SatoPrado - coletâneas

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sexta-feira, 19 de julho de 2013

— PREFEITOS NA POLÍTICA DO 'COMPADRIO*'

1. Lucio Casanova Neto – 'o compadre'
Lucio Casanova Neto nasceu em 1913, na cidade paranaense de Sertãozinho, criado em Paraguaçu Paulista e depois Assis, onde iniciou aprendizado de serviço em farmácia, no ano de 1925. 
Partícipe da Revolução de 1932, em 1936 chegou a Santa Cruz do Rio Pardo para trabalhar na farmácia Santa Lúcia, por ele adquirida quatro anos depois.
Atencioso na profissão e bem relacionado com clientes e potenciais eleitores, Lúcio foi percebido e integrado ao grupo político local, comandado pelo advogado Leônidas Camarinha, o então Prefeito nomeado em Santa Cruz do Rio Pardo (1938/1946). Lúcio Casanova ingressou no PSD, e em 1942 candidatou-se e foi eleito Vereador.
Lucio também se valeu do uso do esporte – time de futebol para popularizar-se, sendo presidente da Associação Esportiva Santacruzense, e membro de destaque, seguidas e alternadas vezes.
Na primeira eleição municipal direta para Prefeito, Lucio foi o escolhido de Leônidas Camarinha para disputar e ser eleito em 1947, mandato de 1948/1951, contra o advogado Omar Ferreira (UDN).
À sombra de Camarinha, Casanova não teve boa atuação no primeiro mandato, e o seu maior feito propagado teria sido a VASP (Viação Aérea São Paulo) disponibilizar serviço de pouso três vezes por semana em Santa Cruz, na rota São Paulo/Presidente Prudente. A inauguração do aeroporto ocorreu aos 03 de abril de 1949 com o pouso do avião que trouxe a delegação do Sport Club Corinthians para o jogo amistoso com a Esportiva Santacruzense. 
As fortes chuvas que antecederam a inauguração impediram o avião de permanecer na pista de terra, bastante danificada, retornando para São Paulo. O aeroporto necessitou de reparos e a linha regular de voos a partir de agosto de 1949, como estação aeroviária em funcionamento até sua desativação no início dos anos de 1960. 
Concluído o mandato candidatou-se a Vereador e foi eleito para o período de 1952/1955, e depois outra vez Prefeito (1956/1959).
No ano de 1957 Lucio, juntamente com Onofre Rosa de Oliveira, Reinaldo Zanoni, Anísio Zacura e outros, rompeu com o grupo do Deputado Camarinha, assegurando-se no Partido Democrata Cristão – PDC, aliado à União Democrática Nacional – UDN, para muitos um suicídio político.
Com a cisão ocorrida os grupos adversários ficaram conhecidos como Azul (de Lúcio e seguidores) e o Vermelho (de Leônidas Camarinha), nos anos de 1960, mas a guerra de cores apresentava versões anteriores.
-Aparte histórico: a questão das cores partidárias
Nas eleições municipais de 1876/1880, os filiados liberais ostentavam bandeira vermelha e os conservadores tinham a cor azul como símbolo da pujança. A dissidência perrepista de 1901 marcou o azul para os dominantes e o vermelho para os adversários, e em 1919 as cores partidárias dos vermelhos e azuis influenciavam até os esportes, conforme observado num jogo de basquete feminino na antiga praça Coronel Antonio Evangelista da Silva (Correio Paulistano, 25/11/1919: 8).
Na Revolução de 1930 os partidários do chefe político, Tenente-Coronel Leônidas do Amaral Vieira, eram denominados 'Vermelhos', pelos adversários azuis: "Os perrepistas vermelhos de Santa Cruz do Rio Pardo – a escória dos políticos de todos os tempos e cujos chefes são fallidos moralmente" (Santa Cruz Jornal, 05/02/1933: 1).
Depois, aqueles que apoiaram Vargas ou a ele aderiram e fundaram o Partido Municipalista, em 1933, identificavam-se na cor azul.
Destarte mero acaso que os Municipalistas 'azuis' tenham formado a UDN local, que se tornou o Partido de sustentação para o grupo [azul] de Lúcio. A isto denomina-se a visibilidade da cor, na identificação partidária santacruzense, até recentemente.
-Retorno ao assunto 
As agremiações PDC e UDN, aos 18 de janeiro de 1959, firmaram compromisso em lançar candidato do PDC para prefeito nas eleições daquele ano, com vice da UDN e, na eleição municipal seguinte, um candidato pela UDN a Prefeito e do PDC para Vice. Também teriam compromisso em lançar Lucio Casanova Neto para Deputado Estadual em 1962 – legislatura 1963/1967.
