruz – sinopse de 1892


1895 – A imprensa
I - Imprensa Escrita
1. Os hebdomadários e bi-semanários santacruzenses
II - Imprensa falada
1. Emissoras de Rádio
1. O hediondo crime da 'mãozinha'
2. A ponte nova sobre o Rio Pardo pela Rua Saldanha Marinho
3. Santa Cruz sede do 5º Distrito Territorial
4. A Guarda Cívica
5. Uma ponte metálica sobre o Rio Pardo
6. A Guarda Nacional local 
– 1900 

História complementar – início do século XX
1. Entretenimentos
2. Diversões: cultura, esporte e lazer
3. Tecnologias de comunicação
4. Sistema financeiro: bancos e seguradoras
5. Pasta da Agricultura e os serviços interligados
6. Diagnóstico do município em 1926
7. Loteamentos pioneiros


Bibliografia – das citações, fontes, créditos e referências


-o-

APRESENTAÇÃO

—opção—

A história informada para Santa Cruz do Rio Pardo, em 1887, ignorava o tempo da chegada de Manoel Francisco Soares, porém tinha-o na lembrança como o pioneiro que, acercado de destemidos companheiros, muito combatera os indígenas ferozes que infestavam a região, e, na sede da fazenda onde residia, fincou a "cruz de madeira, que orgulhosamente se ostentava na beira do terreiro de sua habitação" (Almanach da Provincia de São Paulo, 1887: 541). 
Soares mandara, ainda, construir pequeno espaço religioso, coberto "com taquáras rachadas e sobre-postas umas ás outras (...). E desde então ficou a Santa Cruz como sendo a padroeira da povoação" (Almanach da Provincia de São Paulo, 1887: 542). Soares visualizou, então, a fundação de uma freguesia em suas terras.
À época igualmente lembrada a presença do Reverendo Padre João Domingos Figueira, como aquele que concorrera para execução do plano adotado pelo sertanejo na formação do povoado, conseguindo dele a doação de terrenos para o Patrimônio da Santa Cruz e, de imediato, fazendo levantar um templo religioso e nele entronar a imagem de São Sebastião, doada pelo Soares, e "ahi Manoel Francisco, sua numerosa familia, e todos os já então habitantes deste sertão e dos terrenos do patrimônio, se reuniam (...)" (Almanach da Provincia de São Paulo', 1887: 542). O lugarejo tornou-se Capela, em 1862, como povoação oficialmente reconhecida.
O histórico publicado em 1887, de provável autoria do Coronel e Deputado Provincial de São Paulo, Emygdio José da Piedade, tinha por objeto a história local a partir de 1870, com a chegada do fazendeiro e capitalista Joaquim Manoel de Andrade, o principal agente transformador do capenga lugarejo em próspera comunidade: "Os ranchos desde então foram esquecidos e, podemos affirmar, Santa Cruz do Rio Pardo nasceu em 1872, sendo desde então rapido o seu progresso e admiravel os melhoramentos que tem recebido." (Almanach da Provincia de São Paulo, 1887: 542).
Segundo aquela narrativa, a Santa Cruz de 1872 deixava a condição de Capela para transformar-se em Freguesia, sinônimo de progresso, sob os auspícios de Joaquim Manoel de Andrade, o mais rico e influente nome no lugar, inclusive o responsável pela elevação santacruzense à condição de vila e, consequentemente município, em 1876.
Com o advento republicano de 1889 e a declarada laicidade do estado em 1891, a Câmara e a Igreja travaram disputa pelos terrenos urbanos santacruzenses, e na pugna desapareceram muitos dos antigos documentos camarários e reescritos os eclesiais, nos tempos do Reverendo Padre Bartholomeu Comenale, mandatário local, Vigário Forense, Vereador – Presidente da Câmara, e depois Intendente.
A história primitiva da localidade, com efeito, perdeu-se, e a edição do Almanach de 1887 tornou-se o único apontamento, conhecido e disponível quanto às origens de Santa Cruz do Rio Pardo, com partes espelhadas, quinze anos depois, pelo Correio do Sertão (1902), sem a citação da fonte, daí os pesquisadores e interessados locais recorrerem-se ao citado hebdomadário como referência historiográfica.
A origem santacruzense oficializou-se, portanto, àquela maneira narrada pelo Almanach, edição de 1887, copiada pelo Correio do Sertão (1902/1903), e apenas no ano de 2005, com as publicações e atualizações digitais de 'Razias – Incursões predatórias em territórios indígenas do Vale Paranapanema' e 'Historiografia para Santa Cruz do Rio Pardo', ambas assinadas por SatoPrado, concluiu-se que a formação do lugar ou da fixação branca retroagia ao ano de 1851, comprovada por centenas de expedientes cartoriais, eclesiásticos e particulares, apanhados pelos autores.
As pesquisas, com apresentações de documentos autênticos e sem exclusões ou inclusões convenientes de acontecimentos, revelaram o vindouro território santacruzense palco de acontecimentos até anteriores a 1851, aí todos de itinerância, desde o atalho jesuítico entre o Paranapanema e a Serra de Botucatu, entre os anos 1608/1628, a trilheira bandeirante de 1721 e o caminho militar de 1771, calcados num quase mesmo trajeto, a despassar o Turvo aonde o baixio do rio, nas proximidades da barra do Alambari.
Como chão de passagem pode-se afirmar, com segurança documental, que em partes para o então futuro 'antigo' município de Santa Cruz, à beira direita do Paranapanema – entre as atuais municipalidades de Timburi e Ourinhos – passava a senda pré-cabraliana Peabiru, largamente utilizada por aventureiros, contrabandistas, faiscadores, bandeirantes, entradistas e religiosos.
Outrossim, igualmente 'resgatados' alguns dos ofícios de governo garantidores das presenças de arranchados nas sesmarias outorgadas entre o Pardo, às duas margens, o Turvo à esquerda e o Paranapanema aos fundos, a partir de 1759 até o abandono dos empreendimentos, por volta de 1780, para enfim a chegada do bandeirismo de José Theodoro de Souza, à frente de bugreiros, para as transformações decorrentes das ocupações predatórias em territórios indígenas.
A conclusão desta tarefa, como edição reescrita, corrigida e ampliada de 'Historiografias' e 'Razias', revela o ineditismo e singularidade historiográfica santacruzense, destacados seus líderes e influentes, registrados biograficamente naquilo que podido conhecer, até esta editação, aberta a discussões sem pretensões de 'história fechada', pois muito ainda se tem a pesquisar e informar.
Santa Cruz do Rio Pardo, 2014. 
Os autores, 
Celso e Junko Sato Prado

