SatoPrado - coletâneas

ATENÇÃO: Acesso gratuito às coleções de jornais e de antigos documentos eclesiais, cartoriais e político-administrativos para Santa Cruz do Rio Pardo de antigamente. Site ainda em construção, porém já disponíveis alguns arquivos em: http://pradocel.wix.com/satoprado

sexta-feira, 19 de julho de 2013

— PREFEITOS NA 'ERA VARGAS*'

1. O pessoalismo de Abelardo Guimarães (1930/1935) 
Abelardo Pinheiro Guimarães nasceu aos 10 de janeiro de 1897, no Rio de Janeiro, filho de Joaquim Tibiriçá Pinheiro Guimarães – 2º Oficial de Secretaria do Ministério das Relações Exteriores do Brasil – e de Cecília Roxo Pinheiro Guimarães. 
Abelardo formou-se médico pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, trabalhando como revisor de jornal enquanto cursava faculdade. Formado, ingressou na Fundação Rockfeller para combater 'moléstias rurais', em diversas localidades nos estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná, onde classificado para a cidade de Jacarezinho.
Deixou o emprego optando pelo exercício particular da profissão, ainda em Jacarezinho, vindo casar-se com Dagmar Ferreira, filha de José Eugenio Ferreira e Augusta Fortes. Após o casamento transferiu-se, com a mulher, para Santa Cruz do Rio Pardo onde nasceram os filhos: 
  • -Maria do Carmo Guimarães Camarinha, casada com Josué Francisco Camarinha que viria ser advogado e oficial do 3º Cartório de Notas de Marília – SP; 
  • -Marcio Ferreira Pinheiro Guimarães – solteiro; 
  • -Marcílio Ferreira Pinheiro Guimarães, casado com Florinda Quagliato Pinheiro Guimarães, casal residente em Santa Cruz do Rio Pardo; 
  • -Moacir Pinheiro Guimarães, casado com Maria Regina Sad Pinheiro Guimarães, moradores em São Paulo. 
Viúvo, Abelardo casou-se com Dona Maria Marcelina Pinto [Pinheiro Guimarães], com a qual teve quatro filhos: "Abelardo Antonio, Heloisa Maria, Silvia Maria e Cecília Maria." 
O médico teve participação na política santacruzense, ingressando no Partido Democrático, essencialmente paulista, surgido da dissidência 'perrepista' de 24 de fevereiro de 1925, e sua primeira experiência política ocorreu nas eleições federais de 24 de fevereiro de 1927, quando seus candidatos Marrey Junior para deputado federal e Gama Cerqueira para senador, ficaram com 91 votos em Santa Cruz, enquanto os três candidatos 'perrepistas' a deputado federal obtiveram 530 votos cada um, igual para o senador Arnolpho Azevedo. 
A eleição de 1927, em Santa Cruz, teve pico de violência registrada na célebre frase de Pinheiro Guimarães "Em matéria de política, sou partidario do assassinato. Considero a elliminação do adversario um meio regular de triumpho." (A Cidade, 06/03/1927: 1). 
Pinheiro Guimarães apresentou-se candidato a vereador nas eleições municipais de 30 de outubro de 1928, e, para melhor exposição de suas ideias políticas e partidárias, fundou o semanário 'O Jornal' redacionado por Rui Gama e Silva. Eleito vereador tornou-se líder oposicionista ao PRP, melhor destacando-se pelas críticas ao governo municipal que por sua atuação parlamentar propriamente dita.
Com a vitória dos revoltosos 'getulistas', na Revolução de 1930, Pinheiro Guimarães conquistou o cargo de Prefeito, por nomeação do Governo Interventor de São Paulo, Coronel João Alberto Lins de Barros (Decreto de 31/12/1930, publicação DOSP, 03/01/1931: 49), selando o fim do coronelismo no mando da política local, com a cassação e prisão de Leônidas do Amaral Vieira. 