Assinaram o documento: Mario Botelho do Amaral – Presidente do PDC, e José Osíris Piedade (Biju) Presidente da UDN, depois as assinaturas de Alcides Godoy, Benedito Carvalho de Andrade, Derly Ribeiro, Domingos Pereira de Souza, Elidio Orlando Maia, Fernando José dos Santos, Francisco Mariano, Hermenegildo Martelozzo, João Maria Brandini, Jorge Riston, Lucio Casanova Neto, Manoel Mendonça Sobrinho, Onofre Rosa de Oliveira, Paulo Nagata, Pedro Ribeiro dos Santos, Querubim Dias Chaves, Waldomiro Ferreira Neves e Wilson Gonçalves. Outras decisões seriam tomadas pelo grupo.
Lucio candidatou-se a vereador em 1959 e obteve a maior votação percentual da história de Santa Cruz, até 2012 inclusive, e ainda viu eleito prefeito o companheiro Onofre Rosa de Oliveira.
A vitória foi tão humilhadora que o Camarinha e correligionários não perdoaram e denunciaram Lúcio, ao Ministério Público, que aceitou o expediente e acusou o delatado de "continuados atos de desvio a apropriação de bens e dinheiros públicos, revelando à frente do Executivo Municipal absoluta improbidade e incapacidade de administrador, a que se devem acrescentar inúmeros deslizes e arbitrariedades" (Processo Crime 103.987, 25/04/1961, AP fls. 4, Juízo de Direito da Comarca de Santa Cruz do Rio Pardo – SP), durante sua gestão de prefeito de 1956/1959, e assim incurso nas penas do artigo 312, combinado com os artigos 44 – item II letra 'h', e 52, § 2º, todos do Código Penal, com inclusas certidões ao Juízo de Direito para o início de instrução criminal, pelo disposto no artigo 498 e seguintes do Código de Processo Penal.
Lucio desviou verba pública correspondente à restituição de fretes devida à Prefeitura pela Estrada de Ferro Sorocabana, e somente aos 27 de dezembro de 1958, quando acossado pela Justiça, repôs o dinheiro junto a tesouraria municipal, ou seja, vinte meses e dezessete dias após o recebimento. Desvios dessa natureza ocorreram mais de duas vezes. 
Noutra acusação, Lucio conseguira da Estrada de Ferro Sorocabana, por intermédio do Governo do Estado, trezentos trilhos de ferro destinados à rede telefônica de Espírito Santo do Turvo e reforma do matadouro da cidade. Dessa quantidade vendeu oitenta ao então vereador Onofre Rosa de Oliveira, numa venda irregular e o valor – em cheque, não foi recolhido ao cofre da municipalidade, mas desviado e somente depois entregue à Diretoria da Associação Esportiva Santacruzense, a título de doação ou auxílio financeiro, nada constando a respeito na escrituração da Prefeitura.
Outra denúncia dizia que Lucio contratara, em nome da Prefeitura, a firma Montana S/A Engenharia e Comércio, para a instalação completa de usina para fabricação de tubos de concreto, em prestações mensais, sendo pagos as três primeiras parcelas, e a Prefeitura cessou a liquidação das demais, o que ocasionou a visita de um inspetor da firma, ficando acertado que o restante seria recebido através do Departamento de Estradas de Rodagem – DER, por conta da cota do Fundo Rodoviário. 
A Montana S/A recebeu o preço total do DER, através de cheque, e devolveu o excedente ao prefeito, ou seja, as primeiras parcelas liquidadas e um saldo existente a favor do município, e Lucio não providenciou o depósito para a Prefeitura, nem deu entrada do numerário na tesouraria, justificando aquisições diretas de lâmpadas e de materiais esportivos doados à Associação Esportiva Santacruzense. 
Lucio também foi acusado de retiradas de medicamentos, pessoalmente, reiterada vezes, na farmácia Santa Terezinha, propriedade de Lazaro Cassiano Dias, a pretexto de auxiliar os indigentes e as famílias dos empregados municipais, mandando que as despesas feitas fossem debitadas à Prefeitura, desconhecendo-se o destino dos medicamentos, certo, porém, que pagos pela municipalidade, caracterizando desvio de recursos. 
Apurou-se ainda que, por ordem de Lucio, o fiscal João Martins retirou material de construção de um dos depósitos da Prefeitura, consistente em pelo menos cento e três ladrilhos e cinquenta e dois tijolos, para ser utilizado na casa de Enedina Barreto, amante do prefeito, constituindo esse fato apropriação de bens do Município, sobre os quais Lucio tinha o poder de disposição.