-o-
pradocel@gmail.com

1608 - PREALEGADOS HISTÓRICOS

—opção—

Atassalhando o véu das pressuposições
1. Antigos caminhos religiosos e bandeirantes
Antiga trilheira no território que viria ser Santa Cruz do Rio Pardo servia de passagem aos padres espanhóis e demandadores dos sertões, desde a Serra de Botucatu ao Salto das Canoas ou Quebra Canoas, no Paranapanema, em atual município de Salto Grande (Aluisio de Almeida 1959: 168).
Monsenhor Aluisio Almeida (1960: 41), estudioso jesuíta, melhor explica o curso deslocado da estrada pré-cabraliana Peabiru, que "subiu a serra, ganhou as cabeceiras do Pardo (Pardinho) antigo Espírito Santo do rio Pardo e desceu aquele rio até as alturas de Santa Cruz do rio Pardo, donde passou para o afluente Turvo e saiu nos Campos Novos do Paranapanema (nome mais novo)", prosseguinte até o Salto das Canoas, a partir de onde navegável o Paranapanema em direção às Reduções Jesuíticas (1608/1628) e Rio Paraná. Cartografia oficial de caminhos paulistas, séculos XVII e XVIII, confirma o uso do Paranapanema de sua barra ao Salto das Canoas, numa viagem com duração média de vinte dias (BDPI: Cart325602).
O trecho paulista Peabiru saía de São Vicente rumo a Piratininga – São Paulo, depois Sorocaba e, na entrada da Serra Botucatu, obliquava para os lados da hoje Avaré e daí ao Paranapanema, seguindo a margem direita até transpô-lo, aonde a atual Ourinhos, e seguir adiante por terras paranaenses ao município denominado Peabiru (Valla, 1978: 90). Os ibéricos conheciam a Peabiru, de São Vicente aos Andes peruvianos, com as primeiras andanças entre 1502/1513, mas foram os padres que produziram o atalho pela serra até o Salto das Canoas, denominado Paranan-Itu (Salto Grande) pelos Tupi.
Em 1719 instalou-se na Serra Botucatu a Fazenda Jesuítica conhecida por Boa Vista, para os propósitos inacianos além do comércio com os passantes, aventureiros e bandeirantes, oferecendo-lhes os padres, ainda, pouso e lugar de ajustes. 
Em 1721 o bandeirante Bartholomeu Paes de Abreu, primo do jesuíta reitor Padre Tenente Estanislau de Campos Bicudo, requereu à Câmara de São Paulo direitos para explorar uma estrada, do centro da então capitania paulista às minas de Cuiabá, calcada no leito da antiga Peabiru e da trilha jesuítica/bandeirante, ou seja, "a partir da 'ultima povoaçam', da última vila e, também, a partir do morro do Hibiticatú" (Apud, Figueiroa, 2009: Revista 4).
Sorocaba, à época, era a derradeira vila desde 03/03/1661, e a última povoação seria a sede da Fazenda Boa Vista, junto ao Ribeirão de Santo Inácio, passagem rumo a Paranan-Itu aonde "um rudimentar porto para as canoas que iam e vinham" para dali se chegar, segundo Paes de Abreu, "ao rio Paraná onde instalou três roças de milho, feijão, legumes e deixou 250 bois em uma delas" (Apud, Figueiroa, 2009: Rev. nº 5). 
No aguardo de autorização Paes de Abreu iniciou abertura de eito terrestre de Paranan-Itu até defronte o despejo do Pardo matogrossense no Rio Paraná (Giovannetti, Álbum Histórico do Município de Quatá, 1953: 1-2). Indeferido o pedido Paes de Abreu, desgostoso e com problemas judiciais, abandonou o projeto. 
Anos depois, em 1759, a expulsão dos jesuítas do território brasileiro, decretou o fim dos seus empreendimentos também em Botucatu, favorecendo a infestação indígena nas encostas e morrarias da serra, com prejuízos às iniciativas sesmariais.
2. A senda militar 
Por Ato de 06 de janeiro de 1765, o rei português, D. José I, nomeou Governador da Capitania de São Paulo, o Capitão-General D. Luís Antonio de Souza Botelho e Mourão, 4º Morgado de Mateus, encarregado em restaurar a capitania paulista, abrir ou refazer estradas, fundar cidades e povoar os sertões, fazendo guarnecer os rios Tietê, Paranapanema, Iguatemi, Paraná e Prata, assim a expandir fronteiras ao oeste e levantar fortalezas para proteger o sul contra os espanhóis, ainda ressentidos pelas perdas territoriais com o fim do Tratado de Tordesilhas.
Ainda, o Morgado precisava entregar segura a outrora fazenda dos jesuítas aos arrematantes, conceder novas sesmarias e ratificar as concessões anteriores, com o livramento dos perigos indígenas, para isto contratado o bugreiro Francisco Manuel Fiúza.
A região experimentou o progresso com o fluxo de pessoas vindas principalmente de Sorocaba, Itu, Itapetininga e Porto Feliz, atraídas pela promessa de fundação de novos povoados e distribuições de terras nas cercanias e adiante da Serra Botucatu, como sentinelas avançadas e fortalezas, sendo Simão Barbosa Franco o encarregado das ações (Donato, 1985: 47-48).