A nomeação de Pinheiro Guimarães aconteceu em razão do apoio do Partido Democrata local à candidatura de Vargas, nas eleições presidenciais de 1º de março de 1930, conquistando 10% dos votos santacruzenses. À derrota de Getúlio nas urnas sucedeu a Revolução de 1930, com singelo apoio do PD, todavia importante por ser contra o PRP e suas hostes no estado paulista.
Vitoriosa a Revolução Varguista, em Santa Cruz criou-se a Comissão Legionária, sob o comando de Urias Augusto Ribeiro. Urias, cumpridor de ordens emanadas do Gabinete da Prefeitura e do próprio Dr. Abelardo Pinheiro Guimarães conluiado com o Delegado de Polícia, Tenente Alfredo Fernandes Costa, e assim, uma série de denúncias e delações promovidas contra cidadãos santacruzenses e, em especial, funcionários públicos das três esferas de governo, num verdadeiro terrorismo oficial.
A Comissão Legionária ou Legião Revolucionária, independente do objetivo para qual sua finalidade, em Santa Cruz fez-se órgão repressivo e delator sobre as ações e atividades coletivas ou individuais, para o fortalecimento e a popularização revolucionária varguista. O núcleo legionário seria a representação das aspirações do município, com influência no Executivo, Judiciário e Segurança Pública. 
Santa Cruz experimentou o período de 'caça às bruxas', iniciado com perseguição ao Juiz de Direito, Dr. Sylvio Marcondes de Moura, afastado do cargo e disponibilizado em São Paulo, por ordem do Secretário da Justiça, Dr. Plinio Barretto. O Juiz Tenente Eugênio Fortes Coelho, gaúcho, substituiu o Dr. Moura. 
Na onda de prevaricações e arbitrariedades, numa delas o Prefeito Pinheiro Guimarães, com apoio do Judiciário e através da Legião Revolucionária, destituiu toda a Diretoria Clube dos Vinte – reduto do Tenente Coronel Leônidas do Amaral Vieira – e afastou associados que não lhe eram simpáticos. 
A Comissão Legionária mostrou-se implacável a serviço do Dr. Pinheiro Guimarães. O Coletor Federal, Manoel Novaes Cortez, foi acusado de desvios de recursos da repartição, entre outras imputações, e afastado das funções. O Coletor Estadual, Antonio Alóe, sofreu mais de uma dezena de delações e foi exonerado; e, ainda, delatados ao Tesouro do Estado os cidadãos Jayme Castanho de Almeida e Benedicto Carlos da Silva. 
Da delação de Urias em relação a Benedicto Carlos, antes amigos, terminou em luta corporal, quando Benedicto desferiu bengaladas em Urias e, em seguida, atirando enquanto Urias evadia-se do local (A Cidade, 28/06/1931: 4). 
Leônidas Camarinha, outro alvo da política de Pinheiro Guimarães, processou Urias, porém a ação anulada pelo Juiz de Direito da Comarca, Fortes Coelho, bem relacionado com o Executivo santacruzense no período. 
A queda do Interventor Lins de Barros e a nomeação do magistrado Laudo de Ferreira de Camargo trouxe esperanças aos oposicionistas. O nomeado ao sujeitar-se às exigências 'perrepistas', abriu oportunidade para os opositores santacruzenses exercerem influência na política estadual, e assim assumiram a presidência e secretaria da Comissão Legionária, com Oscar Buscacio e Benedito Carlos da Silva. 
A nova Legião Revolucionária de Santa Cruz tentou oposição a Pinheiro Guimarães, porém sem forças suficientes para derrubar o governo local, que mantinha excelentes relacionamentos no Judiciário e na Segurança Pública, através das autoridades locais, o Juiz de Direito e o Delegado de Polícia. 
Mas, o líder legionário, Tenente-coronel Leônidas do Amaral Vieira preocupava o governo municipal. A anistia concedida por Vargas a todos envolvidos nos movimentos revolucionários – Decreto Federal nº 19.395, de 08 de novembro de 1930, dava ao poderoso rival reassumir a condição de liderança política, agora de oposição. 