Outros desvios referem-se ao recebimento de recursos DER, por conta da Fundo Rodoviário Nacional e Auxílio Rodoviário Estadual, não contabilizados.
Lucio não negou a venda de trilhos da Estrada de Ferro ao amigo vereador, Onofre Rosa de Oliveira, para reforma de linha telefônica rural, e que o cheque emitido por Onofre foi repassado à Associação Esportiva como incentivo ao esporte municipal.
Não confirmou, porém, desvios de materiais para a residência da amante, e das demais acusações, inclusive dos repasses pela Sorocabana, alegando problemas da tesouraria, ausências e erros de lançamentos, atribuindo acusações infundadas de adversários políticos. 
Num certo momento Lucio até foi classificado de ingênuo pelo advogado Marcial Ablas Caropreso que, juntamente com Amaury Cesar, lhe promovia atabalhoada defesa. 
No entendimento que a melhor defesa seria o ataque ou o revide, Lúcio através do seu grupo denunciou e processou o ex-prefeito, Dr. Cyro de Mello Camarinha (1952/1955), por desvios de recursos públicos, atingindo dessa maneira o adversário Leônidas Camarinha.
A situação complicou-se para Lucio com a decretação de prisão preventiva, pelo então Juiz da Comarca, Dr. Victor Tieghi, obrigando-o homiziar-se na casa de amigos e, em certo momento, foragir-se no município paranaense Primeiro de Maio, e o suplente de Vereador, Gastão Cid, assumiu o seu lugar na Câmara.
Socorreu-lhe a UDN em honrar o acordo com o PDS e lança-lo candidato a Deputado Estadual, surpreendentemente eleito, mesmo sem a sua presença, a não ser nos últimos dias, estribado na Lei Eleitoral e tolerância policial.
Mesmo processado e com prisão preventiva decretada, Lucio audaciosamente enfrentou o Camarinha ao disputar as eleições de 07 de outubro de 1962, para Deputado Estadual, legislatura 1963/1966, e ser eleito com 6.309 votos, pela coligação janista Partido Trabalhista Nacional Movimento Trabalhista Renovador, PTN/MTR, face anulação dos votos comunistas, enquanto o adversário Camarinha, na suplência, assumia cadeira em lugar de deputado nomeado para Secretaria de Estado.
Leônidas Camarinha, irritado com o ex-companheiro, tentou de várias formas, inclusive oferecimento em dinheiro, na época quinhentos mil cruzeiros, para a prisão de Casanova antes da posse, usando de artimanhas, porém, "caíram, assim por terra, todas as manobras e recursos, com que se procurou impedir a diplomação do Lucio." (O Regional, 03/02/1963: 1).
Lucio foi diplomado em 28 de janeiro de 1963, sem comparecer à solenidade "em razão da sanha de seus algozes." 
Empossado deputado, Lúcio conseguiu imunidade parlamentar e não podia ser preso sem autorização da Assembleia, enquanto o processo tramitava, e então, através do defensor, Dr. Basileu Garcia, viria confirmar o recebimento do cheque da Estrada de Ferro Sorocabana, referente a restituição de fretes a favor do município, mas que o repassara, endossado, ao Deputado Leônidas Camarinha, para compra de um veículo – tipo camionete Chevrolet 1957 para a Municipalidade, jamais entregue, e o imbróglio tornou-se conhecido como 'Caso Marta Rocha', o apelido dado ao modelo do veículo em homenagem à beleza da Miss Brasil 1954.
O utilitário teria sido adquirido em Piracicaba – SP, em nome de Carlos Queiroz, genro do Deputado Camarinha, segundo depoimento de Reynaldo Zanoni, em agosto de 1964:
  • "Fato importante narrado pelo Sr. Reynaldo Zanoni foi aquele em que discorre sôbre a compra de duas camionetes, efetuada pelo sr. Leonidas Camarinha na cidade de Piracicaba, uma delas em nome de seu genro, o [então] atual prefeito santacruzense [Carlos Queiroz], com cheque endossado pelo então prefeito Lucio Casanova Neto. Como sabe a opinião pública, ditos veículos jamais foram entregues ao Município." (O Regional, 30/08/1964: 1).
Nessa conduta processual Basileu Garcia concluiu o processo: "Não tendo como obter que o veículo fosse entregue e não querendo que esse estado de coisas se prolongasse, o denunciado efetuou o depósito da quantia mencionada, na forma exposta." 