Com essa visão militarista o Morgado determinou a construção da senda militar, em 1770/1771, a entrar pela Serra Botucatu até a barra do Pardo ou, mais propriamente, ao Paranan-Itu, sob as ordens do Capitão-Mor de Sorocaba, José de Almeida Leite, para articulações com as bacias hidrográficas dos rios Tietê, Paranapanema, Paraná, Iguatemi e Prata, incentivando o povoamento do sertão e sua defesa das pensadas incursões espanholas.
O Almeida Leite prestou contas do compromisso ao Morgado, dando-o por realizado em 1772, sendo certo sua chegada à margem do Paranapanema. 
3. As sesmarias ao longo dos caminhos
O Vale do Pardo, no entanto, não foi apenas corredor de acesso entre a Serra Botucatu e o Rio Paranapanema; documentos creditam-lhe grupos arranchados, desde que João Álvares de Araujo, por volta de 1730, rumou "para o sul, costeando a serra e posicionando-se além do Rio Pardo" (Donato, 1985: 44), à beira do caminho religioso/bandeirante e por onde haveria de passar, décadas depois, a senda militar.
João Pires de Almeida Taques, pelos anos de 1750, obteve sesmaria no Pardo "além do dito rio no novo caminho que se abriu para a Praça de Iguatemy, em tempos povoados por João Alvares de Araujo" (Repertório das Sesmarias, L. 19, fls. 121-v). 
Aluisio de Almeida, confirma os aparentados João Pires, José de Almeida Leme, e Antonio Pires de Almeida Taques, sesmeiros no Pardo abaixo, e que Antonio [Pires] de Almeida Taques, em 1770, beneficiara-se de terras à margem esquerda do Rio Pardo (Repertório das Sesmarias, L. 21, fls. 46).
Documentos atestam que Claudio de Madureira Calheiros, em 1771 requereu sesmaria, adiante daquela do sogro Vicente da Costa Taques Goes e Aranha, a acompanhar o Turvo, margem esquerda, à sua barra no Pardo (Repertório das Sesmarias, L. 21, fls. 70). Destarte, as sesmarias à direita do Pardo "já estavam ocupadas por Vicente da Costa Taques (...), e por Francisco Paes de Mendonça e Jeronymo Paes de Proença, c. 1779" (Pupo e Ciaccia, 1985: 23). 
Acima destes situavam-se João Alvares, Antonio Machado e os Pires, e daí um vão até as terras sesmadas do citado Madureira Calheiros, do qual ciente Manoel Correa de Oliveira que, em 1780, pediu o chão entre aquelas sesmarias sobrando-lhe "as terras do espigão entre o Pardo e o Turvo, até a barra deste naquele." (Pupo e Ciaccia, 1985: 22-23).
O Repertório das Sesmarias (L 21 fls. 100 e L 25 fls 82) ratifica os nomes daqueles relacionados sesmeiros à margem direita do Pardo, e confirmadas, também, as sesmarias concedidas do espigão à margem esquerda do Turvo, e do outro lado deste nenhuma sesmaria notada. 
Mais para o Vale Paranapanema, pela antiga Peabiru, existiu a Sesmaria das Antas "em Lençóis, onde hoje está a povoação da Ilha Grande [Ipaussu] no município de Santa Cruz do Rio Pardo" (Silva Leme, 1905: 403, vol. VI), originariamente concedida a Luiz Pedroso de Barros, aos 09 de dezembro de 1725, repassada a José Monteiro de Barros, avô materno do famoso sertanista Tenente Urias Emygdio Nogueira de Barros (1790-1882), que a recebeu por herança, estimada extensão de três léguas de terras nos atuais municípios de Ipaussu e Chavantes – Distrito de Irapé (Tapi'irape: Caminho das Antas), com largura de uma légua a partir da margem paulista do Paranapanema.
Das fazendas e sesmarias adiante de Botucatu atestam-nas a 'Carta Provincial do Governo de São Paulo, de 12 de fevereiro de 1771', obrigando os moradores na região do Pardo prestar ajuda, em tudo que deles necessitasse, o Capitão Almeida Leme, na abertura da vereda militar, concluída em 1772.
Dos restos de sesmarias, no começo do século XX, residentes sorocabanos descendentes dos Pires anunciavam a venda de 4.000 alqueires de terra em Santa Cruz do Rio Pardo (Aluisio de Almeida, 1959: 255).
4. A falência dos empreendimentos
Martim Lopes Lobo de Saldanha assumiu o governo paulista (1775/1782), como 'Capitão General', e optou pelo abandono de tudo quanto planejara ou realizara o Morgado, seu antecessor, em Botucatu e adiante da serra. Com o desamparo dos feitos as sesmarias não progrediram, as fazendas fracassaram e os arranchados, isolados e à mercê da crescente e ameaçadora presença indígena, retiraram-se. 
Os índios expulsos por Fiúza, em 1770, retornaram mais ou menos dez anos depois, com seus descendentes e acrescidos de outros grupos e restos tribais, para formar numerosa e preocupante população adversa ao progresso, postando-se nas encostas das serras, onde a geografia lhes facilitava os movimentos e táticas de combates, impedindo o expansionismo capitalista.