O Juiz Fortes socorreu Pinheiro Guimarães revelando irregularidades administrativas cometidas por Amaral Vieira quando prefeito: "O inquerito que se processa na Camara Municipal desta cidade, revela indicios fortissimos de uma administração prevaricadora." 
Amaral Vieira debateu-se e praticamente esqueceu-se de Pinheiro Guimarães, criando um vazio político oposicionista ocupado por Leônidas Camarinha. 
Pinheiro Guimarães usou de truculência política ao interferir na Direção da Escola Normal, nomeando pessoas de seu interesse político, além de fazer uso do semanário 'O Trabalho', para promover seus ataques e desqualificações de adversários, às vezes pessoas apolíticas. 
Na Revolução Constitucionalista de 1932, o prefeito Pinheiro Guimarães fez-se omisso, enquanto muitos companheiros seus abraçaram a causa paulista, inclusive o gaúcho, Juiz de Direito Fortes Coelho, ao lado de adversários políticos. 
'Do governo ao povo', assim Guimarães pretendeu a ideologia moldada à sua imagem, firmada em ideias vagas e naufragadas pela própria situação brasileira na época, em especial a do município. Sua administração foi utópica, algumas propostas ou pretensões irreais, outras, mais coerentes, que seriam adaptadas e aproveitadas pelo sucessor. 
O Prefeito até pensou numa cidade industrial, moderna e dinâmica, buscada nos estudos da Empresa Mauá S/A, prevendo inclusive a pavimentação marginal para o Rio Pardo e Ribeirão São Domingos.
Mas a Santa Cruz de 1934 não tinha abastecimento de água nem rede de esgotos, as ruas não eram asfaltadas, o município era pobre e endividado desde e com o ramal ferroviário, além da convivência cara e dramática com erosão à margem do São Domingos, em plena área urbana. 
Sem realizações de peso, o governo de Pinheiro Guimarães foi considerado medíocre, tanto que sua exoneração, acontecida aos 29 de junho de 1935, deu-se em meio a grande regozijo popular (A Cidade, 30/06/1935: 1-4, "Prefeitura que se esborôa"), substituído excepcionalmente por Alzim de Souza Lemos. 
O Partido Constitucionalista – PC, do qual o próprio Pinheiro Guimarães um dos fundadores, provocou sua queda: 
  • "DIRETORIO PC – Havendo grande desharmonia entre os políticos pceistas, embarcaram na semana passada, para a capital, todos os membros daquele directorio que pleiteiam a retirada do actual prefeito municipal, dr. Abelardo Pinheiro Guimarães, que, com quanto prefeito deste municipio desde 30, até hoje nada tem feito para o municipio" (Correio Paulistano, 19/06/1935: 9) 
Abelardo Pinheiro Guimarães, no entanto, não abandonou a política e tornou-se oposição sistemática, como membro do Partido Constitucionalista, tendo por ele concorrido a Deputado Estadual, sem êxito. 
Com a democratização do país, em 1945, Pinheiro Guimarães estava entre os fundadores da UDN – União Democrática Nacional, da qual Presidente, e, posteriormente, viria ser presidente do Partido Social Progressista – PSP, fundado por Adhemar de Barros, e pleiteou vaga na Câmara Federal, não alcançando resultado. 
Em 1944 a imprensa noticiava que o ex-prefeito era contra o asfalto, juntamente com o farmacêutico Alziro de Souza Santos e outros partidários 'constitucionalistas', que se recusaram pagar as prestações do asfaltamento na cidade. 
Memórias 'udenistas', em justificativa posterior, sustentavam que Abelardo, Alziro e os companheiros, eram contra o asfaltamento antes das instalações das redes de água e esgoto, porém a história registra aqueles serviços antes da pavimentação asfáltica. 