Para comprovar a inocência e lisura de Lucio, que eram abertos e de confiabilidade os relacionamentos entre Lucio e Leônidas, o defensor fez anexar ao processo, diversos expedientes com aceite de Leônidas Camarinha e endosso de Lucio.
As brigas de Casanova e Camarinha, iniciadas no ano de 1957, tiveram lances inauditos em 1964, com Leônidas denunciando Lúcio nos desvios de verbas públicas, recebidas da Estrada de Ferro Sorocabana, e o atacado, por seu turno, revelou irregularidades na administração de Cyro de Mello Camarinha e, ainda, José Carlos Nascimento Camarinha (vice-prefeito 1963) e Píndaro Camarinha (funcionário do Departamento de Correios e Telégrafos), por desvios de dinheiro público e materiais de obras dos novos prédios de agências de correios, pelo interior do Estado de São Paulo, envolvendo no mesmo processo também Cyro de Mello Camarinha e os pedreiros irmãos, Vicente Ribeiro e Antonio Ribeiro Filho – Bulota. José Carlos Nascimento Camarinha e Píndaro foram presos, incomunicáveis, em 1964.
O hebdomadário 'A Folha', a favor dos Camarinha, ao contrário do que indicavam os documentos, defendeu a probidade dos acusados e presos, como vítimas de denúncias anônimas:
"Não possuindo 'a canalha de Sta Cruz' meios para opôr-se de frente ao completo desmoronamento de suas pérfidas pretensões, quais sejam o domínio político do município, enveredaram pelo caminho estreito, escuro e sórdido da denúncia anônima, da calúnia e das mais desavergonhadas mentiras. Invejosos e peçonhentos investiram principalmente contra o vice-prefeito José Carlos, para expô-lo ao ridículo, procurando ainda, desse modo, desviar a atenção da opinião pública em torno do rumoroso processo contra conhecido peculatório e falsificador. Forçoso é reconhecer que êsses canibais engendraram bem a trama, na qual procuraram envolver outros elementos que sempre viveram na mais honrada pobreza, como o vereador Antonio Ribeiro e seu irmão Vicente Ribeiro. Tudo, porém, foi desvendado. É certo que o trabalho foi árduo e grandes também foram os aborrecimentos. Apesar de tudo nos sentimos bem pagos, como José Carlos, porque ressaltaram das investigações procedidas por criteriosos oficiais do nosso exército, o conceito, a dignidade, o comportamento honrado do engenheiro José Carlos Nascimento Camarinha. Nem poderia ser de outra forma para quem conhece o nosso vice-prefeito. A sua conduta foi sempre retilínea e decente. Não se aparelha nem se aproxima José Carlos dêsses indignos, que vivem como ratos fugindo da polícia ou da justiça, dos quais trataremos pormenorisadamente [sic] nos próximos números. Por enquanto nos ocuparemos dos 'tronchos', dos 'orelhudos' e catervas, chefes conhecidos dessa corrente carregada de ódio que enche a esquina da calúnia e da inveja com odor próprio das sentinas em que essa gente mesquinha e malsã vive extraindo o alimento que tão bem se ajusta ao seu paladar." 
Lúcio algumas vezes declarou à imprensa local que a Assembleia podia autorizar a Justiça processá-lo, e, em junho de 1964 com a autorização concedida por pedido do Poder Judiciário, o Juiz Tieghi expediu o mandado de prisão, mas Lucio fugiu para reaparecer mediante 'habeas corpus' e reeleger-se deputado estadual.
O parlamentar ainda se confrontou diretamente com o Camarinha, disputando cadeira para a Assembleia Legislativa de São Paulo, em 15 de novembro de 1966. Leônidas Camarinha no páreo obteve 4.027 votos não se elegendo, enquanto Lucio mais que triplicou sua performance anterior, elegido com 12.925 votos.
No uso da política do compadrio, sem grandes projetos, Casanova tinha simpatias em troca de favores políticos, como nomeações de funcionários públicos, concessões de aposentadorias ou licenças para tratamentos de saúde, internações hospitalares em centros de referências ou na capital, sendo alguns pacientes conduzidos, muitas vezes, por avião. No mais, suas atuações eram voltadas para denominações de repartições públicas, rodovias e pontes.
Em setembro de 1969 Lucio livrou-se do processo, absolvido pelo Juiz da Comarca, Luiz Paranhos Velho, centrado que o 'habeas corpus' conseguido em 1964 era a comprovação da inocência do acusado, e que o processo já se arrastava por quase uma década. Com recurso do Ministério Público, Basileu Garcia destacou o depoimento do Dr. Cyro Camarinha que declarava ser não apenas adversário político e sim inimigo de Lucio; e a decisão final ocorreria no exercício seguinte.