1780 - DOS POVOS E NAÇÕES INDÍGENAS

—opção—

O despovoamento branco adiante da Serra em direção ao Rio Paraná incentivava chegadas de índios, isolados ou em bandos, sobreviventes escorraçados pelos fazendeiros de diferentes regiões.
A população indígena, a contar de 1780, crescera de maneira tal que, em 1835, já se dizia de infestações nas morrarias e furnas das Serras de Agudos e de Botucatu, nos Vales do Pardo, Peixe, Feio/Aguapeí e do Batalha, além do Paranapanema paulista. 
Deste modo, nas primeiras décadas do século XIX todo o interior paulista, entre os rios Tietê e Paranapanema, adiante da serra à barranca do Rio Paraná, transformara-se num vazio desconhecido da civilização, região inóspita e insalubre, habitado por animais selváticos, enquanto os índios movimentavam-se dentro desse espaço geográfico, escolhendo áreas e por elas guerreando com os rivais, inclusive no Vale do Pardo santacruzense, aonde contadas algumas etnias.
1. Caiuá 
O Caiuá, subgrupo identificado erroneamente por 'Caiuá-Guarani', vivia nos espigões e beiras de pequenos rios, ao longo do divisor Pardo/Turvo. 'Caa-wa' tem significado de 'o feio do mato', ou espinho, no sentido de imprestável.
Há consenso que bandos distintos Caiuá e Guarani, propriamente dito, tenham vindo do sul de Mato Grosso, Paraná, leste do Paraguai e nordeste da Argentina, onde desapossados de seus termos procuraram segurança em terras do Planalto Ocidental Paulista, unindo-se aos destroços tribais no Pardo, após 1835, depois de infausta querença pelos lados de Itapetininga e Itapeva.
2. Xavante
O Xavante ou Chavante tornou-se conhecido como 'índio do cerrado', por significado vocabular indígena 'šhavante', embora inexista uniformidade gráfica senão o aportuguesamento fonêmico, admitindo-se 'šhavan' similar a 'savana', sinônimo de cerrado, então designação não indígena.
Considerados Xavante todos os índios à banda Ocidental do interior paulista, não há unanimidade quanto a designação e origem, posto tais populações confundidas com os 'Akuén-Xavánte', da família Jê, do Brasil Central. Segundo o estudioso Egon Schaden, os denominados 'Xavante Paulista' constituíam em verdade duas tribos diversas, as Otí e Opaié (1954: 397).
Justifica-se a denominação errada, a Carta Régia de 05 de setembro de 1811, que autorizava a Guerra aos Xavante, entre outras nações específica, pelos danos que supostamente causavam ao branco (Xavante: Panorama...), que ainda se fez prevalecer quando das penetrações das frentes pioneiras, em 1850/1851. 
Daí a assertiva de Hercule Florence: "chamam-se Xavante a todos os índios que aparecem na parte ocidental da Província de São Paulo e para la do Tietê." (1876: 375 R-1), e aos brancos, então propositadamente, permitiram acometimentos preventivos aos Xavante, de origem ou não.
2.1. Oti-Xavante
O dito Oti-Xavante, escorraçados dos lados de Bofete, por volta de 1840 assentou-se nos cerrados entre em alguns afluentes do Rio Turvo às duas margens. 
Não se sabe quantos Oti-Xavante habitavam o sertão quando da chegada de José Theodoro e seu grupo no início de 1850, mas vinte anos depois, estavam reduzidos a menos de quinhentos indivíduos, reunidos em umas poucas aldeias de trinta a quarenta pessoas cada (Tidei Lima, 1978: 135). 
Já além dos anos de 1870, segundo Curt Nimuendaju, pelos lados de Conceição de Monte Alegre, em atual município de Paraguaçu Paulista, promoveu-se um massacre aos Oti "barbaramente assassinados sem distinção de idade ou de sexo (...). É difícil saber-se o número de Otis chacinados (...). Afirma José de Paiva, que tomou parte no feito, que os cadáveres estavam empilhados em grande quantidade." (Tidei Lima, 1978: 135 e 136). 
2.2. Ofaiê-Xavante
Segundo o mapa etnográfico de Hermann von Ihering e os dados levantados por Curt Nimuendaju, depois por Darcy Ribeiro, os Ofaiê são classificados distintos dos Akuen e dos Oti (Tidei Lima, 1978: 41-A).
Antigos sertanistas citavam presenças de índios Ofaiê-Xavante na região de Jaguaretê e Laranja Doce (Giovannetti, 1943: 58), compreendendo-se que o Ofaiê seja oriundo do sul mato-grossense, de toda bacia inferior do Pardo e do sul do Mato Grosso, que entraram em terras bandeirantes por volta de 1910, perseguidos pelos fazendeiros instalados.
Os Ofaiê-Xavante foram violentos e opositores ao avanço dos brancos, adiante de Conceição de Monte Alegre, conforme "estão a testemunhar a rapida extinção da tribo e as histórias das chacinas de que foram vítimas" (Darcy Ribeiro – 1951, apud Tidei Lima, 1978: 41-A e 42). Darcy Ribeiro conviveu por semanas com os últimos sobreviventes Ofaiê, em 1948, ocupante das margens do Santo Anastácio (Tidei Lima, 1978: 41-A).
Descendentes dos primeiros desbravadores regionais contam que as famílias Nantes, Botelho e Medeiros, entre outras, valeram-se dos préstimos de bugreiros como João Hipólito, João da Silva Oliveira, José Theodoro de Souza Junior e o Coronel Francisco Sanches de Figueiredo, para matanças de índios, e fazê-los refugiarem-se para além dos rios Paranapanema e Paraná, deixando livres as terras pretendidas. Em empreitadas do gênero foram exterminadas tribos inteiras de 'Xavante Paulista', Oiti e Ofaiê, independentes se pacíficas ou não.
3. Caingangue
O Caingangue ou 'Caa-Caing', também grafado Kaingang, com significado 'gente do mato' (designativo xavante) e habitava matas fechadas às beiras dos rios maiores, na região do médio Paranapanema e o Pardo. Foi cognominado 'Coroado' pelo branco, em causa do corte de cabelo. Seria 'primo' do Xavante, com certa semelhança de fala, por isso do grupo 'Macro-Jê' para os especialistas.
De origem controvertida, os grupos que se apresentaram no planalto ocidental paulista seriam oriundos das margens do rio Uruguai (Jorge Junior, 12/03/1969), com presença não anterior ao ano de 1800, extremante resistentes aos brancos e belicosos com outras etnias. 
Nos últimos anos do século XIX já não havia índios selvagens no Planalto Ocidental Paulista senão o Caingangue, e contra eles os brancos investiram em disputa de vasto território de 35 mil quilômetros quadrados, sendo 15 mil do Vale do Peixe e 12 do Feio/Aguapeí ainda ocupado por tribos daquela nação. Os outros oito mil quilômetros quadrados, no Vale do Batalha e Baixo Tietê após a Serra de Agudos, nas denominadas Terras de Lençóis até o Avanhandava e Itapura, também eram territórios Caingangue em disputa com os brancos. 
Entre 1907/1912 os Caingangue já não se apresentavam mais como unidade tribal, posto fracionado em grupos nômades independentes, ainda num imenso espaço territorial. Aparentemente a fragmentação foi decorrente de estratégia dos brancos em isolar grupos e assim enfraquecê-los, com resultado desastroso, pois que os Caingangues tornaram-se muito mais perigosos, agindo cada grupo isoladamente, com extrema mobilidade e grande capacidade de atacar de surpresa em diversas frentes contra os inimigos regularmente ordenados. 
De 1908 a 1911 as frentes de ocupação não mais conseguiam progredir dentro do território Caingangue, os trilhos da estrada de ferro não avançavam, os ataques indígenas se tornaram cada vez mais frequentes e eficientes.
Diante as dificuldades os empreendedores optaram negociar, também em atenção às insistentes pressões de grupos intelectuais, políticos e militares, além de organismos internacionais, a culminar com a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), sob direção do então Coronel Candido Rondon, com a missão de evitar mais chacinas e apaziguar os Caingangue (Castelo Branco, 2004: 16/07), e ainda assim dizimados outros quinhentos índios da etnia (Cruz, 2006: v. 6, n. 1/2/3, p. 39-45, texto por referência ao trabalho de Silvia Helena Simões Borelli, 1984: 70).