Abelardo também se posicionou contra a cobrança de taxa de calçamento, pelo município, e o processo chegou ao Supremo Tribunal Federal, pelo Recurso Extraordinário nº 8.782, cuja decisão, aos 13 de julho de 1948, considerou "constitucional a cobrança pelos Municípios da taxa de calçamento." 
Se não foi político brilhante, Dr. Abelardo Pinheiro Guimarães marcou época em Santa Cruz do Rio Pardo como profissional de saúde, e empresta seu nome a uma Unidade de Saúde, a um edifício comercial e a uma via pública. Faleceu aos 80 anos, em 1° de dezembro de 1977. 
2. O caudilho Leônidas 'Lulu' Camarinha (1938/1946) 
Leônidas Camarinha, conhecido por 'Lulu' Camarinha, filho de João dos Santos Camarinha e de Alexandrina Camarinha, nasceu aos 13 de fevereiro de 1904, de família vinculada ao Partido Republicano Paulista – PRP, onde Pedro Camarinha foi grande expoente nos anos de 1920.
Provisionado pela Ordem dos Advogados e Escrevente habilitado do Juízo da Direito da Comarca de Santa Cruz do Rio Pardo (A Cidade, 28/03/1926: 3), a saga política de 'Lulu' Camarinha iniciou-se na Revolução de 1930, quando preso com outros santacruzenses, para fazer-se líder a partir de 1938, atraindo e revelando importantes nomes da política local, a exemplos de Lucio Casanova Neto, Onofre Rosa de Oliveira, Carlos Queiroz e Joaquim Severino Martins, entre outros, que se tornaram sucessores, dissidentes ou não, e determinadores políticos do lugar até o final do século XX. 
Herdeiro ou seguidor político do irmão, Pedro Camarinha – o coadjutor de Leônidas do Amaral Vieira, 'Lulu' recebeu o apoio dos saudosos do coronelismo 'perrepista', conquistou os descontentes da administração de Pinheiro Guimarães (1930/1935), que vislumbravam possibilidades ainda no Governo Getúlio – o 'getulismo' extraconstitucional – para a promoção de interesses próprios. 
Neste tripé, típico caudilhesco e de interesses ideológicos distintos, Camarinha teve cinco anos de oposição para firmar liderança política e acercar-se de nomes influentes nos setores tradicionais da sociedade. 
'Lulu' Camarinha, então, de contundente vereador oposicionista viu-se prefeito nomeado pelo interventor paulista Adhemar Pereira de Barros, cuja posse dada aos 03 de julho de 1938. 
Afora o estilo político megalômano, Leônidas Camarinha era midiático e fazia largo uso dos microfones da Rádio Audição Pública de Santa Cruz do Rio Pardo, potente serviço de alto-falantes instalado na então Praça da República – atual Deputado Leônidas Camarinha, depois o SAF – Serviço de Alto-Falantes, e ainda a Rádio Difusora Santa Cruz, a seu tempo, concessão que lhe foi dada e dela tornou-se sócio proprietário. 
Ano a ano, de 1939 ao final de seu governo municipal, fez publicar os seus feitos de administrador público, como prestação de contas à população, inclusive com edições publicadas pela Livraria Acadêmica de São Paulo – Saraiva e Cia, comparando sua administração com a anterior e mostrando, exercício a exercício, o progressismo municipal. 
Camarinha fez uso político do esporte, pela Associação Atlética Santacruzense, a quem beneficiou com a desapropriação de terrenos para a construção de um estádio que levaria o seu nome, projeto este inserido num pacote de obras, como a construção de um parque infantil – Decreto-Lei Municipal de nº 12, de 20 de dezembro de 1940, e, numa etapa seguinte, a construção da 'Nova Santa Casa' – o atual Hospital Maternidade 'Dona Maria Perpétua Piedade Gonçalves' – Decreto Municipal nº 48, de 26 de outubro de 1944. 
