SatoPrado - coletâneas

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sexta-feira, 19 de julho de 2013

1608 - PREALEGADOS HISTÓRICOS

Atassalhando o véu das pressuposições
1. Antigos caminhos religiosos e bandeirantes
Antiga trilheira no território que viria ser Santa Cruz do Rio Pardo servia de passagem aos padres espanhóis e demandadores dos sertões, desde a Serra de Botucatu ao Salto das Canoas ou Quebra Canoas, no Paranapanema, em atual município de Salto Grande (Aluisio de Almeida 1959: 168).
Monsenhor Aluisio Almeida (1960: 41), estudioso jesuíta, melhor explica o curso deslocado da estrada pré-cabraliana Peabiru, que "subiu a serra, ganhou as cabeceiras do Pardo (Pardinho) antigo Espírito Santo do rio Pardo e desceu aquele rio até as alturas de Santa Cruz do rio Pardo, donde passou para o afluente Turvo e saiu nos Campos Novos do Paranapanema (nome mais novo)", prosseguinte até o Salto das Canoas, a partir de onde navegável o Paranapanema em direção às Reduções Jesuíticas (1608/1628) e Rio Paraná. Cartografia oficial de caminhos paulistas, séculos XVII e XVIII, confirma o uso do Paranapanema de sua barra ao Salto das Canoas, numa viagem com duração média de vinte dias (BDPI: Cart325602).
O trecho paulista Peabiru saía de São Vicente rumo a Piratininga – São Paulo, depois Sorocaba e, na entrada da Serra Botucatu, obliquava para os lados da hoje Avaré e daí ao Paranapanema, seguindo a margem direita até transpô-lo, aonde a atual Ourinhos, e seguir adiante por terras paranaenses ao município denominado Peabiru (Valla, 1978: 90). Os ibéricos conheciam a Peabiru, de São Vicente aos Andes peruvianos, com as primeiras andanças entre 1502/1513, mas foram os padres que produziram o atalho pela serra até o Salto das Canoas, denominado Paranan-Itu (Salto Grande) pelos Tupi.
Em 1719 instalou-se na Serra Botucatu a Fazenda Jesuítica conhecida por Boa Vista, para os propósitos inacianos além do comércio com os passantes, aventureiros e bandeirantes, oferecendo-lhes os padres, ainda, pouso e lugar de ajustes. 
Em 1721 o bandeirante Bartholomeu Paes de Abreu, primo do jesuíta reitor Padre Tenente Estanislau de Campos Bicudo, requereu à Câmara de São Paulo direitos para explorar uma estrada, do centro da então capitania paulista às minas de Cuiabá, calcada no leito da antiga Peabiru e da trilha jesuítica/bandeirante, ou seja, "a partir da 'ultima povoaçam', da última vila e, também, a partir do morro do Hibiticatú" (Apud, Figueiroa, 2009: Revista 4).
Sorocaba, à época, era a derradeira vila desde 03/03/1661, e a última povoação seria a sede da Fazenda Boa Vista, junto ao Ribeirão de Santo Inácio, passagem rumo a Paranan-Itu aonde "um rudimentar porto para as canoas que iam e vinham" para dali se chegar, segundo Paes de Abreu, "ao rio Paraná onde instalou três roças de milho, feijão, legumes e deixou 250 bois em uma delas" (Apud, Figueiroa, 2009: Rev. nº 5). 
No aguardo de autorização Paes de Abreu iniciou abertura de eito terrestre de Paranan-Itu até defronte o despejo do Pardo matogrossense no Rio Paraná (Giovannetti, Álbum Histórico do Município de Quatá, 1953: 1-2). Indeferido o pedido Paes de Abreu, desgostoso e com problemas judiciais, abandonou o projeto. 
Anos depois, em 1759, a expulsão dos jesuítas do território brasileiro, decretou o fim dos seus empreendimentos também em Botucatu, favorecendo a infestação indígena nas encostas e morrarias da serra, com prejuízos às iniciativas sesmariais.
2. A senda militar 
Por Ato de 06 de janeiro de 1765, o rei português, D. José I, nomeou Governador da Capitania de São Paulo, o Capitão-General D. Luís Antonio de Souza Botelho e Mourão, 4º Morgado de Mateus, encarregado em restaurar a capitania paulista, abrir ou refazer estradas, fundar cidades e povoar os sertões, fazendo guarnecer os rios Tietê, Paranapanema, Iguatemi, Paraná e Prata, assim a expandir fronteiras ao oeste e levantar fortalezas para proteger o sul contra os espanhóis, ainda ressentidos pelas perdas territoriais com o fim do Tratado de Tordesilhas.
Ainda, o Morgado precisava entregar segura a outrora fazenda dos jesuítas aos arrematantes, conceder novas sesmarias e ratificar as concessões anteriores, com o livramento dos perigos indígenas, para isto contratado o bugreiro Francisco Manuel Fiúza.
A região experimentou o progresso com o fluxo de pessoas vindas principalmente de Sorocaba, Itu, Itapetininga e Porto Feliz, atraídas pela promessa de fundação de novos povoados e distribuições de terras nas cercanias e adiante da Serra Botucatu, como sentinelas avançadas e fortalezas, sendo Simão Barbosa Franco o encarregado das ações (Donato, 1985: 47-48).
Com essa visão militarista o Morgado determinou a construção da senda militar, em 1770/1771, a entrar pela Serra Botucatu até a barra do Pardo ou, mais propriamente, ao Paranan-Itu, sob as ordens do Capitão-Mor de Sorocaba, José de Almeida Leite, para articulações com as bacias hidrográficas dos rios Tietê, Paranapanema, Paraná, Iguatemi e Prata, incentivando o povoamento do sertão e sua defesa das pensadas incursões espanholas.
O Almeida Leite prestou contas do compromisso ao Morgado, dando-o por realizado em 1772, sendo certo sua chegada à margem do Paranapanema. 
3. As sesmarias ao longo dos caminhos
O Vale do Pardo, no entanto, não foi apenas corredor de acesso entre a Serra Botucatu e o Rio Paranapanema; documentos creditam-lhe grupos arranchados, desde que João Álvares de Araujo, por volta de 1730, rumou "para o sul, costeando a serra e posicionando-se além do Rio Pardo" (Donato, 1985: 44), à beira do caminho religioso/bandeirante e por onde haveria de passar, décadas depois, a senda militar.
João Pires de Almeida Taques, pelos anos de 1750, obteve sesmaria no Pardo "além do dito rio no novo caminho que se abriu para a Praça de Iguatemy, em tempos povoados por João Alvares de Araujo" (Repertório das Sesmarias, L. 19, fls. 121-v). 
Aluisio de Almeida, confirma os aparentados João Pires, José de Almeida Leme, e Antonio Pires de Almeida Taques, sesmeiros no Pardo abaixo, e que Antonio [Pires] de Almeida Taques, em 1770, beneficiara-se de terras à margem esquerda do Rio Pardo (Repertório das Sesmarias, L. 21, fls. 46).
Documentos atestam que Claudio de Madureira Calheiros, em 1771 requereu sesmaria, adiante daquela do sogro Vicente da Costa Taques Goes e Aranha, a acompanhar o Turvo, margem esquerda, à sua barra no Pardo (Repertório das Sesmarias, L. 21, fls. 70). Destarte, as sesmarias à direita do Pardo "já estavam ocupadas por Vicente da Costa Taques (...), e por Francisco Paes de Mendonça e Jeronymo Paes de Proença, c. 1779" (Pupo e Ciaccia, 1985: 23). 
Acima destes situavam-se João Alvares, Antonio Machado e os Pires, e daí um vão até as terras sesmadas do citado Madureira Calheiros, do qual ciente Manoel Correa de Oliveira que, em 1780, pediu o chão entre aquelas sesmarias sobrando-lhe "as terras do espigão entre o Pardo e o Turvo, até a barra deste naquele." (Pupo e Ciaccia, 1985: 22-23).
O Repertório das Sesmarias (L 21 fls. 100 e L 25 fls 82) ratifica os nomes daqueles relacionados sesmeiros à margem direita do Pardo, e confirmadas, também, as sesmarias concedidas do espigão à margem esquerda do Turvo, e do outro lado deste nenhuma sesmaria notada. 
Mais para o Vale Paranapanema, pela antiga Peabiru, existiu a Sesmaria das Antas "em Lençóis, onde hoje está a povoação da Ilha Grande [Ipaussu] no município de Santa Cruz do Rio Pardo" (Silva Leme, 1905: 403, vol. VI), originariamente concedida a Luiz Pedroso de Barros, aos 09 de dezembro de 1725, repassada a José Monteiro de Barros, avô materno do famoso sertanista Tenente Urias Emygdio Nogueira de Barros (1790-1882), que a recebeu por herança, estimada extensão de três léguas de terras nos atuais municípios de Ipaussu e Chavantes – Distrito de Irapé (Tapi'irape: Caminho das Antas), com largura de uma légua a partir da margem paulista do Paranapanema.
Das fazendas e sesmarias adiante de Botucatu atestam-nas a 'Carta Provincial do Governo de São Paulo, de 12 de fevereiro de 1771', obrigando os moradores na região do Pardo prestar ajuda, em tudo que deles necessitasse, o Capitão Almeida Leme, na abertura da vereda militar, concluída em 1772.
Dos restos de sesmarias, no começo do século XX, residentes sorocabanos descendentes dos Pires anunciavam a venda de 4.000 alqueires de terra em Santa Cruz do Rio Pardo (Aluisio de Almeida, 1959: 255).
4. A falência dos empreendimentos
Martim Lopes Lobo de Saldanha assumiu o governo paulista (1775/1782), como 'Capitão General', e optou pelo abandono de tudo quanto planejara ou realizara o Morgado, seu antecessor, em Botucatu e adiante da serra. Com o desamparo dos feitos as sesmarias não progrediram, as fazendas fracassaram e os arranchados, isolados e à mercê da crescente e ameaçadora presença indígena, retiraram-se. 
Os índios expulsos por Fiúza, em 1770, retornaram mais ou menos dez anos depois, com seus descendentes e acrescidos de outros grupos e restos tribais, para formar numerosa e preocupante população adversa ao progresso, postando-se nas encostas das serras, onde a geografia lhes facilitava os movimentos e táticas de combates, impedindo o expansionismo capitalista.

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