Para maior eficácia de ação o SPI buscou grupos Caingangue pacificados da bacia do Tibagi e línguas -linguarás ou intérpretes, para ajudar nos contatos em 1912, destacada a célebre índia Vanuire, a maior colaboradora na pacificação dos Caingangues paulistas, dirigindo-se diretamente aos grupos indígenas espalhados, ou, da copa de grandes árvores gritando-lhes pedidos de paz (Vanuire: Lenda da Índia, Museu Índia Vanuire, Tupã - SP). 
Logo após os primeiros contatos (1912/1913), metade dos Caingangue no Estado de São Paulo morreu de epidemia de gripal (KAINGANG: Enciclopédia Povos Indígenas do Brasil, Histórico do Contato, 2001: 7, ref. Horta Barbozza), sobrevivendo "do contingente estimado em 4 mil (...) apenas 700" (Castelo Branco, 2004: 16/07). 
Os sobreviventes foram então reduzidos em Icatu, hoje região pertencente ao município de Braúna, próximo de Araçatuba, e depois o Índia Vanuíre [1917] em Arco Íris, vizinhanças de Tupã (SP). Os índios aldeados em Índia Vanuíre não foram apenas os sobreviventes de grupos paulistas, e nem puramente Caingangue (Cruz, 2006: v. 6, n. 1/2/3, p. 39-45), agora atacados por outros inimigos não menos impiedosos: doenças, como gripe espanhola e sarampo, contra as quais não tinham imunidade. "Em 1916 estavam reduzidos a 173" (Castelo Branco, 2004: 16/07). 
Um absurdo: "Os índios Kaingang paulistas chegam ao século XXI reduzidos a menos de duas centenas de indivíduos confinados em espaços bem restritos" (Cruz, 2006: v. 6, n. 1/2/3, p. 39-45).
A estratégia que garantiu a eficácia da conquista final do território Caingangue, sem dúvidas foi a de treinar e transformar grupos aldeados em intermediários a serviço dos conquistadores, e dos Caingangues, em torno de 4% sobreviveram a carnificina. 
4. Magotes ou os destroços tribais
Desde a quebra da resistência Caiuá (1850/1858) com extermínio quase total, depois a dos Xavante (1870/1880) também com supressão, restos tribais transformados em grupos vagantes, incorporando pelos caminhos outros bandos afugentados, do Paraná e Mato Grosso do Sul, para formar forte resistência adiante do Capivara e em direção, ao Vale do Santo Anastácio, gradativamente à medida da progressão sertaneja.
Tais contados foram denominados Magotes – índios de diferentes etnias ou sem elas, como resíduos populacionais unidos e propositados em conter o avanço dos colonizadores, adotando regras de ataques preventivos com incursões às regiões do Pari-Veado ou mesmo São José do Rio Novo – Campos Novos Paulista. 
Quando os brancos chegaram para as ocupações das terras paulistas, entre o Paraná e o Paranapanema, lá encontraram "os indios pretos denominados Chavantes, os (Ouatós), que moram nos campos, os Lainos, Camacosos, Quiniquinau, Coroados, Charraos, e Botocudos, os quaes se escondem para que a civilização não lhes penetre em seus territórios." (Domingos José Nogueira Jaguaribe Filho [Dr. Jaguaribe Filho], 'O Sul Paulista' – Cartas II, 1885, apud Correio Paulistano Correio Paulistano, 13/12/1885: 1). 
Sobreviventes e até os Caingangues uniram-se aos destroços tribais no Santo Anastácio, como a última resistência indígena à supremacia branca. 
5. Dos autodenominados Tupi
Tidos por especialistas como subgrupo Guarani os Nhandéva, hoje aldeados em Araribá (referência 2014), auto intitulam-se descendentes Tupi, já rejeitando as identificações Tupi-guarani ou Caiuá-guarani.
Concordam Denise Monteiro de Castro e Marcos Garcia Neira, em 'Cultura Corporal e educação escolar indígena – um estudo de caso': "e os Nhandéva, que se autodenominam 'Tupi-guarani' ou simplesmente Tupi'-." (Revista HISTEDBR On-line 2009: 236), na verdade o vocábulo tem o significado de "-'todos nós' (todos nós índios)" (Rodrigues de Almeida, 2013: 6).
Para Nimuendaju não há traços Tupi entre os Guarani primitivos no território paulista. Outrossim, exceto aos reconhecidamente miscigenados, é errada a classificação Tupi-guarani, ou alguma língua denominada tal, consoante em algumas literaturas, o que evidentemente não impede algum índio bilíngue.
No entanto os Tupi passaram por tantos aldeamentos que não se pode mais, desde o final do século XIX, determinar algum representante seu de pura origem no território paulista, posto fruto de miscigenações de brancos, negros, pardos, além de outras etnias indígenas, à exceção Caingangue. Os índios, vistos no interior paulista no último quartel do século XIX, quase não possuíam pureza ou não representavam etnia confiável.
Desde os tempos da Fazenda Jesuítica Botucatu os padres incentivavam as miscigenações entre brancos, negros e índios, para a pretensa formação do homem brasileiro ideal, como se pensava na época, com a inteligência do branco, a robustez de negro e indolência do índio. 
Depois, no século XIX viriam os aldeamentos instituídos oficialmente na Província de São Paulo, e quase de imediato surgiram os primeiros núcleos de proteção ao índio, inicialmente em regiões litorâneas e próximos à capital, depois, a pedido de João da Silva Machado – Barão de Antonina, também no sudoeste paulista, sendo o primeiro deles na localidade de São João Batista do Rio Verde [futura Itaporanga], fundado com o mesmo nome em 1845, para o qual designado diretor o frei capuchinho italiano, Pacífico de Montefalco, auxiliado por outros dois freis italianos, Galdêncio [Gaudêncio] de Gênova e Ponciano de Montaldo.
Outros aldeamentos conhecidos, São Sebastião do Tijuco Preto, nas proximidades da atual Piraju, em 1854; São Pedro de Alcântara, na localidade de Jataizinho - PR, em 1855; Aldeamento Pirapó, também conhecido por Nossa Senhora do Loreto, ainda em 1855; o de São Jerônimo da Serra em lugar de igual nome, no ano de 1859, situado às margens do rio Tigre um afluente do Tibagi; e o de Santo Inácio, em 1862, e também, no mesmo ano, o aldeamento Itacorá, em Salto Grande.
Os Tupi primitivos eram caçadores, inclusive de inimigos tribais, para os sacrifícios ritualísticos onde a ocorrência antropofágica. Não opositores ao entradismo branco e até colaboracionistas, viram suas mulheres gerando mamalucos - das uniões com brancos, e logo privados da essência canibalesca de sua cultura. O canibalismo foi combatido à exaustão pelo clero e reinóis, e os Tupi tornaram-se caçadores de índios para a escravização requerida pelos colonizadores.
Para Schaden (1954: 391) "Com toda razão aponta Charles Wagley (1951: 117) o fato que a eliminação da guerra e do sacrifício dos prisioneiros, através da proibição rigorosa pelos portugueses, removia uma das motivações centrais da cultura Tupi." 
Recentemente parte do grupo indígena do aldeamento Araribá, em Avaí - SP, antes conhecido como Caiuá-guarani, depois Nhandeva-guarani, agora autodenominam-se Tupi, deslocou-se de Araribá rumo a Barão de Antonina e Itaporanga para retomarem as terras entendidas suas, desde os tempos do aldeamento, e da qual entendiam expulsos pelos fazendeiros, na primeira década do século XX.
Reconheceu-lhe os direitos a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 231, para "(...) sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo a União demarca-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens." 
Parte dos Nhandeva permaneceu em Araribá, confinada entre os Terena, conforme reclamações, e requer terras na antiga localidade de São Domingos, consideradas devolutas e de seus antepassados que lá habitaram.
Os autores foram procurados por representantes Nhandeva, de Araribá, para obtenções de documentos que possam atestar-lhes passagens pelas regiões de Santa Cruz do Rio Pardo e Domélia - Distrito de Agudos, inclusa a extinguida São Domingos.
Os Nhandeva fundamentam-se numa lenda contada pela matriarca, que em 1808 os antepassados deixaram Barão de Antonia e Itaporanga, rumo ao Batalha na região de Bauru. Parte chegou e parte teria ficado pelos caminhos, em São Domingos. Dos que chegaram, logo convencidos por Nimuendaju, aldearam-se em Araribá, criado em 1910 e ativo a partir de 1912.
-o-