'Lulu' tornou-se, via Municipalidade, financista e mantenedor do hebdomadário 'A Cidade', em 1941, quando o órgão deixou de ser oficialmente vinculado a um partido político para dizer-se independente, sob a direção de Renato Taveiros. 
Como prefeito, também pelo município, foi um dos patrocinadores da obra de Leo Azeredo, "Cidades que renascem" (Azeredo, 1943: 61-63), custeada por associação de municípios cujos prefeitos apologizados, e todo um capítulo para Santa Cruz, com exaltações à terra, ao trabalhador, ao progresso devido ao aumento populacional, ao incremento agrícola – algodão e cereais e a intensificação comercial e industrial na sede do município.
Azeredo informou das construções de novos prédios comerciais, residenciais e públicos, das medidas de saneamento básico, da fiscalização e aplicação equitativa das rendas municipais, priorizando as atenções à saúde pública – prevenção, vacinação e profilaxia –, ao sistema educacional, a estrutura ferroviária disponível e das estradas de rodagem, sem se esquecer a população de 62 mil habitantes, sendo doze mil na área urbana e outros restantes na zona rural, praticamente reprodução do que Leônidas já informara dois anos antes: "A cidade de Santa Cruz do Rio Pardo acusa aproximadamente um total de 10.000 almas enquanto a zona rural do município é 'habitat' para outras 50.000." (Prefeitura, Índice de Avaliação e Estatísticas, Governo Leônidas Camarinha, 1940: 11). 
O fecho de Azeredo foi o óbvio: 
  • "Agora uma pergunta se impõe: a quem se deve o reerguimento daquela velha cidade, que nada mais era que um 'burgo-velho', ainda, há pouco mais de quatro anos?" Sem rodeios o próprio autor Azeredo deu a resposta: "Ao seu atual prefeito, dr. Leonidas Camarinha, cuja administração tem encarado com rara energia. (...). Em toda a parte avultam as suas realizações que fazem vibrar de contentamento a alma de seus concidadãos.” E concluiu: "Leonidas Camarinha é bem o espírito construtivo da estirpe bandeirante." 
Pela vontade do então Prefeito, Santa Cruz teria 60 mil ou mais 'almas', enquanto o censo oficial de 1940 revelava 44.578 moradores. 
À frente do executivo soube aproveitar a oportunidade para remodelar a cidade e concretizar ações de saneamento básico, fazendo-se prefeito tocador de obras vistas e divulgadas, como a pavimentação da cidade, as reformas de prédios públicos, implantação do serviço público de água e rede de esgoto – enfim resolvido, arborização e modernização das praças principais, das quais a central leva seu nome. Também foi o responsável pela fundação do Aero Club Santa Cruz, presidido por Benedicto Carlos da Silva, e a instalação do hangar (O Estado de S. Paulo, 22/07/1939: 6). 
Para cada feito de Governo uma "Comissão Patrocinadora de Homenagens", 'voluntária e independente', organizava festejos e desfiles, diurnos ou noturnos – marcha luminosa – precedidos de alunos, escoteiros, professores e normalistas, comerciantes e autoridades, conforme a apologética matéria publicada pelo diário paulistano O Estado de S. Paulo (22/07/1939: 6). 
Leônidas sobreviveu, politicamente, a queda do seu padrinho Adhemar de Barros, em 1941, continuando prefeito em Santa Cruz durante o governo do Interventor Fernando Costa (1941/1945), porém exonerado pelo Interventor seguinte, Dr. José Carlos de Macedo Soares (1945/1947), através do Decreto de 17 e publicado aos 18 de abril de 1946, sendo no mesmo ato nomeado prefeito o médico Pedro Cesar Sampaio. 
O prefeito Camarinha foi exonerado no governo Macedo Soares: 
  • "(...) com a divisão do estado em zonas de influências políticas a cidade de Santa Cruz foi incluída no distrito do sr. Cesar Vergueiro.” (...). "Ora, o sr. Silvio de Campos, não sabemos bem porque motivo, resolveu intervir na política daquela cidade e para isso aproveitou a ausência do sr. Cesar Vergueiro no Diretorio Central, e fez a remessa do oficio ao interventor com a indicação do novo prefeito." (Jornal de Notícias, 23/04/1946: 3). 