A Justiça inocentou Lucio Casanova Neto, definitivamente, em 18 de setembro de 1970, e ele ainda comemorava com amigos, em Santa Cruz, quando cassado o seu mandato pelo Ato Institucional nº 5 (DOU, 21/05/1970). A cassação teria sido denúncia política por parte do rival Leônidas Camarinha ao Comando da 1ª Região Militar. 
Desgostoso Lucio retirou-se da política, apenas com pequeno ensaio de retorno ao apoiar o político santacruzense, Joaquim Severino Martins, para uma vaga na Assembleia Legislativa.
2. Onofre Rosa de Oliveira – o 'Caboclinho'
Certamente, ainda em 2014, Onofre – então já falecido – era o político santacruzense mais conhecido das famílias e das pessoas. Três vezes eleito prefeito, vereador em algumas legislaturas, tinha o estilo da 'política de compadrio' de Lúcio, o seu padrinho político. Talvez o estilo até lhe fosse natural.
Nascido em 1917, filho de José Rosa de Oliveira e Tereza Maria de Jesus, órfão de pai aos dois anos de idade, criado pela mãe, o menino Onofre, dos sete aos treze anos, sem estudos, foi empregado na propriedade rural de Cyro de Moraes, em Figueira de Santo Antonio. Depois empregou-se então na propriedade de Albino Trevisan, para atividades gerais, vendendo e entregando mercadorias.
Casou-se aos 17 de setembro de 1938 com Genoefa Raminelli, filha do casal Antonio Raminelli e Regina Pinhata Raminelli.
Segundo as lembranças, foi com o auxílio da família Raminelli que Onofre teria adquirido o comércio de Trevisan: "quatro cavalos, duas carrocinhas e muitos vasilhames", e os negócios de Onofre consistiam em compra de aves e ovos, os derivados de cana, de leite e de carnes, doces cristalizados ou em compotas, entre outras mercadorias, despachadas por trem ao atacadista paulistano Ângelo Latino.
Dados colhidos junto a Câmara Municipal, Projeto: Histórico de autoria dos Vereadores José Carlos Nascimento Camarinha e Roberto Mariano Marsola, atribuindo o nome de Onofre Rosa de Oliveira ao Paço Municipal, originário à Lei Municipal nº 1.596, de 03 de setembro de 1996. O histórico teve subsídio da família Rosa de Oliveira.
Onofre foi um homem popular. A origem e a escola política de Onofre foram a mesma de Lucio, ambos escolhidos por Camarinha, sendo Onofre figura certa para a implementação do projeto político de Leônidas para as classes menos favorecidas, àqueles que não tinham leitura e nem sabiam escrever senão o suficiente para votar.
Onofre tinha o dom de convencimento e suas palavras transmitiam sinceridade, e acreditava que ouvir as famílias era a melhor forma de se fazer política, e por isso visitava todas, ouvia e opinava, mas concordava e agradecia sempre, e a ideia ali formada era conjunta.
Compreendia a estratégia política de Leônidas Camarinha, precedida de um amplo debate prévio para o esclarecimento da população, mas na linguagem e compreensão do povo, um bom prefeito aqui com apoio camarário, e o deputado lá na Capital, e esta seria a melhor maneira de tornar Santa Cruz progressista.
Não desprezava os homens estudados ou do saber, mas a formação política santacruzense estava nas mãos do povo, e o filho do povo devia ter condições de estudar para adiante usar a cultura e a experiência adquirida.
Numa análise sucinta, o povo precisava de um líder político e o perfil desse líder encaixava-se em Onofre. Sua política inicial vista em sua primeira eleição para Vereador correspondia essa relação inteiramente voltada para Santa Cruz. 
Onofre era vaidoso e acreditava em si, porém era ainda mais inteligente a ponto de subordinar-se a Lúcio Casanova Neto, cuja intrepidez certamente o confrontaria com chefe Leônidas Camarinha, e ambos se anulariam politicamente, e ele, Onofre, seria o substituto ideal. Esta era sua visão política.
Casou-se bem, prosperou, acertou e errou no mundo dos negócios, foi rico ficou pobre e soube recomeçar, sem o abandono de suas origens, ou mudanças de pensamentos políticos. 
Por exemplo, em 1949 Onofre adquiriu de Nelson de Souza Campos seiscentas sacas de café em coco pela importância de Cr$ 498.000,00:
  • "(...) que com a parte da importância recebida Nelson de Souza Campos comprou no Banco Comercial do Estado de São Paulo S/A, nesta praça, um cheque de Cr$ 150.000,00 pagável na matriz de São Paulo (...), cujo documento foi apreendido pela policia paulista quando Nelson procurava receber a referida importância" (O Regional, 14/12/1952: 4, Edital de Intimação, Cartório 1º Ofício, Juízo de Direito de SCRPardo, 02/12/195).
A ação ocorrera sob alegação que "Nelson não lhe havia vendido café e sim palha e detritos, deu o alarme, resultando na abertura do inquerito, processo e condenação de Nelson de Souza Campos, nas penas do art. 171, 'caput' do Cod. Penal (...)." 
Acima dos partidos políticos, dizia-se filiado a Santa Cruz do Rio Pardo, e acreditava nisto o suficiente para levar adiante os seus planos, e para isto, evidentemente não ignorava a necessidade de um partido forte, de líderes competentes, mirando-se em Lucio Casanova Neto e em Leônidas Camarinha.
Onofre somou-se aos dissidentes do grupo Camarinha, a manter com Lucio um relacionamento político de lealdade, por algum tempo com subordinação. Talvez tenha sido mais leal a Lúcio do que este a ele, fazendo-se presente em todas as dificuldades arranjadas pelo compadre.
Iniciou sua carreira política em 1947, eleito Vereador e reeleito nas legislaturas seguintes até 1959, quando elegido Prefeito pela primeira vez, assumindo em 1º de janeiro de 1960, batendo Américo Pitol – candidato a prefeito e o vice Cyro de Mello Camarinha – ex-prefeito (1952/1955).
Dinâmico e atento aos conclames populares, Onofre imprimiu ritmo forte à administração, desde a posse, prosseguindo asfaltamento urbano, inauguração da Rodoviária, conclusão de obras da Escola Leônidas do Amaral Vieira, onde atualmente a Escola Sinharinha Camarinha, reivindicou a construção da Delegacia Regional Agrícola, oferecendo terreno ao Governo do Estado. 
Como prefeito, Onofre conseguiu autorização legal da Câmara Municipal (Lei nº 64, de 11 de março de 1960) para adquirir um terreno de propriedade de Izaltino Martins Botelho e sua mulher, para fins de doação ao Instituto de Previdência do Estado de São Paulo – IPESP, destinado à construção de escola – Grupo Escolar, no Bairro São José, obra que seria financiada pelo próprio IPESP, com a seguinte localização: "em continuação à rua José Teodoro [atual Gildo Menon], esquina da Ladeira São Domingos, confrontando por um lado com sucessores de Fabiano Pereira da Silva, pelos fundos com o Ribeirão São Domingos e pelo outros lados com as mencionadas vias públicas" (Lei nº 65, de 11 de março de 1960). Tratava-se da futura Escola Maria José Rios. 
A primeira aquisição de maquinários em seu governo foi um trator rodoviário, importado, para o serviço da comunidade (Lei Municipal nº 71, de 3 de julho de 1960). Foi dada à Associação Brasileira dos Municípios a procuração necessária para os serviços importação.
Instituiu, em 1962, pensão mensal vitalícia a Manoel Eugênio Soares, descendente do pioneiro fundador de Santa Cruz, Manoel Francisco Soares, por encontrar-se em penosa situação econômica (Lei Municipal 129, 20 de janeiro de 1962).
Importante realização de Onofre foi levar água encanada às vilas da cidade ainda não beneficiadas com tais melhoramentos (Lei nº 130, de 22 de janeiro de 1962).
Criou o CMAS – Conselho Municipal de Assistência Social (Decreto Municipal nº 322, de 19 de novembro de 1962), como Órgão Consultivo não remunerado, para gerir a promoção e assistência social no município, contratando profissionais e auxiliares. Criaria outros Conselhos, praticamente um para cada departamento municipal: Serviço de Estradas de Rodagem do Município (Lei 133, de 22 de março de 1962); Conselho Municipal Fiscal, para a agricultura, comércio e indústria, para consultar interesses cidadãos e das classes de trabalho, além de superintender o lançamento de impostos e taxas municipais equitativas, corrigindo distorções ou desigualdades (Decreto 268, de 15 de fevereiro de 1961).
Teve situações polêmicas e, às vistas dos adversários, suspeitosas. A aquisição junto à Municipalidade de Miracatu (SP) de um trator KT - 50, importado da então República Democrática Alemã – RDA (Lei Municipal nº 152, de 18 de dezembro de 1962 e Lei Municipal nº 181 da Prefeitura de Miracatu). Compraria depois pá carregadeira para o referido trator. 
Onofre tinha interesses e sócios em Miracatu, onde apossara ilegalmente terras devolutas (Debate, 12/04/1987 – escândalo denunciado em Santa Cruz pelo Vereador Antonio Francisco Zaneti). De parte dessas terras, em 2009, foi publicado edital para conhecimento de terceiros interessados ausentes, incertos e desconhecidos e dos requeridos Onofre Rosa de Oliveira e sua mulher Genoefa Raminelli de Oliveira e eventuais herdeiros, com prazo de 30 dias, expedido na ação de usucapião requerida por Adelino Alvaro da Silva e s/m – Processo 319/2005 da Vara Cível – Miracatu - SP (DOSP 15/10/2009: 178), ainda em tramitação, por referência a data de 01/11/2013. 
Outro ponto polêmico foi sua obsessão em instalar o Departamento de Engenharia Mecânica da Agricultura – DEMA, como Posto de Mecanização em Santa Cruz do Rio Pardo, inegavelmente uma grande conquista, porém criticado quanto ao método utilizado para tal fim.
O então prefeito Onofre, para a doação pretendida ou acertada, conseguira autorização da Câmara (Lei nº 78, de 30 de junho de 1960), para alienar a Geraldo Vieira Martins, mediante doação, o terreno de propriedade municipal, à Avenida Coronel Clementino Gonçalves, com o comprometimento em transmitir referida área ao Governo do Estado – Secretaria da Agricultura, também por doação referida área e no prazo de 120 dias, com o fim expresso para construções e instalações necessárias para o funcionamento do DEMA.
Vieira Martins, de posse do terreno, substabeleceu Reynaldo Zanoni, servidor público municipal, para o cumprimento da obrigação, e este sub-rogou a Onofre Rosa de Oliveira, o prefeito, e enfim transferiu o imóvel ao Governo do Estado de São Paulo, para os fins propostos.
Sem questionar legalidade ou necessidade do acontecimento, sempre ficou a sensação que para o finalmente apresentado e ser Onofre a efetivar a doação, não haveria necessidade das tramitações ocorridas.
A área em questão é onde funcionou o DEMA – que teve reestruturação e o nome modificado para CAIC – Companhia Agrícola Imobiliária e Colonizadora, e com a desativação desta a Municipalidade readquiriu, por compra, referida data de terreno, com imóveis, e ali instalado o Corpo de Bombeiro e Repartição Pública Municipal, e onde elevado o novo prédio para a Câmara Municipal. 
Naquele mandato, Onofre suprimiu escolas (Decreto Municipal nº 327, de 20 de fevereiro de 1963), face o êxodo rural representado na época, agrupando as classes onde maiores os números de moradores. Evidentemente lhe sobraram críticas e protestos.
Com o mesmo estilo seria outra vez Prefeito, em 1969/1972, e mais adiante em 1983/1988, para depois ser Vereador em 1992 para a legislação 1993/1996, aliando-se ao grupo do Prefeito Manoel Carlos 'Manezinho' Pereira.
Em seu governo de 1969 a 1972, teve realizações importantes destacadas, a doação de terreno ao Governo do Estado de São Paulo, para a construção de prédio para a Unidade Polivalente da Secretaria Estadual Saúde (Lei nº 432, de 11 de novembro de 1969), onde hoje localizado o Centro de Saúde 'Dr. José Carqueijo'. 
Desapropriou terreno de Aniceto Gonçalves – ou de quem de direito, situado à rua Frei Marcos Righi com a Rua Dr. João Pinheiro, para fins de "construção de Ginásio 'Dr. Genesio Boamorte'-." (Lei nº 428 de 2 de outubro de 1969). 
Onofre doou, pela Lei 430, de 14 de outubro de 1969, uma data de terreno municipal ao Instituto Nacional de Previdência Social, para construção de sede – edifício próprio da autarquia no município. Referida lei não trazia prazo para a edificação de próprios do Instituto, corrigido pela Lei nº 456, de 6 de julho de 1970: "edificação essa que deverá ser concluída no prazo de três anos." Em caso de descumprimento a área seria devolvida à Municipalidade.
O teor legal foi modificado no Governo Aniceto Gonçalves (1977-1982), em 11 de agosto de 1975, pela Lei 795, retirando-se a cláusula que previa o retorno do terreno para o município em prazo de três anos caso não fosse edificada a sede. 
O terreno tornou-se definitivamente propriedade do INSS, com exigência exclusiva para a construção da sede, mas sem prazo para a realização; e no Governo Manoel Carlos 'Manezinho' Pereira (1993-1996) foi ocupado por comerciantes de lanches em veículos de reboque, por isso o lugar conhecido como 'lanchódromo', situação em que se encontra ainda no ano de 2013, sem condições sanitárias ideais. 
Pela Lei 463, de 28 de setembro de 1970, Onofre adquiriu o prédio do Colégio Ave Maria, com a finalidade de instalação da Faculdade Estadual de Tecnologia, ambição infelizmente não realizada.
Através do Decreto nº 480, de 11 de setembro de 1970, Onofre criou a Comissão Municipal do Mobral visando a execução e a implementação de alfabetização de adolescentes e adultos no município. 
Pela Lei 491, de 22 de abril de 1971, Onofre iniciou, aos encargos da Prefeitura, a construção da Escola Técnica Agrícola Orlando Quagliato, na zona rural, em razão de convênio já estabelecido com a Secretaria dos Negócios da Educação (Governo de São Paulo) para a instalação e funcionamento do Colégio Agrícola – Lei nº 471, de 09 de novembro de 1970.
Em seu governo municipal de 1983 a 1988, adquiriu uma varredoura mecânica, de eficácia bastante questionável quanto à sua adequação para as ruas de Santa Cruz do Rio Pardo. Adquiriu também a Usina de Lixo e a instalou no Parque das Nações, sem soluções junto à CETESB e constantes reclamações da população, tanto daquele Parque quanto da cidade, pelos fortes cheiros trazidos pelo vento.
Pretendeu candidatura para Prefeito em 1992, sendo preterido por Clóvis que considerava Onofre um retrocesso, atitude considerada traição política. Onofre optou 'bater chapa' com o candidato oficial Eduardo Santos Blumer, como vice do médico e vereador Otacílio Parras Assis. Na convenção Otacílio apresentou-se como vice de Onofre, invertendo compromissos assumidos, e não teve o apoio de outros dois médicos membros do Diretório do PMDB, Isaias Carvalho dos Santos e Brazil Zacura, cujos votos definiriam quem o candidato peemedebista, e então Blumer ganhou a indicação e perdeu a eleição. 
A carreira política de Onofre compôs-se de cinco legislaturas como Vereador e três vezes eleito Prefeito, conhecendo somente uma derrota, quando pleiteou vaga na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.
Na localidade foi ele o mestre da política da reciprocidade, e não hesitava aliar-se a adversários para triunfar seus interesses que dizia ser do município, na máxima política que 'os extremos se tocam quando os interesses se aproximam'. Na política, mesmo oposição, Onofre sempre apoiou a situação, sob a argumentação 'tudo pelo bem do município'.
Onofre tinha o gosto pela apologia ao seu nome, que tanto o fazia sentir-se bem, e desdobrava-se para ser 'coroado’ de notícias em jornal, mesmo vinculado à Prefeitura, fundado por ele ou a mando. Buscava sempre uma administração de impacto, aquisições de estilos, tipo Colégio 'Ave Maria', o prédio do Cinema.
Fomentava ideias megalômanas para a realidade santacruzense de sua época, todavia seus juízos permaneceram, e ainda no século XXI difícil algum projeto que Onofre não tenha pensado, a exemplos entre outros, bandas musicais em coretos; teatro, cinema, museu e biblioteca moderna; nova rodoviária; distrito industrial; faculdade de direito; aproveitamento turístico e energético do Rio Pardo; novo edifício para a Prefeitura e a Câmara; tombamento de construções para preservações da memória da cidade; restauração do prédio da extinta Estrada de Ferro Sorocabana.
A política do 'compadrio', mão no ombro, companheiro de todos e em todas as horas, teve em Onofre sua expressão maior, porém não conseguiu ultrapassar as divisas do município, afinal política de seu estilo se fazia ao longo de muitos anos, tempo que já não lhe restava mais. 
Quis insistir. Na eleição para Deputado Estadual – pleito de 03 de outubro de 1990, Onofre candidatou-se numa dobradinha 'acordada' com Luiz Carlos Santos para federal. Foi derrotado, todavia conseguiu votos suficientes para Luiz Carlos Santos ser eleito. 
Retornou à política dois anos depois, para eleger-se Vereador, legislatura 1993/1996, porém sua votação abaixo do esperado. Faleceu em 1995, antes de concluir o mandato.
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  • *Os comentários neste capítulo, juízos e críticas, são de responsabilidade dos autores e não representam, necessariamente, a opinião pública santacruzense. 

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