1848 - RECONHECIMENTOS HISTORIOGRÁFICOS

—opção—

Incursões predatórias em territórios indígenas
1. O capitalismo contido no alto da Serra Botucatu 
Aonde viria ser Botucatu havia um povoado ou arranchamento conhecido por Nossa Senhora das Dores no Cimo [ou em Cima] da Serra, coisa pouca, habitado famílias de pequenos posseiros. O lugar, consta, fundado por Simão Barbosa Franco, e citado em 1779 contando "apenas 7 fogos ou casas, com 48 moradores, incluindo-se os chefes de família, suas mulheres, filhos, agregados e escravos" (Almeida Pinto, 1994: 23).
Em 1808 o Capitão José Gomes Pinheiro [Vellozo] teria chegado à região dimensionando terras e, em 1816 já adquirido a antiga sesmaria do Capitão João Pires de Lara (nome modificado para João Pires de Almeida Taques), e a seguir anotado demandador contra pequenos posseiros instalados na propriedade. Se no Cimo da Serra os arranchados davam-se bem com os índios, o mesmo não acontecia com os intrusos que o Capitão pretendia instalar, e nem com os demais fazendeiros divisos.
Político liberal em Itapetininga, o Capitão Gomes Pinheiro reivindicava apoio do governo paulista para conter os perigos indígenas que ameaçavam os fazendeiros e famílias trabalhadoras na serra. O atendimento, caso ocorresse, significaria a autorização para o avanço armado, como medida preventiva, sobre tribos indígenas; e não o conceder seria expor os brancos à sanha dos selvagens. 
A tensão sobrecarregou-se com a edição da Lei Imperial de 27 de outubro de 1831, revogando as disposições das antigas Cartas Régias nas partes que permitiam declarar guerra aos índios, ainda que preventiva, até o extermínio se necessário, e a servidão dos capturados. 
Com a política indigenista então afeta ao poder central, o governo paulista não demonstrava qualquer interesse com fundações de povoados ou expansões territoriais civilizadas na região e adiante dela, menos ainda nos investimentos em infraestruturas de sobrevivência ou na colonização exploratória. 
A atenção provincial mantinha-se para os lados da Mantiqueira e Vale do Paraíba onde prósperas a cafeicultura para exportação, enquanto para interior propriamente dito os investimentos maiores destinavam-se às regiões de Araraquara e Ribeirão Preto, onde a importância da criação de gado e as primeiras lavouras de café.
O avanço entre os rios Tietê e Paranapanema, portanto, preocupava tão somente aos fazendeiros da serra, e isto deveria ocorrer sem a presença ordenadora do governo paulista que não possuía condições ou vontade em manter medidas de segurança para evitar o chamado perigo indígena, não avalizava a retirada dos índios e nem se prestaria para mediar conflitos.
Pesava que o extermínio indígena, ou sua escravização, não estava bem visto internacionalmente, e sobre o Brasil pesavam pressões e sanções econômicas nada interessantes para o comércio exportador, principalmente do café. Oficialmente, pela citada Lei de 1831, os índios estavam declarados órfãos e tutelados pelo Império, que deveria então protege-los em aldeamentos, ou de qualquer maneira evitar massacres.
Para os fazendeiros, no entanto, o sistema de aldeamento precisava ser repensado, pois o aldear os naturais sem retribuições ou obrigações de prestações de serviços compulsórios gratuitos, seria o mesmo que acometimento pacífico por forçar os proprietários e a população contribuírem com a manutenção indígena.
Os selvagens não apenas incomodavam como tocaiavam e matavam os brancos com extrema crueldade, empalando, crucificando, degolando e esquartejando corpos de maneira a causar terror entre as famílias desbravadoras. Adotaram também métodos de luta dos brancos, transmitindo táticas de combate, como não se defrontarem com o inimigo em campo aberto, preferindo as matas onde mais facilmente se abrigavam dos tiros, além da facilidade por ataques surpresas ou combates corpo a corpo, cientes que suas flechas eram quase sem efeito contra as proteções que os brancos usavam sobre o corpo, os escupis e couras, ou pelas corridas ziguezagues que praticamente lhes impediam fixar o alvo.
Outro eficiente sistema indígena era chegar, pelas matas, em grupos diversos, até onde estavam os brancos e ali atacá-los de surpresa para assim impedir-lhes os avanços até as aldeias. Apesar das tantas tentativas, os brancos não conseguiam avançar sertão dada a feroz resistência indígena encarnada nos Caiuá, pelos lados de Itatinga e Avaré; os brancos, quando não trucidados, fugiam.
Apenas cinco fazendeiros conhecidos insistiam permanecer no alto da serra: o Capitão Apiaí – Ignácio Dias Baptista, o Capitão Joaquim Gabriel de Oliveira Lima, o José Inocêncio da Rocha, o Capitão José Gomes Pinheiro Vellozo, e um tal Marques cuja propriedade assumida, por volta de 1832, pelo tropeiro Joaquim da Costa Abreu, mineiro de Silvianópolis, com interesses em Araraquara, no Bairro do Jacaré. 
Praticamente desconhecido na história, Joaquim da Costa Abreu era casado com Floriana Maria Marques, filha natural de Antonia Maria de Jesus, sendo certo herdeira de João Marques, sesmeiro agrupado a outros na região botucatuense, e dono de posses também para os lados de Araraquara, no Bairro do Jacaré. As terras do Marques, conhecidas por Costa Abreu, atingiam o Rio Claro, afluente do Pardo.
Costa Abreu sabia dos vãos entre as sesmarias e as terras devolutas que podiam ser apossadas na serra, sem comprometimentos maiores, a partir das divisas do Capitão Gomes Pinheiro, e então o notável acordo entre eles para as ocupações, as matas para Costa Abreu e os campos para o Capitão, que enxergara em Costa Abreu o homem certo para a arredar ou, se preciso, exterminar o selvagem, daí de melhor agrado consentir-lhe a ocupação das matas.
Com o acordo selado Costa Abreu de imediato trouxe dezenas de famílias mineiras interessadas em povoar o sertão e trabalhar a terra, instalando-as nos arredores do povoado Nossa Senhora das Dores no Cimo da Serra, para cujo patrimônio doara, informalmente, porção maior de terras para melhor acomodar a população chegante.
Costa Abreu apossou as terras que lhe cabiam no acordo, doou informalmente porção ao patrimônio de Nossa Senhora das Dores no Cimo da Serra, e em 1839 trouxe famílias diretamente do sul-mineiro e aquelas por ele já interiorizadas no território paulista, para trabalhar a terra, "a mineirada dos Costas" (Almeida Pinto, 1994: 29), e Euzebio era o representante do irmão (Donato, 1985: 55).
O sucesso de Costa Abreu em expulsar os índios e garantir fortaleza atraiu outros fazendeiros. O agricultor Pedro Nardes Ribeiro ou Pedro Ribeiro Nardes deixou Itapetininga, em 1834, para estabelecer-se com a família e agregados às margens do Ribeirão Grande, nas cercanias de Aimorés, atual município de Bauru. Depois Nardes desceria para o Rio Grande do Sul para lá crescer a sua família.
Os sorocabanos Procópio José de Mattos e Domingos Palmeira, em 1835, avançaram adiante da Boa Vista - antiga Fazenda Jesuítica - e apossaram terras das quais destacada a Fazenda Palmeira.