A exoneração de 'Lulu' Camarinha aconteceu por telefone: 
  • "Mario Tavares [Presidente da Executiva do PSD e simpático a Silvio de Campos] telefonou do Banco do Estado ao encarregado da Secretaria do Partido, solicitando a demissão dos prefeitos de Santa Cruz do Rio Pardo e São Pedro do Turvo, com a indicação de novos titulares." (Jornal de Notícias, 05/05/1946: 6), com urgência, dispensando parecer do ausente Cesar Vergueiro [a cuja ala pertencia Santa Cruz do Rio Pardo]. 
O ato desprestigiou Vergueiro, o fundador do Partido Socialista Democrático – PSD, no ano anterior, 1945, e para Santa Cruz fez-se a nomeação do médico Pedro Cesar Sampaio, em lugar do Camarinha, gerando crise nacional com a dissidência do PSD paulista. 
Para os líderes 'pessedistas' o Interventor Dr. José Carlos de Macedo Soares não cumprira o acordo com Partido, no qual filiado Camarinha, para que não houvesse exoneração ou nomeação política sem anuência da Comissão Executiva do Partido, presidida por Mario Tavares. 
Acuado o Interventor reconsiderou sua decisão e, por Decreto de 16, publicado aos 17 de maio de 1946, tornou sem efeito a nomeação do Dr. Pedro Cesar Sampaio e, no mesmo Ato, designou Mario de Campos Pacheco, Inspetor de Contabilidade, lotado no Departamento das Municipalidades para "sem prejuízo dos vencimentos e demais vantagens de seu cargo, exercer, em comissão, o cargo de Prefeito Municipal de Santa Cruz do Rio Pardo" (DOSP, 17/05/1946: 2). Sampaio nem tomou posse.
A anulação do Ato que tornou sem efeito a nomeação de Pedro Cesar Sampaio não ocorreu a pedido, e isto deu causa para Romeu Tortima, Diretor do Departamento das Municipalidades, se autodemitir do cargo. 
Campos Pacheco exerceu o cargo de prefeito em Santa Cruz, no sistema de intervenção branca, e depois substituído por Mario Botelho do Amaral, em 1947, e daí uma série de ocupantes interinos, todos em 1947: João Ferreira Vasconcelos, Francisco Gonzaga de Oliveira, Philadelpho Aranha Junior, João Palma Villas Boas e José Osiris Piedade. Campos Pacheco foi, também, Prefeito em Ourinhos, assim citado em janeiro de 1946 (A Voz do Povo, Ourinhos, 19/01/1946: 1). 
Enquanto o prosseguimento da crise política, Leônidas Camarinha fundou a Rádio Difusora Santa Cruz (ZYQ-8), concessão em 1946, em sociedade com o comerciante João Queiroz Junior e o bancário José Antonio Ramos, para desta maneira concentrar em suas mãos a imprensa santacruzense, escrita e falada, e dela fazer uso político, aprontando-se para disputar vaga na Assembleia Legislativa e eleger-se Deputado Estadual, com 4.262 votos, para a legislatura 1947/1950. 
Como parlamentar envolveu-se na eleição municipal de 1947 para fazer prefeito eleito o indicado Lúcio Casanova Neto, além de maioria na Câmara. 
Camarinha não teve atuação parlamentar destacada, apenas endereçando projetos de impacto popular, muito mais para Santa Cruz e região, como destinações de verbas para obras assistenciais, aos esportes e à construção do Hospital, que já se dizia Hospital Maternidade. 
Inteligente, manteve seu nome em muitas edições do Jornal de Notícias, coluna 'Flagrantes da Assembleia', de humor político satírico. Se reelegeu deputado, mandato de 1952/1955, pelo Partido Social Progressista – PSP, com 5.848 votos. 
O PSP foi renomeação, em 1947, do Partido Republicano Progressista PRP, de Adhemar de Barros, que não deve ser confundido com o extinto Partido Republicano Paulista, embora raízes os vinculem.
Outra eleição estadual, Legislatura 1956/1959, e Leônidas novamente deputado eleito com 6.590 votos, sendo que nessa disputa teve a rivalidade municipal de José Osíris Piedade, o Biju, lançado candidato pela UDN – União Democrática Nacional, que não ultrapassou os 600 votos. 
Na legislatura, de 1956/1959, Camarinha cometeria dois erros políticos em prejuízo a Santa Cruz, primeiro ao consentir e atuar favoravelmente para a redução territorial do município, em favor da localidade de Ourinhos, com a perda da Usina São Luiz e a consequente arrecadação; noutro desacerto, negou apoio político regional ao então candidato para governo paulista, Jânio da Silva Quadros, afinando-se com Dr. Adhemar de Barros. 
Algumas memórias indicam que o salário mínimo, na época, era regional, sendo o de Santa Cruz superior ao de Ourinhos, havendo então interesse econômico da empresa pertencer ao município ourinhense, sendo certo que o Deputado Leônidas Camarinha, em verdade, denunciou "violencias fiscais da Fazenda Estadual em uma usina de Santa Cruz do Rio Pardo" (Ultima Hora, 18/11/1959: 4). Realmente o salário mínimo, desde sua criação, era dividido por regiões e sub-regiões: "Quando da sua criação em 1940, até meados da década de 1980, existiram vários níveis regionais para o salário mínimo, havendo ocasiões onde o maior valor era quase o triplo do menor valor" (Franco, 2000: 1-2), implantados 14 salários mínimos, diferentes para cada região do país, às vezes dentro do próprio estado, e apenas em 1984, o mínimo foi unificado no país, e, em1963 já eram 38 Salários Mínimos diferentes no Brasil, distribuídos nas diversas regiões e sub-regiões, recebendo reajustes diferenciados ao longo dos anos.
O primeiro caso rendeu votos a Camarinha na eleição seguinte; e no segundo, Jânio foi o eleito e, em represália ao Deputado, vetou aqui a implantação do Instituto de Letras e Filosofia, em 1957, autorizando-o para Assis onde, acrescido dos cursos de História e Psicologia, fez-se o conjunto originário da atual UNESP 'Julio de Mesquita Filho'. 
Do assunto, Queiroz Filho assim resumiria: "Por razões políticas (o nosso representante na Assembleia Legislativa, o deputado Leônidas Camarinha, teve um desentendimento político com o governador), a faculdade foi para Assis e não para Santa Cruz" (Debate, 07/11/2004, entrevista com Teófilo Queiroz: 'Professor recebe título de Cidadão Emérito'). 
Outra cinca, aponta que o Camarinha era distribuidor de falsos diplomas pela Escola Normal de Santa Cruz, e favorecera Marlene Taveiros, filha de Renato Taveiros (Diretor da Câmara e dono de Jornal), um sobrinho e apadrinhados políticos, locais e de outras regiões, casos então denunciados que obrigaram incêndio criminoso na secretaria da Escola, ateado por dois funcionários, Walter Biel e Benedito Camarinha Machado, consumindo os livros e documentos que pudessem atestar as falcatruas. 
Leônidas teve que se explicar junto ao então Governador Dr. Jânio da Silva Quadros, através da Secretaria de Educação, e não sem razões já o insinuavam 'incendiário', pecha que lhe foi dada desde a queima da sede da UDN santacruzense (Jornal de Notícias, 08/01/1948: 3).
Versão brandecida do incêndio na Escola Normal conta que Leônidas tão somente acorrera em favor daqueles dois servidores públicos, e que o fogo adveio de problemas elétricos. 