Também Ignácio Dias Baptista - o Capitão Apiaí, à mesma época senhoreou-se de terras, campos e matas, desde as nascentes e vertentes dos Ribeirões São Domingos e Forquilha aos respectivos despejos no Turvo, e nos lugares estabeleceu os arranchamentos Forquilha e São Domingos, depois bairros rurais, e São Domingos tornou-se fortaleza e sentinela sertaneja antes de ser elevada à condição de paróquia eclesiástica e freguesia. 
O Capitão Gomes Pinheiro igualmente avançou conquistas adiante da Serra de Botucatu, e em seu nome registradas terras na região de Bauru confinantes ao Nardes (IBGE/EMB Vol. XXVIII, Bauru, 1965: 132-133). 
A despeito das exitosas campanhas de Costa Abreu, não se exclui violentas reações indígenas. O Capitão Apiaí [Ignácio Dias Baptista] foi capturado, morto e crucificado em 1838, e outros fazendeiros já haviam experimentado as agruras nas mãos do inimigo que, habilmente subia a serra para os ataques impiedosos, e regressava para as fraldas onde se faziam imbatíveis.
De outra maneira, não tardou o desentendimento entre Costa Abreu e Gomes Pinheiro, este acusando aquele de investir sobre suas terras, mudando divisas e a cancela, e entre eles a célebre 'contenda da porteira' que os zelosos de Costa Abreu defenderam a bala impingindo derrota ao bando do Capitão.
Insatisfeito o Gomes Pinheiro entrou em juízo para reaver pressupostos direitos, mas Joaquim da Costa Abreu morreu antes da decisão, no ano de 1840, e em seu lugar assumiu o irmão Euzebio da Costa Luz, político conservador. 
A ideação política do Capitão Gomes Pinheiro levou-o partícipe na Revolução Liberal de 1842, em Sorocaba, e lá encontrava-se o adversário conservador Euzebio da Costa Luz, e neste incidente histórico, o mineiro José Theodoro de Souza, futuro conquistador do sertão, reagiu à força e libertou Costa Luz.
Fracassada a Revolução, Gomes Pinheiro refugiou-se numa de suas fazendas, em Botucatu, ao alcance de Costa Luz e ver-se forçado renunciar a ação judicial e celebrar acordo, no qual doaria uma porção de terras para criação do patrimônio e futura freguesia, onde o bairro Nossa Senhora das Dores de Cima da Serra, com mudança do nome da padroeira para Santa Anna de Cima da Serra [de Botucatu], para uns, singela homenagem do Capitão à esposa Anna, embora a mulher de Euzebio também se chamasse Anna.
A história ratifica o poder de Costa Luz, quando o conservador Dionizio Pereira da Silva, assassino do Senador Padre José Bento Ferreira de Mello, entre Pouso Alegre e Ouro Fino – MG, deixara a província mineira para colocar-se sob a proteção do mandatário em Botucatu. Dionizio até fora preso, porém resgatado numa ação ordenada e a seguir orientado refugiar-se para os lados Itararé/Paranapanema, onde viveu em segurança por três décadas até ser recapturado (Correio Paulistano, 06/11/1887: 2), aparentemente denunciado por sua concubina no sertão.
Com a anistia imperial de 1844 e a formação de um Ministério Liberal, Gomes Pinheiro ergueu-se contra Costa Luz intentando como novos mandatários em Botucatu, o João da Cruz Pereira e o Felisberto Machado, representantes liberais e encabeçadores de abaixo assinado pleiteando que lugar fosse elevado à condição de freguesia. O próprio Gomes Pinheiro, Vereador em Itapetininga pelo Partido Liberal, no ano de 1845 assumiu a subscrição e requereu criação da freguesia em sucessivas reivindicações conforme atas daquele Legislativo, e aos 19 de fevereiro de 1846, o Presidente da Província de São Paulo, Manoel da Fonseca Lima e Silva, enfim sancionou a lei nº 283, elevando a freguesia o Distrito de Cima da Serra de Botucatu, sob a invocação de Santa Anna, lugar depois denominado Botucatu.
Mas, Costa Luz ainda se sustentaria mandatário por alguns anos, aparentemente mais interessado em povoar o sertão, trazendo famílias inteiras de Minas Gerais com os principais bugreiros: Bicudo, Cardoso, Chaves, Cunha, Dultra, Dutra, Dutra Pereira, Ferreira, Leite, Leme, Lima, Machado, Moraes, Moreira, Moreira Silva, Nunes, Oliveira, Ortiz de Oliveira, Pereira, Pontes, Reis, Santos, Silva, Soares, Soares Monteiro e a Souza, na qual inclusos Antonio e o irmão, pioneiro-mor, José Theodoro de Souza. 
  • Documentos eclesiásticos, a partir de 1847, confirmam algumas daquelas famílias residentes na então Província de São Paulo, em aguardo nas principais cidades, vilas ou freguesias ditas civilizadas como Araraquara, Botucatu, Brotas, Dois Córregos, Jaú e São Domingos. 
Apenas em 1849 Costa Luz deixou o poder em Botucatu, ou dele apeado, e o Capitão Tito Correa de Mello assumiu o mando, também como herdeiro do sogro Gomes Pinheiro, morto no ano anterior.
Ao ensejar a conquista do último rincão inculto da província paulista, Costa Luz ou às suas ordens teria feito esquadrinhar o sertão, das dimensões de Holanda, para saber onde localizadas as aldeias, os números de seus guerreiros, os acidentes geográficos, os caminhos e, até, os usos e costumes do povo a sofrer as ofensivas, apresentando assim a possibilidade de ataques relâmpagos, quase simultâneos, em toda a região a ser ocupada, conforme viria acontecer.
  • Considere-se nisto o uso de índios mansos para levantamentos, aliados ao costume do selvagem não atacar passantes, situações de valia para os observadores.
2. Das verdades sobre a conquista sertaneja
A oficialidade botucatuense, em 1889, quando já mortos os principais nomes da conquista sertaneja ou decrépitos os sobreviventes, determinou versão histórica do lugar e da conquista sertaneja centrada nas figuras do Capitão José Gomes Pinheiro Vellozo e do seu genro, o também Capitão Tito Correa de Mello, que em maior parte foi o responsável pela variante imposta.
Depreende-se das tradições que o Capitão José Gomes Pinheiro Vellozo foi o fundador de Botucatu, enquanto o Capitão Tito Correa de Mello o nome principal da conquista sertaneja, variantes que não mais se sustentam.
Na conquista sertaneja, nada obstante, determinava-se que o Gomes Pinheiro desejava desde antes povoar o sertão e em 1842, quando de seu esconderijo na Fazenda Monte Alegre, escrevera ao 'amigo' José Theodoro de Souza "Que viesse ver as terras da serra. Garantia que não ia se arrepender" (Marins, 1985: 25). Mas não existe registro que José Theodoro de Souza tenha recebido alguma carta ou atendido convite do Capitão Gomes Pinheiro, menos ainda que fossem amigos.
Tito, por sua vez, quando feito mandatário em 1849 teria enviado carta ao 'compadre' José Theodoro de Souza, convocando-o reunir bando, deixar Minas Gerais e vir urgente ao sertão para dar combate aos índios. 
Tenor afirma que o Capitão Tito, naquele ano "decidiu-se chamar seu irmão de forja, José Teodoro de Souza, que morava em um pequeno sítio na cidade de Pouso Alegre, na Província de Minas Gerais, através de uma carta com muitas promessas de riqueza." (Memoriais - Tito Correa de Mello, 05/06/2002). 
Para Donato, Theodoro "foi dos primeiros a atender o chamado de Tito Correia de Mello que, acenava com posses em terras riquíssimas 'sem dono '-" (1985: 110).
Marins, no romance historiográfico Clarão na Serra, descrevendo personagens, não titubeou apontar que o Capitão, representando os fazendeiros, convocara por carta, em 1849, o mineiro José Theodoro de Souza para vir ao sertão combater índios, garantindo-lhe o remetente por recompensa torná-lo "dono de meio mundo naquele sertão, que começava na serra" (1985: 45).
Todavia, à mesma maneira acontecido com a carta do Capitão Gomes Pinheiro, ainda não localizada nenhuma prova deste novo chamamento, senão o testemunho do próprio Capitão Tito, em seus relatos de 1889, ao avocar para si a convocação do "compadre José Teodoro de Souza, que vinha à Botucatu a meu chamado" (Moreira da Silva, in IBGE/EMB Volume XXVIII – Avaré 1965: 99-100), porém não a datou.
Ora, no ano de 1849 o José Theodoro de Souza e sua mulher dona Francisca Leite da Silva já residiam em Botucatu, declarados fregueses aos 02 de julho daquele ano, presentes num batizado da família Nolasco (Botucatu, Livro 1849/1856, 02/07/1849: 26).
  • Mencionado livro é o primeiro conhecido para assentos eclesiais exclusivamente botucatuenses, sendo os registros anteriores, pelos padres visitadores, levados para suas respectivas paróquias, principalmente a de Itapetininga, cabeça da vigararia regional. 
Desta maneira desde quando morador em Botucatu, Theodoro teve oportunidades de encontros e acertos com o Capitão Tito, sem necessidades de cartas convocatórias para combinações de planos como faz crer Moreira da Silva (Op.cit. 1965: 99-100). 
De outra forma, tratando-se de Tito como mandatário até improvável que Theodoro não o consultasse, ou, a considerar o interesse do Capitão, à frente dos fazendeiros, pela empreitada de Theodoro, igualmente difícil que Tito melhor não se informasse com o pioneiro-mor.
3. A Guerra ao Índio
Theodoro iniciou a incursão sertaneja antecipando-se à Lei [Imperial] de Terras, nº 601, de 18 de setembro de 1850, num momento que o governo 'cedia' aos conclamos dos fazendeiros, com ato permissivo de repressão aos índios vagantes e hordas selvagens. 
Numa brecha legal ou regra de interpretação, o Decreto Imperial nº 426, de 24 de julho de 1845 – 'Regulamento das Missões', reconhecia o direito de posse – ou usufruição – de terras aos índios aldeados, dentro dos limites da Missão, mas não aos índios selvagens e aqueles recalcitrantes ao aldeamento, e, então, o avanço do branco podia ser justificado, pois tais hordas impediam o progresso e colocavam em risco as famílias trabalhadoras.
De outra forma, não havia aldeamento indígena adiante de Botucatu, e o de São Sebastião do Tijuco Preto – Piraju, apenas seria implantado em 1854.
O bandeirante apresentou-se à frente de verdadeiro exército, com cerca de mil homens, conforme inferido num documento de junho de 1851 (DAESP/BT, 22/02/1851: 1, Caixa 40, Pasta 1), com o duplo propósito em fazer a extirpação étnica e a imediata ocupação das terras. 
Theodoro dividira sua tropa em frentes ou colunas fortemente armadas, com líderes postos e instruídos para as ações predatórias. Os comandos receberiam suas pagas em porções de terras e as fracionariam para os comandados, além das partes que seriam postas a vendas e os lotes destinados aos povoados.
Moreira da Silva (1965: 99-100) descreveu o início do etnocídio a partir de Avaré, onde exterminados ou expulsos os Caiuás e Botocudos, numa guerra sangrenta "que preparou o terreno para a chegada dos históricos fundadores da cidade de Avaré, o major Vitoriano de Souza Rocha e o alferes José Domiciano Santana." (Franzolin e Silva Junior, Jornal Sudoeste do Estado, Avaré-SP).
No entanto o Capitão Tito, em 1889, colocando-se líder da empreitada minimizaria a tarefa: 
  • "De volta de sua excursão nas terras dos índios Caiuá e Botocudos, José Teodoro de Souza, que chefiava o bando de 'posseiros' consultou-me se devia conservar o nome dado pelos selvagens aos rios e morros encontrados, bem como aos campos, ao que retorqui ser melhor dar-lhes nomes novos, de acordo com a nossa linguagem. E então ficou combinado o registro das posses efetuadas." (Moreira da Silva, op.cit. 1965: 99-100). 
Francisco Marins, a seu tempo, anunciava a consequência do acontecimento: "Os pioneiros, pondo pé de apoio na serra, invadiam o sertão e iam fazendo nascer os povoados de Avaré, Lençóis, Santa Bárbara do Rio Pardo, Timburi, São Manuel." (1985: 46).
Das razias e dadas cometidas contra os índios, em 1861, contaram horrores praticados:
  • "(...) pellos bugreiros, e de maneira que foi totalmente destruido, sendo os homens á balla, e as mulheres e crianças a faca, com o único fim de apropriarem os optimos terrenos, que desgraçados occupavão, os quaes com a mania de novas posses os seos conquistadores venderão por pouco mais de nada, para levarem mais longe a devastação." (DAESP/BT, Caixa 39, Doc. 41-B, Pasta 2: 0225-0226).
Mas, não há de se falar em conquista territorial sem a presunção da resistência indígena. O memorialista Dantas confirma que "Houve lutas ferozes dos índios contra os exploradores e colonizadores, (...) e com violentos massacres e represálias recíprocas" (1960: 40).
O objetivo dos conquistadores "era tornarem-se realmente senhores da área que o registro lhes attribuiu, consentissem ou não os donos primitivos (...) encarniçada a lucta e só teve fim depois que os selvagens foram completamente exterminados." (Nogueira Cobra, 1923: 48).
Fragmentos históricos mostram o lado cruel dessa atividade exercida pelo pioneirismo, avocado ao processo da dizimação indígena para ocupação territorial e de produção, conforme exigências do capital e interesses do estado. 
Por onde passava, Theodoro, à frente do grupo, era visto como "matador de índios (...) armado de trabucos e enormes facões, foices e outras armas (...). Os silvícolas fugiam em debandada, deixando tudo a mercê dos invasores, inclusive cadáveres" (Chitto, 1972: 23). Donato qualificou-o de "impiedoso conquistador, feroz perseguidor de índios." (1985: 110).
No Turvo o avanço dos bugreiros foi traumático, com as ações de Francisco [de] Pontes "que fez barbaridades com os índios de São Pedro do Turvo?" (Marques Padre, 2009: 26). 
No Vale do Pardo santacruzense as atrocidades não foram menores. Relatos ainda do século XIX não deixam dúvidas que Manoel Francisco Soares, posseiro primitivo, muito combateu "a horda de indígenas ferozes, que infestaram estas paragens" (Almanach da Provincia de São Paulo, 1887: 541).
A empreitada ocorreu num curto espaço de tempo, a contar de 1850, quando tribos inteiras exterminadas e os índios sobreviventes arredados, e entre maio e junho de 1851 já se discutia a elevação da primeira Capela sertaneja, aonde a atual Lençóis Paulista (DAESP/BT, Caixa 40, Pasta 1, 22/07/1851: 1), porém a escolha política e eclesiástica recairia sobre São Domingos, localidade mais antiga e melhor centralizada. 
Com a conclusão que nenhuma posse foi mansa e pacífica, e nem poderia ser, porque impossível imaginar a retirada indígena sem reações, compreende-se que a missão de José Theodoro de Souza não foi apenas 'povoar o sertão do Paranapanema', mas exterminar os índios, tomar-lhes as terras e entregá-las 'limpas' à civilização.
-o-