Diante das atitudes políticas de Leônidas Camarinha, a desfavor do município, teria acontecido a dissidência, em 1957, liderada por Lucio Casanova Neto, Anísio Zacura e Onofre Rosa de Oliveira, abrigando-se na legenda do Partido Democrata Cristão – PDC, unido à UDN contra o grupo Camarinha, e Onofre Rosa de Oliveira foi eleito, em 1959, prefeito municipal tendo por vice José Osíris Piedade – Biju. 
Leônidas Camarinha não perdoou o líder dissidente e fez chegar ao Ministério Público, em 1959, denúncias de desvios de dinheiro, materiais e medicamentos, ocorridos durante a gestão do antigo aliado, Lucio Casanova Neto (1956/1959), referente a repasse de diferenças de fretes do ramal sorocabano a favor do Município, ocorrido aos 10 de abril de 1957.
Leônidas 'Lulu' Camarinha reeleito Deputado Estadual (1959/1963), pela coligação PSD/PSO, com aumento significativo de votos, com 9.996 eleitores, e veio à forra contra o grupo de Lúcio, e em 1963 viu elegido o genro, Carlos Queiroz, para prefeito, e o sobrinho engenheiro, José Carlos Nascimento Camarinha, para vice. Este foi o seu último grande feito político. 
No pleito de 1966, para a Assembleia Legislativa (1967/1970), Leônidas foi rejeitado nas urnas, com apenas 4.027 votos, enquanto o rival Lúcio Casanova Neto assumiu cadeira com 12.925 votações. 
O grupo político de Leônidas, segundo denúncias de adversários, envolvera-se em escândalos político-administrativos, carreado por Cyro de Mello Camarinha, então processado por desvios de verbas públicas e peculatos, e José Carlos Nascimento Camarinha, acusado e preso por subtração de materiais e superfaturamento em obras do governo, além de outro Camarinha, o Benedito, complicado na onda de falsos diplomas escolares e incêndio na secretaria da escola.
A denominada 'época política Camarinha', após três décadas, chegava ao fim em outubro de 1969, com a trágica morte do ex-prefeito Carlos Queiroz, herdeiro político de Leônidas. 
Camarinha, após a política, dedicou-se aos negócios particulares, gerenciando o Frigorífico Santa Cruz que possuía, em sociedade, visto em 1968 (DOSP: Publicações em Ineditoriais de 25, 27 e 30/01/1968) e depois em 1970 com as saídas e entradas de sócios: 
  • "511.419 – Frigorífico Santa Cruz Ltda. Santa Cruz do Rio Pardo – Retiram-se Jamil Abdalla, Luiz Coronado Rubio, João Homero Alcantara, José Theodoro de Andrade, José Pedron, Guilherme Zacura, Alicio Peixoto, Jeronimo Peres Milian, Antonio Maximiniano de Souza, José Pais de Oliveira, José Renofio e José Dias Vieira – Capital de 162.000,00 entre Hideo Yoneda, Leonidas Camarinha e Wilson Gargioni com 39.054,00 cada – Narciso Nardo 22.264,00 – Arlindo Nardo c/ 16.890,00 e Carlos Vasques Freire, c/ 5.784,00." (DOSP, 31/01/1970: 11. 
O velho caudilho possuía, em sociedade, outros segmentos de serviços, por exemplo, o comércio varejista de combustível, com dois postos de revendas – um [por tempos chamado de Posto do Pelé] na Avenida Tiradentes onde atualmente [referência 2014] as instalações do Banco do Brasil – antiga Nossa Caixa, e outro o Posto Confiança, ao final da Euclides da Cunha esquina com a Simão Cabral – Confiança I. 
Consta, também, Leônidas Camarinha Membro do Conselho Fiscal da Itacolomy de Automóveis S/A (DOSP/Ineditoriais, 02/04/1966: 32).
-o-
  • *Os comentários neste capítulo, juízos e críticas, são de responsabilidade dos autores e não representam, necessariamente, a opinião pública santacruzense. 
-o-

Um comentário: