domingo, 27 de outubro de 2024

PARA MELHOR COMPREENSÃO*

Siglas, nomes geográficos e históricos usuais para entender significações e lugares

Trajano Carlos de Figueiredo Pupo e Paulo Pinheiro Machado Ciaccia: As 
Primeiras Fazendas da Região de Botucatu, 2005: 12

-Bandeira
Expedição armada, financiada ou assumida por particulares que, entre os fins do século XV e começos do XVIII, com três tipos distintos: 1) bandeiras de apresamento para captura de indígenas para escravização; 2) bandeiras de prospecção, para descobertas de minas e procuras de metais preciosos no interior brasileiro; 3) bandeiras de contratos para buscar escravizados fugidos e destruições de quilombos.
Não raramente o 'cabeça de bandeira' era o próprio financiador, partindo de pontos estratégicos em terras paulistas.

-Bugreiro
 Caçador e matador de indígenas.

-Capela
Povoação incipiente.
A identificação de um lugar como 'Capela', significava o reconhecimento da Igreja e do Estado quanto a existência legal de determinada povoação. Capela equivalia a Distrito Policial pelo poder civil.

-CD: A/A
Cópias de Documentos em Arquivos dos Autores.

-Cuesta
Palavra espanhola com significado de encosta de colina ou monte. Neste trabalho, trata-se da denominada Cuesta Botucatu, cujo relevo é íngreme de um lado e suave de outro, em declive não simétrico, com deslumbrantes paisagens e onde situa-se o famoso aquífero Guarani.

-Dadas
Genocídio bugreiro praticado contra indígenas ocupantes de territórios que interessavam aos fazendeiros e capitalistas; grafia em itálico. Convencionalmente grafado na forma itálica.

-Entrada
Expedições oficiais organizadas e financiadas pelo governo, partindo de um ponto do litoral para explorar o interior brasileiro, com missões de apresamentos de indígenas, destinados à escravização, e procuras minas.
Entradas e bandeiras às vezes confundem-se. No final do século XVII as entradas entraram em declínio enquanto sobressaíam-se as bandeiras paulistas.

-Planalto Ocidental Paulista
A escarpa e reverso da Serra de Botucatu, para além da Cuesta, direção noroeste-sudeste, em suave inclinação geológica com mais de 500 km de extensão por variáveis de 190 de largueza, com desníveis entre os 350 a 700 metros. Para o presente trabalho, no entanto, considere-se toda região entre o Tietê e Paranapanema a partir dos cursos d’águas do Jacuí e Guareí, depois desde as nascentes do Feio/Aguapeí ao mesmo Paranapanema, até as barrancas do Paraná.

Razias
Incursões predatórias sertanejas em territórios indígenas.

-Sertão do Botucatu
Desde 1855-1856 o Sertão Paranapanema adiante da Serra tornou-se Sertão de Botucatu, o qual, para efeitos deste trabalho considerado apenas a região centro-sudoeste e oeste paulista ou, mais propriamente, as terras situadas entre o divisor do Peixe com o Paranapanema, a partir dos campos de Botucatu ao Rio Paraná.
Para efeitos deste trabalho compreende-se por Sertão do Botucatu, quando ainda não conhecidos os Vales do Feio-Aguapeí e Peixe todo o território entre os rios Tietê e Paranapanema, desde a descida da Serra às barrancas do Rio Paraná, como o último inculto rincão paulista habitado por indígenas, atravancadores do progresso, e bestas feras da floresta. Esta informação será dada repetidas vezes para melhor compreensão dos assuntos tratados.

-Sertão Paranapanema
Nos primeiros anos da conquista sertaneja, por tradição, porém erroneamente, denominava-se Sertão do Paranapanema todo o território entre os rios Tietê e Paranapanema, desde a descida da Serra Botucatu às barrancas do Rio Paraná.
A partir de 1855, com a criação da Vila de Botucatu e, consequentemente, município, tornou-se Sertão de Botucatu, quando ainda não conhecidos os Vales Feio-Aguapeí e Peixe.

-Sertão Pardo/Turvo e Pontal do Turvo/Alambari
Todo o território inicial para a Capela de Santa Cruz do Rio Pardo, combinado em 1862, inserido dentro do Sertão do Botucatu. Em 1872, Santa Cruz já reconhecida pelo poder civil, teve acrescimento de partes do Pontal Turvo/Alambari.

Tropeiros – Tropeirada e tropeirismo
Homens que conduziam tropas muares e equinas do Sul Brasil a Minas
Gerais e outras regiões, também responsáveis por transportes de alimentos e produtos inter-regionais. Os tropeiros 'inventavam' rotas para melhor conduzir suas tropas, integrando povoados incipientes, muitos dos quais eles mesmos transformaram de simples pouso em prósperos núcleos habitacionais.

-Vale do Feio/Aguapeí
A partir das nascentes do Rio Feio/Aguapeí na Serra de Agudos, a 40 km de Bauru, entre os divisores Peixe e Tietê até o rio Paraná, com área de 12.000 quilômetros quadrados.

-Vale do Paranapanema
De acordo com a descrição geográfica de Teodoro Fernandes Sampaio, o Vale do Paranapanema compreende toda extensão de terras às margens do rio do mesmo nome, desde Sorocaba até o rio Paraná, uma área aproximadamente de 110.000 quilômetros quadrados, dos quais 27.400 no atual estado de São Paulo. O rio Paranapanema nasce na Serra de Paranapiacaba.

-Vale do Peixe
Com 15.000 quilômetros quadrados de área, situa-se entre os Vales do Feio-Aguapeí e Paranapanema, a partir da nascente do rio do Peixe, na Serra de Agudos, até sua barra junto ao rio Paraná.
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-Legendas do Mapa encimado - transcrição dos citados Pupo e Ciaccia


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*Nesta reedição eletrônica 2024, as datas das publicações quanto aos anos, não correspondem com o tempo real, sendo artifício utilizado pelos autores para a sequência melhor compreendida dos assuntos tratados.
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Contato: pradocel@gmail.com

APRESENTAÇÃO

Algumas palavras
Lembram as tradições que o mineiro José Theodoro de Souza, em meado do século XIX, comandou pequeno exército de 'bugreiros' na mais sanguinária invasão contra indígenas do último rincão inculto paulista, entre os rios Tietê e Paranapanema, a partir da descida da Serra Botucatu ao rio Paraná.
Theodoro hierarquizou seus homens e estabeleceu os comandos regionais para os ataques, quase ao mesmo tempo, sobre as aldeias previamente dimensionadas dentro do território focado.
Um dos grupos, chefiado por Manoel Francisco Soares, encarregou-se em 'civilizar o Turvo e Pardo santa-cruzenses', cujas ações iniciadas por volta de 1850, avançando sobre os indígenas para tomar-lhes as terras, tornar cativos os apanhados, recuar os escapadores e eliminar os recalcitrantes.
A história primitiva santa-cruzense neste aspecto, com efeito, perdeu-se, e a crônica informada para Santa Cruz do Rio Pardo, em 1886/1887, já ignorava o tempo da chegada de Manoel Francisco Soares e seus homens, porém tinha-o na lembrança como o pioneiro que, 'acercado de destemidos companheiros, muito combatera e levara de vencida os indígenas ferozes que infestavam a região'.
Soares, exitoso na empreitada, fizera erguer "uma cruz de madeira, que orgulhosamente se ostentava na beira do terreiro de sua habitação" (Almanach da Provincia de São Paulo, 1887: 541), e, então, a pretensão de uma  povoação em sua propriedade, ou, disto convencido, para doar cem alqueires de terras ao Patrimônio da Santa Cruz para tal propósito.
À época da crônica, igualmente lembrada a presença do padre João Domingos Figueira, como aquele que concorrera para execução do plano adotado pelo sertanejo, na formação do povoado, se não o convencedor, fazendo levantar um templo religioso e nele entronar a imagem de São Sebastião, ofertada pelo mesmo Soares; o lugarejo, assentado sobre a sede da Fazenda de Soares, tornou-se Capela Santa Cruz, em 1862, com dezoito ou vinte moradas.
A publicação de 1887, de possível inspiração do coronel e deputado provincial paulista, Emygdio José da Piedade, residente em Santa Cruz desde 1870, tinha por objeto a história local com a chegada do fazendeiro e capitalista Joaquim Manoel de Andrade, também em 1870, como o principal agente transformador do capenga arraial em próspera comunidade: "Os ranchos desde então foram esquecidos e, podemos affirmar, Santa Cruz do Rio Pardo nasceu em 1872, sendo desde então rapido o seu progresso e admiravel os melhoramentos que tem recebido." (Almanach da Provincia de São Paulo, 1887: 542).
Depreendido da narrativa de 1887, a Santa Cruz de 1872 deixava a condição de 'Capela' para transformar-se em 'Freguesia', sinônimo de progresso, sob os auspícios de Joaquim Manoel de Andrade, o mais rico e influente nome no lugar, inclusive o responsável, juntamente como o deputado Emygdio José da Piedade, pela elevação de Santa Cruz à condição de Vila e, assim, município, em 1876. A Igreja era a proprietária dos imóveis urbanos administrados pela Câmara Municipal, situação até o anos de 1903.
Após o golpe militar de 1889 que derrubou o império e instituiu a república, o Brasil foi declarado estado laico, em 1890, e já no ano seguinte a Câmara Municipal e a Igreja travaram disputa pelos terrenos urbanos santa-cruzenses, nos tempos do reverendo padre Bartholomeu Comenale, vigário forense, vereador, presidente da câmara e, depois, intendente.
Não localizado nenhum documento de concessão de bens do Manoel Francisco Soares à Igreja, e, em 1891, a Igreja precisou recorrer a testemunhos da época que atestassem a alienação patrimonial do Soares, inclusive o genro deste, José dos Santos Coutinho, também doador de terras, para o Patrimônio de Santo Antonio, que, somado ao da Santa Cruz,  contribuiu na formação da urbe santa-cruzense.
Santa Cruz do Rio Pardo, outubro de 2024.

Os autores Celso Prado e Junko Sato Prado

PREALEGADOS HISTÓRICOS

Um tempo antes na história do Sertão Botucatu
O denominado Sertão [do] Paranapanema compreendia, dentro do Vale Paranapanema, ainda em meado do século XIX, todo o território paulista anotado como terrenos desconhecidos e habitados por indígenas e feras selváticas, entre os rios Tietê e Paranapanema, desde a descida da Serra Botucatu às barrancas do Rio Paraná, quando ainda não conhecidos os Vales do Feio-Aguapeí e Peixe.
Histórica e geograficamente o Sertão Botucatu, desde 1580, com a unificação das Coroas Espanhola e Portuguesa com as respectivas colônias, não era chão de todo desconhecido, servindo de passagens aos demandadores sertanejos, identificados nos religiosos, bandeirantes, entradistas, monçoeiros e militares, caminhos poucos, apenas dois rios relativamente navegáveis, Tietê e Paranapanema, além da grande senda pré-cabraliana, a transoceânica Peabiru, do Atlântico ao Pacífico.

1. Antigos caminhos religiosos e bandeirantes
Informes historiográficos apontam que o entradista Antonio Bicudo, no ano de 1620, deixando o 'Caminho Peabiru' subiu a Serra do Botucatu e atingiu as cabeceiras do Rio Pardo, para reconhecimento territorial e preação indígena, com as primeiras descrições dos campos e matas entre os rios Guareí, Paranapanema, Tietê, morros da Serra - zona sudoeste e as nascentes do Pardo.
Tais indicativos entraram nas cartas geográficas como referências para as entradas e bandeiras pelos sertões (Bicudo, 2009).

2. Da [Estrada] Peabiru - narrativas
Genericamente o vocábulo Peabyru [Peabiru] seria o designativo de antigas trilhas indígenas - feixes de caminhos, por terra e rios, quase sempre interligados, com lugar de partida para determinado destino.
São diversos os 'peabirus' no interior brasileiro, pré-cabralianos, destacados dois deles nas regiões sudeste e sul do Brasil, um iniciado na Ilha de Santa Catarina - SC, em direção ao Rio Iguaçu - PR para seguir, pela margem direita, até o encontro com as águas do Rio Paraná.
O outro caminho, principiado em São Vicente, litoral paulista, passava pelas atuais localidades de São Paulo, Sorocaba e, do pé da serra Botucatu obliquava rumo ao Rio Paranapanema, margeando-o pela direita até o local de possível e mais segura transposição, entre os municípios hoje de Ourinhos e Salto Grande, para seguir, pelo lado paranaense, ao atual município de Peabiru, daí margear o Rio Paraná abaixo à barra do Iguaçu, para o encontro com o caminho oriundo de Santa Catarina, e daí, unificados, o traspasse do Rio Paraná, entrando em território paraguaio a caminho dos Andes [peruviano], em Cuzco (Bolívia), com prosseguintes às costas do Pacífico em Peru e Equador (Valla, 1978: 90).
A partir de Cananéia saía uma trilha indígena para, vencida a serra, chegar às proximidades da atual localidade de São Miguel Arcanjo e findar num caminho de ligação entre aquelas sendas vindas de Santa Catarina e São Vicente, passantes, grosso modo, em atuais municípios de Ponta Grossa [PR] e Sorocaba [SP]. Quase sempre os caminhantes aos Andes utilizavam a ligação Sorocaba - Ponta Grossa.
O estudioso jesuíta Aluísio de Almeida, pseudônimo do Monsenhor Luiz Castanho de Almeida, no entanto, explica um curso deslocado da estrada pré-cabraliana Peabiru, que "subiu a serra [Botucatu], ganhou as cabeceiras do Pardo (Pardinho) antigo Espírito Santo do rio Pardo e desceu aquele rio até as alturas de Santa Cruz do rio Pardo, donde passou para o afluente Turvo e saiu nos Campos Novos do Paranapanema (nome mais novo)" - (1960: 41), sem prejuízo ao trecho prosseguinte até o Salto das Canoas, a partir de onde navegável o Paranapanema.
Uma vereda portanto passava em território que viria ser Santa Cruz do Rio Pardo, servindo de trânsito aos padres espanhóis e demandadores dos sertões, desde a Serra ao Salto das Canoas, também conhecido por Paranan-Itu e Salto Dourado, no Paranapanema, em atual município de Salto Grande. Cartografia oficial de caminhos paulistas, séculos XVII e XVIII, confirma o uso do Paranapanema de sua barra ao Salto das Canoas, numa viagem com duração média de vinte dias (AESP: BDPI: Cart325602).
No referido mapa, a anotação sobre Sorocaba - SP: "Essa Villa foi feita cidade por El ReyFelipe 3º para dar-lhe o nome de S. Felipe no tempo de 
Francisco de Souza Conde do Pardo em 1611.", título nobiliárquico português, concedido por D. João III a D. Pedro de Sousa (1468-1563), mantido nos tempos filipinos pelo filho D. Francisco de Sousa, posto escolhido pelo rei espanhol D. Felipe II - I de Portugal (1580/1598) para Governador-geral do Brasil (1592-1602), conservado por D. Felipe III da Espanha e II de Portugal (1598-1621) para o governo além-mar (1608-1611), sendo-lhe prometido o título de 'Marquês das Minas', todavia, morto em 1611, sem o agraciamento.

3. A Fazenda Jesuítica

Em 1719 instalou-se na Serra Botucatu uma fazenda jesuítica conhecida por Boa Vista, para os propósitos inacianos além do comércio com os passantes, aventureiros e bandeirantes, oferecendo-lhes os padres pouso e lugar de ajustes.
Em 1721 o bandeirante Bartholomeu Paes de Abreu, primo do jesuíta reitor padre tenente Estanislau de Campos Bicudo, requereu à Câmara Municipal de São Paulo direitos em explorar uma estrada, do centro da então capitania paulista às minas de Cuiabá, calcada no leito da antiga Peabiru e da trilha jesuítica/bandeirante, ou seja, "a partir da 'ultima povoaçam', da última vila e, também, a partir do morro do Hibiticatú" (Apud, Figueiroa, 2009: Revista 4).
Sorocaba era a derradeira vila desde 03/03/1661, talvez meio século antes, conforme observado em documento 'BDPI: Cart325602' (AESP), e a última povoação admissível, a sede da fazenda jesuítica Boa Vista, núcleo habitado junto ao ribeirão de Santo Inácio, que servia de passagem rumo a Paranan-Itu aonde "um rudimentar porto para as canoas que iam e vinham" para dali se chegar, segundo Paes de Abreu, "ao rio Paraná onde instalou três roças de milho, feijão, legumes e deixou 250 bois em uma delas." (Apud Figueiroa, 2009: Rev. nº 5).
No ano de 1766, Simão Barboza Franco, encarregado pelo Morgado de Mateus da fundação de uma povoação na Serra Botucatu, acima do Rio Paranapanema, 'teria oficializado' a sede da fazenda jesuítica como Botucatu, bairro citado no Censo de 1779 para a Vila de Itapetininga, relacionando seus moradores e domicílios. Botucatu, que outro nome tivesse, seria essa última povoação de Sorocaba em 1721, mencionada por Paes de Abreu, embora desde o primeiro quartel dos anos 1700 conhecido o embarcadouro, no Paranan-Itu ou Salto das Canoas, em atual Salto Grande, mas, não era povoação, não tinha moradores por lá fixados em números que pudessem dizer uma povoação.
No aguardo da autorização, Paes de Abreu iniciou abertura de eito terrestre desde Paranan-Itu até defronte o despejo do Pardo sul-mato-grossense no rio Paraná (Giovannetti, Álbum Histórico do Município de Quatá, 1953: 1-2). Indeferido o pedido, Paes de Abreu, desgostoso e com problemas judiciais, abandonou o projeto e o que já tinha feito.
A despeito dos acontecimentos aos jesuítas, em 1759, expropriações dos bens e expulsões do solo brasileiro, não se pode excluir a tentativa das autoridades na recuperação regional botucatuense, em 1766, para levar a hasta pública a fazenda confiscada, contratado o coronel Francisco Manuel Fiúza (Gilson Bicudo, op.cit), para expulsar ou exterminar 'hordas selvagens', encargo levado a efeito com extrema crueldade, aquém e além das serras, e das nascentes e partes do curso do rio Pardo.
A missão de Fiúza foi liberar as terras e favorecer o governo abrir 'Caminho para o Iguatemi' (em atual Mato Grosso do Sul), estabelecer fazendas e sesmarias e povoar o sertão. O coronel cumpriu seu ofício entregando ao governo a fazenda jesuítica, depois leiloada, e, favorecendo a 'fundação do Bairro Botucatu', por Simão Barboza, com identificação da oraga 'Nossa Senhora das Dores em Cima ou do Cimo da Serra Botucatu'.
Pelos serviços Fiúza recebeu terras, parte "em cima da serra do caminho que se abrio para Iguatemy daquém do rio Pardo" (Donato, 1985: 45).
A fazenda, outrora dos padres jesuítas, foi levada a leilão público e arrematada aos 23 de dezembro de 1776 (Toledo Piza, 2015: 52).

4. A senda militar
Por Ato da Coroa Portuguesa, de 06 de janeiro de 1765, o rei D. José I nomeou Governador da Capitania de São Paulo, o capitão-general D. Luís Antonio de Souza Botelho e Mourão, o 4º Morgado de Mateus, encarregado em restaurar a capitania paulista, abrir ou refazer estradas, fundar cidades e povoar os sertões, arranjando guarnecer os rios Tietê, Paranapanema, Iguatemi, Paraná e Prata, a expandir fronteiras ao oeste e levantar fortalezas para proteger o sul contra os espanhóis, ainda ressentidos pelas perdas territoriais com o fim do Tratado de Tordesilhas e não satisfeitos com o Tratado de Madri.
Também o Morgado precisava entregar segura a outrora fazenda jesuítica aos arrematantes, conceder novas sesmarias e ratificar as concessões anteriores, com o livramento dos perigos indígenas, para isto contratado o bugreiro Francisco Manuel Fiúza.
A região experimentou o progresso com o fluxo de pessoas vindas principalmente de Sorocaba, Itu, Itapetininga e Porto Feliz, atraídas pela promessa de fundação de novos povoados e distribuições de terras nas cercanias e adiante da Serra Botucatu, como sentinelas avançadas e fortalezas, sendo Simão Barbosa Franco o encarregado das ações (Donato, 1985: 47-48).
Com essa visão militarista o Morgado determinou a construção da senda militar, em 1770-1771, a entrar pela Serra Botucatu até a barra do Pardo ou, mais adequado, ao Paranan-Itu, sob as ordens do capitão-mor de Sorocaba, José de Almeida Leite, para articulações com as bacias hidrográficas dos rios Tietê, Paranapanema, Paraná, Iguatemi e Prata, incentivando o povoamento do sertão e sua defesa das pensadas incursões espanholas.
O Almeida Leite prestou contas do compromisso ao Morgado, dando-o por realizado em 1772, sendo certa sua chegada à margem do Paranapanema.

5. As sesmarias -santa-cruzenses- ao longo dos caminhos
O 'Vale do Pardo' não foi apenas corredor de acesso entre a Serra Botucatu e o Rio Paranapanema. Documentos creditam-lhe grupos arranchados, desde que João Álvares de Araujo, por volta de 1730, rumou "para o sul, costeando a serra e posicionando-se além do Rio Pardo" (Donato, 1985: 44), à beira do caminho religioso/bandeirante e por onde haveria de passar, décadas depois, a senda militar.
João Pires de Almeida Taques, nos anos 1750, obteve sesmaria no Pardo "além do dito rio no novo caminho que se abriu para a Praça de Iguatemy, em tempos povoados por João Alvares de Araujo" (Repertório das Sesmarias, L. 19, fls. 121-v).
Aluisio de Almeida, confirma os aparentados João Pires, José de Almeida Leme, e Antonio Pires de Almeida Taques, sesmeiros no Pardo abaixo, e que Antonio [Pires] de Almeida Taques, em 1770, beneficiara-se de terras à margem esquerda do mesmo rio (Repertório das Sesmarias, L. 21, fls. 46).
Claudio de Madureira Calheiros, em 1771, requereu sesmaria, adiante daquela do sogro Vicente da Costa Taques Goes e Aranha, a acompanhar o Turvo, margem esquerda, à sua barra no Pardo (Repertório das Sesmarias, L. 21, fls. 70). Desta forma, as sesmarias à direita do Pardo "já estavam ocupadas por Vicente da Costa Taques (...), e por Francisco Paes de Mendonça e Jeronymo Paes de Proença, c. 1779" (Pupo e Ciaccia, 1985: 23), no citado o caminho para o Iguatemy via Rio Grande [Paraná].
Acima destes situavam-se João Alvares, Antonio Machado e o Capitão [João] Pires [de Almeida Taques], e daí um vão até as terras sesmadas do citado Claudio Madureira Calheiros, do qual ciente Manoel Correa de Oliveira que, em 1780, pediu o chão entre aquelas sesmarias sobrando-lhe "as terras do espigão entre o Pardo e o Turvo, até a barra deste naquele." (Pupo e Ciaccia, 1985: 22-23). O Repertório das Sesmarias (L 21 fls. 100 e L 25 fls 96-v) ratifica os nomes daqueles relacionados sesmeiros à margem direita do Pardo, e confirmadas, também, as sesmarias concedidas do espigão à margem esquerda do Turvo, e, do outro lado deste, nenhuma sesmaria notada.
Mais para o 'Vale Paranapanema', pela antiga Peabiru, a Sesmaria das Antas, "em Lençóis, onde hoje está a povoação da Ilha Grande [Ipaussu] no município de Santa Cruz do Rio Pardo" (Silva Leme, 1905: 403, vol. VI), concedida a Luiz Pedroso de Barros, aos 09 de dezembro de 1725, repassada a José Monteiro de Barros, avô materno do sertanista tenente Urias Emygdio Nogueira de Barros (1790-1882), que a recebeu por herança, estimada extensão de três léguas de terras, a partir da barra do ribeirão da Antas no Paranapanema, em Ipaussu, até Chavantes, no distrito de Irapé - corruptela, por entendimento fonêmico, do tupi 'Tapi'irape - Caminho das Antas', com largura de uma légua, aumentada até o morro divisor onde as nascentes do ribeirão inicial dessas dimensões.
Das fazendas e sesmarias adiante de Botucatu atestam-nas a 'Carta Provincial do Governo de São Paulo, de 12 de fevereiro de 1771', obrigando os moradores na região do Pardo prestar ajuda, em tudo que deles necessitasse, o capitão Almeida Leme, na abertura da vereda militar, concluída em 1772.
Dos restos de sesmarias, no começo do século XX, residentes sorocabanos descendentes dos Pires anunciavam a venda de 4.000 alqueires de terra em Santa Cruz do Rio Pardo (Aluisio de Almeida, 1959: 255), sem precisar exatamente o local.
Os sesmeiros, do século XVIII, pouco ou nada conheciam dos acidentes geográficos que melhor pudessem identificar suas terras; e os pioneiros vindos posteriormente, em meados dos anos 1800, melhor dimensionaram suas posses para registros, quase sempre mudando ou dando novos nomes lugares apossados, para não serem questionados por herdeiros de antigos sesmeiros que, quase sempre, nem sabiam onde, exatamente, suas propriedades.

A falência dos empreendimentos
Martim Lopes Lobo de Saldanha assumiu o governo paulista como 'capitão-general', entre os anos 1775/1782, e optou pelo abandono de tudo quanto planejara ou realizara o Morgado, seu antecessor, em Botucatu e adiante da Serra. Com o desamparo as Sesmarias não progrediram, as fazendas fracassaram e os arranchados, isolados e à mercê da crescente e ameaçadora presença indígena, retiraram-se.
Os nativos expulsos por Fiúza, em 1770, retornaram mais ou menos dez anos depois, com seus descendentes e acrescidos de outros grupos e restos tribais, para formar numerosa e preocupante população adversa ao progresso.
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Contato: pradocel@gmail.com


1780 - DOS POVOS E NAÇÕES INDÍGENAS

Dos indígenas conhecidos na região - resumo
-Das etnias
Com o abandono regional a população indígena, experimentava notório e preocupante crescimento indígena, contar de 1780, de maneira tal que em 1835 se dizia das 'infestações de selvagens - povos das selvas', nas morrarias e furnas das Serras de Agudos e de Botucatu, nos Vales do Pardo, Peixe, Feio/Aguapeí e do Batalha, além do Paranapanema, território paulista. 
Deste modo, nas primeiras décadas do século XIX todo o interior paulista, dimensionado entre os rios Tietê e Paranapanema, adiante da Serra Botucatu à barranca do Rio Paraná, transformara-se num imenso vazio desconhecido da dita civilização, região inóspita e insalubre, habitado por animais selváticos, enquanto os indígenas 'bravios' movimentavam-se dentro desse espaço geográfico, escolhendo áreas e por elas guerreando com os rivais, inclusive no Vale do Pardo santa-cruzense, aonde contadas  algumas coletividades de indivíduos diferenciados socioculturalmente: língua, crença, usos e costumes.
As identificações dos povos originários, a seguir, não são autodenominações próprias, e sim aquelas dadas pelos colonizadores, por aquilo que deduziam melhores referências.
Os autores não são especialistas em povos originários.

1. Caiuá 
Subgrupo identificado erroneamente, opinião dos autores, por 'Caiuá-Guarani', que vivia nos espigões e beiras de pequenos rios, ao longo do divisor Pardo/Turvo. 'Caa-wa' tem significado, na língua própria, de 'o feio do mato', ou espinho, no sentido de imprestável.
Há consenso que bandos distintos Caiuá e Guarani, propriamente dito, tenham vindo do sul de Mato Grosso, Paraná, leste do Paraguai e nordeste da Argentina, onde desapossados de seus termos procuraram segurança em terras do Planalto Ocidental Paulista, unindo-se a destroços tribais no Pardo, após 1835, depois de 'infausta querença' pelos lados de Itapetininga e Itapeva.

2. Xavante
O Xavante ou Chavante tornou-se conhecido como 'índio do cerrado', por significado vocabular indígena 'šhavante', embora inexista uniformidade gráfica senão o aportuguesamento fonêmico, admitindo-se 'šhavan' similar a 'savana', sinônimo de cerrado, então designação não indígena.
O Xavante se autodenomina 'A'uwē - gente' ou 'A'uwẽ Uptabi - gente real, verdadeira',  da 'família linguística jê, tronco macro-jê', aparentado com o'Xerente - A'kwe', do mesmo grupo  linguística.
No território paulista, porém, eram considerados Xavante todos os indígenas, indistintamente, à banda Ocidental do interior bandeirante, daí a denominação 'Xavante Paulista', todavia, sem unanimidade quanto a designação e origem, posto tais populações confundidas com os 'Akuén-Xavánte', da família Jê, do Brasil Central.
Segundo o estudioso Egon Schaden, os denominados 'Xavante Paulista' constituíam, em verdade, duas tribos diversas, as Otí e Opaié. 
(SCHADEN, Egon. Os primitivos habitantes do território paulista. Revista de História, São Paulo, v. 8, n. 18, p. 385–406, 1954. DOI: 10.11606/issn.2316-9141.v8i18p385-406. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/36385.. Acesso em: 20 out. 2024).
Justifica-se a denominação errada, a Carta Régia de 05 de setembro de 1811, que autorizava a 'Guerra aos Xavante', entre outras nações específicas, pelos danos que supostamente causavam ao branco, medida que ainda se fez prevalecer, nos anos 1850/1851, quando das penetrações das frentes pioneiras:
" ... será indispensável usar ... da força armada; sendo este também o meio de que se deve lançar mão para conter e repellir as nações Apinagé, Chavante, Cherente e Canoeiro; ... não resta presentemente outro partido a seguir senão intimidal-as, e até destruil-as se nescessario for, para evitar os damnos que causam. Neste intento vos hei por muito recommendado, não só o enviar os convenientes reforços de Pedestres para o Destacamento do Porto Real, mas toda a vigilancia em dar as providencias qu tenderem ao desempenho destas minhas reaes ordens."
Escrita no Palácio do Rio de Janeiro em 5 de Setembro de 1811. 
(Xavante Panorama: http://www2.uol.com.br/aprendiz/designsocial/xavante/panorama.htm - acesso 17/06/2011 CD:A/A)
Daí a assertiva de Hercule Florence: "chamam-se Xavante a todos os índios que aparecem na parte ocidental da Província de São Paulo e para la do Tietê." (Revista Trimensal do Instituto Histórico Geographico e Ethographico do Brasil, Tomo XXXVIII – Parte Primeira, RJ, 1875: 375 – CD: A/A), e aos brancos, então propositadamente, permitiram acometimentos preventivos aos Xavante, de origem ou não.

2.1. Oti-Xavante
O dito Oti-Xavante, escorraçados dos lados de Bofete, por volta de 1840 assentou-se nos cerrados entre em alguns afluentes do Rio Turvo às duas margens. 
Não se sabe quantos Oti-Xavante habitavam o sertão quando da chegada de José Theodoro e seu grupo no início de 1850, mas vinte anos depois, estavam reduzidos a menos de quinhentos indivíduos, reunidos em umas poucas aldeias de trinta a quarenta pessoas cada (Tidei Lima, 1978: 135). 
Já além dos anos de 1870, segundo Curt Nimuendaju, pelos lados de Conceição de Monte Alegre, em atual município de Paraguaçu Paulista, promoveu-se um massacre aos Oti "barbaramente assassinados sem distinção de idade ou de sexo (...). É difícil saber-se o número de Otis chacinados (...). Afirma José de Paiva, que tomou parte no feito, que os cadáveres estavam empilhados em grande quantidade." (Tidei Lima, 1978: 135 e 136).

2.2. Ofaiê-Xavante
Segundo o mapa etnográfico de Hermann von Ihering e os dados levantados por Curt Nimuendaju, depois por Darcy Ribeiro, os Ofaiê são classificados distintos dos Akuen e dos Oti (Tidei Lima, 1978: 41-A).
Antigos sertanistas citavam presenças de nativos Ofaiê-Xavante na região de Jaguaretê e Laranja Doce (Giovannetti, 1943: 58), compreendendo-se que o Ofaiê seja oriundo do sul mato-grossense, de toda bacia inferior do Pardo e do sul do Mato Grosso, que entraram em terras bandeirantes por volta de 1910, perseguidos pelos fazendeiros instalados.
Os Ofaiê-Xavante foram violentos e opositores ao avanço dos brancos, adiante de Conceição de Monte Alegre, conforme "estão a testemunhar a rapida extinção da tribo e as histórias das chacinas de que foram vítimas" (Darcy Ribeiro – 1951, apud Tidei Lima, 1978: 41-A e 42). Darcy Ribeiro conviveu por semanas com os últimos sobreviventes Ofaiê, em 1948, ocupante das margens do Santo Anastácio (Tidei Lima, 1978: 41-A).
Descendentes dos primeiros desbravadores regionais contam que as famílias Nantes, Botelho e Medeiros, entre outras, valeram-se dos préstimos de bugreiros como João Hipólito, João da Silva Oliveira, José Theodoro de Souza Junior e o Coronel Francisco Sanches de Figueiredo, para matanças de povos originários, e fazê-los refugiarem-se para além dos rios Paranapanema e Paraná, deixando livres as terras pretendidas. Em empreitadas do gênero foram exterminadas tribos inteiras de 'Xavante Paulista', Oiti e Ofaiê, independentes se pacíficas ou não.

3. Caingangue
O Caingangue ou 'Caa-Caing', também grafado Kaingang, com significado 'gente do mato' (designativo xavante) e habitava matas fechadas às beiras dos rios maiores, na região do médio Paranapanema e o Pardo. Foi cognominado 'Coroado' pelo branco, em causa do corte de cabelo. Seria 'primo' do Xavante, com certa semelhança de fala, por isso do grupo 'Macro-Jê' para os especialistas.
De origem controvertida, os grupos que se apresentaram no planalto ocidental paulista seriam oriundos das margens do rio Uruguai (Jorge Junior, 12/03/1969), com presença não anterior ao ano de 1800, extremante resistentes aos brancos e belicosos com outras etnias. 
Nos últimos anos do século XIX já não havia selvícolas no Planalto Ocidental Paulista, senão o Caingangue, e contra eles os brancos investiram em disputa de vasto território de 35 mil quilômetros quadrados, sendo 15 mil do Vale do Peixe e 12 do Feio/Aguapeí ainda ocupado por tribos daquela nação. Os outros oito mil quilômetros quadrados, no Vale do Batalha e Baixo Tietê após a Serra de Agudos, nas denominadas Terras de Lençóis até o Avanhandava e Itapura, também eram territórios Caingangue em disputa com os brancos. 
Entre 1907/1912 os Caingangue já não se apresentavam mais como unidade tribal, posto fracionado em grupos nômades independentes, ainda num imenso espaço territorial. Aparentemente a fragmentação foi decorrente de estratégia dos brancos em isolar grupos e assim enfraquecê-los, com resultado desastroso, pois que os Caingangue tornaram-se muito mais perigosos, agindo cada grupo isoladamente, com extrema mobilidade e grande capacidade de atacar de surpresa em diversas frentes contra os inimigos regularmente ordenados. 
De 1908 a 1911 as frentes de ocupações não mais conseguiam progredir dentro do território Caingangue, os trilhos da estrada de ferro não avançavam, os ataques indígenas se tornaram cada vez mais frequentes e eficientes.
Diante as dificuldades os empreendedores optaram negociar, também em atenção às insistentes pressões de grupos intelectuais, políticos e militares, além de organismos internacionais, a culminar com a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), sob direção do então Coronel Candido Rondon, com a missão de evitar mais chacinas e apaziguar os Caingangue (Castelo Branco, 2004: 16/07), e ainda assim dizimados outras quinhentas pessoas da etnia (Cruz, 2006: v. 6, n. 1/2/3, p. 39-45, texto por referência ao trabalho de Silvia Helena Simões Borelli, 1984: 70).
Para maior eficácia de ação o SPI buscou grupos Caingangue pacificados da bacia do Tibagi e línguas -linguarás ou intérpretes, para ajudar nos contatos em 1912, destacada a célebre índia Vanuire, a maior colaboradora na pacificação dos Caingangues paulistas, dirigindo-se diretamente aos grupos indígenas espalhados, ou, da copa de grandes árvores gritando-lhes pedidos de paz (Vanuire: Lenda da Índia, Museu Índia Vanuire, Tupã - SP). 
Logo após os primeiros contatos (1912/1913), metade dos Caingangue no Estado de São Paulo morreu de epidemia de gripal (KAINGANG: Enciclopédia Povos Indígenas do Brasil, Histórico do Contato, 2001: 7, ref. Horta Barbozza), sobrevivendo "do contingente estimado em 4 mil (...) apenas 700" (Castelo Branco, 2004: 16/07). 
Os sobreviventes foram então reduzidos em Icatu, hoje região pertencente ao município de Braúna, próximo de Araçatuba, e depois o Índia Vanuíre [1917] em Arco Íris, vizinhanças de Tupã - SP. Os originários aldeados em Índia Vanuíre não foram apenas os sobreviventes de grupos paulistas, e nem puramente Caingangue (Cruz, 2006: v. 6, n. 1/2/3, p. 39-45), agora atacados por outros inimigos não menos impiedosos: doenças, como gripe espanhola e sarampo, contra as quais não tinham imunidade. "Em 1916 estavam reduzidos a 173" (Castelo Branco, 2004: 16/07). 
Um absurdo: "Os índios Kaingang paulistas chegam ao século XXI reduzidos a menos de duas centenas de indivíduos confinados em espaços bem restritos" (Cruz, 2006: v. 6, n. 1/2/3, p. 39-45).
A estratégia que garantiu a eficácia da conquista final do território Caingangue, sem dúvidas foi a de treinar e transformar grupos aldeados em intermediários a serviço dos conquistadores, e dos Caingangues, em torno de 4% sobreviveram a carnificina. 

4. Magotes ou os destroços tribais
Desde a quebra da resistência Caiuá (1850/1858) com extermínio quase total, depois a dos Xavante (1870/1880) também com supressão, restos tribais transformados em grupos vagantes, incorporando pelos caminhos outros bandos afugentados, do Paraná e Mato Grosso do Sul, para formar forte resistência adiante do Capivara e em direção, ao Vale do Santo Anastácio, gradativamente à medida da progressão sertaneja.
Tais contados foram denominados Magotes - indígenas de diferentes etnias ou sem elas, como resíduos populacionais unidos e propositados em conter o avanço dos colonizadores, adotando regras de ataques preventivos com incursões às regiões do Pari-Veado ou mesmo São José do Rio Novo – Campos Novos Paulista. 
Quando os brancos chegaram para as ocupações das terras paulistas, entre o Paraná e o Paranapanema, lá encontraram "os indios pretos denominados Chavantes, os (Ouatós), que moram nos campos, os Lainos, Camacosos, Quiniquinau, Coroados, Charraos, e Botocudos, os quaes se escondem para que a civilização não lhes penetre em seus territórios." (Domingos José Nogueira Jaguaribe Filho [Dr. Jaguaribe Filho], 'O Sul Paulista' – Cartas II, 1885, apud Correio Paulistano Correio Paulistano, 13/12/1885: 1). 
Sobreviventes e até os Caingangues uniram-se aos destroços tribais no Santo Anastácio, como a última resistência indígena à supremacia branca. 

5. Dos autodenominados Tupi
Tidos por especialistas como subgrupo Guarani os Nhandéva, hoje aldeados em Araribá (referência 2014), auto intitulam-se descendentes Tupi, já rejeitando as identificações Tupi-guarani ou Caiuá-guarani.
Concordam Denise Monteiro de Castro e Marcos Garcia Neira, em 'Cultura Corporal e educação escolar indígena – um estudo de caso': "... e os Nhandéva, que se autodenominam 'Tupi-guarani' ou simplesmente Tupi'-." (Revista HISTEDBR On-line 2009: 236), na verdade o vocábulo tem o significado de "-'todos nós' (todos nós índios)" (Rodrigues de Almeida, 2013: 6).
Para Nimuendaju não há traços Tupi entre os Guarani primitivos no território paulista. Outrossim, exceto aos reconhecidamente miscigenados, é errada a classificação Tupi-guarani, ou alguma língua denominada tal, consoante em algumas literaturas, o que evidentemente não impede algum índio bilíngue.
No entanto os Tupi passaram por tantos aldeamentos que não se pode mais, desde o final do século XIX, determinar algum representante seu de pura origem no território paulista, posto fruto de miscigenações de brancos, negros, pardos, além de outras etnias indígenas, à exceção Caingangue. Os indígenas, vistos no interior paulista no último quartel do século XIX, quase não possuíam pureza ou não representavam etnia confiável.
Desde os tempos da Fazenda Jesuítica Botucatu os padres incentivavam as miscigenações entre brancos, negros e povos originários, para a pretensa formação do homem brasileiro ideal, como se pensava na época, com a inteligência do branco, a robustez de negro e indolência do nativo. 
Depois, no século XIX viriam os aldeamentos instituídos oficialmente na Província de São Paulo, e quase de imediato surgiram os primeiros núcleos de proteção ao índio, inicialmente em regiões litorâneas e próximos à capital, depois, a pedido de João da Silva Machado – Barão de Antonina, também no sudoeste paulista, sendo o primeiro deles na localidade de São João Batista do Rio Verde [futura Itaporanga], fundado com o mesmo nome em 1845, para o qual designado diretor o frei capuchinho italiano, Pacífico de Montefalco, auxiliado por outros dois freis italianos, Galdêncio [Gaudêncio] de Gênova e Ponciano de Montaldo.
Outros aldeamentos conhecidos, São Sebastião do Tijuco Preto, nas proximidades da atual Piraju, em 1854; São Pedro de Alcântara, na localidade de Jataizinho - PR, em 1855; Aldeamento Pirapó, também conhecido por Nossa Senhora do Loreto, ainda em 1855; o de São Jerônimo da Serra em lugar de igual nome, no ano de 1859, situado às margens do rio Tigre um afluente do Tibagi; e o de Santo Inácio, em 1862, e também, no mesmo ano, o aldeamento Itacorá, em Salto Grande.
Os Tupi primitivos eram caçadores, inclusive de inimigos tribais, para os sacrifícios ritualísticos onde a ocorrência antropofágica. Não opositores ao entradismo branco e até colaboracionistas, viram suas mulheres gerando mamalucos - das uniões com brancos, e logo privados da essência canibalesca de sua cultura. O canibalismo foi combatido à exaustão pelo clero e reinóis, e os Tupi tornaram-se caçadores de outros originários para a escravização requerida pelos colonizadores.
Para Schaden (1954: 391) "Com toda razão aponta Charles Wagley (1951: 117) o fato que a eliminação da guerra e do sacrifício dos prisioneiros, através da proibição rigorosa pelos portugueses, removia uma das motivações centrais da cultura Tupi." 
Recentemente parte do grupo indígena do aldeamento Araribá, em Avaí - SP, antes conhecido como Caiuá-guarani, depois Nhandeva-guarani, agora autodenominam-se Tupi, deslocou-se de Araribá rumo a Barão de Antonina e Itaporanga para retomarem as terras entendidas suas, desde os tempos do aldeamento, e da qual entendiam expulsos pelos fazendeiros, na primeira década do século XX.
Reconheceu-lhe os direitos a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 231, para "(...) sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo a União demarca-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens." 
Parte dos Nhandeva permaneceu em Araribá, confinada entre os Terena, conforme reclamações, e requer terras na antiga localidade de São Domingos, consideradas devolutas e de seus antepassados que lá habitaram.
Os autores foram procurados por representantes Nhandeva, de Araribá, para obtenções de documentos que possam atestar-lhes passagens pelas regiões de Santa Cruz do Rio Pardo e Domélia - Distrito de Agudos, inclusa a extinguida São Domingos.
Os Nhandeva fundamentam-se numa lenda contada pela matriarca, que em 1808 os antepassados deixaram Barão de Antonia e Itaporanga, rumo ao Batalha na região de Bauru. Parte chegou e parte teria ficado pelos caminhos, em São Domingos. Dos que chegaram, logo convencidos por Nimuendaju, aldearam-se em Araribá, criado em 1910 e ativo a partir de 1912.
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1848 - RECONHECIMENTOS HISTORIOGRÁFICOS

1. Bairro do Botucatu
No recenseamento de 1779, para o município paulista de Itapetininga, consta o '
Bairro Botucatu', na Serra de igual nome, com 'sete fogos' [lares] ocupados por quarenta e seis indivíduos, contados homens chefes de famílias, com suas mulheres, filhos, agregados e escravos; não apenas gentes rudes lá residiam, considerados alguns com sobrenomes ilustres, de importantes famílias enlaçadas (Apud Toledo Pizza, 2015: 54-55).
Levantamentos eclesiais, pelos autores SatoPrado, confirmam famílias residentes no Botucatu (Sorocaba, Paróquia Nossa Senhora das Pontes, Livro de Batismos período 1739-1773, apud SGU - https://www.familysearch.org/pt/), Os registros de batismos para Botucatu prosseguem no Livro Eclesial de Itapetininga, Paróquia Nossa Senhora dos Prazeres, período 1773-1805.
Alguns nomes de moradores do Botucatu são os mesmos em ambos os documentos, Censo de 1779 e Registros de Batismos (SatoPrado, Razias (...), 'Botucatu - histórico oficioso'). 
Carta [Oficial] de nº 36, de 24/12/1766 do Governador e Capitão-general de São Paulo, D. Luiz Antonio de Sousa Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, ao Conde de Oeiras, Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal, informa decisão e providências na formação de uma povoação:
"(...) no Wotucatú sobre o rio Paranapanema para tentar se se pode restaurar as muitas Fazendas que se despovoarão naquelle Rio depois que abandonamos a navegação delle para o Cuiabá, pertendo juntamente as vargens da Vaccaria de Guaycurú de que hoje se querem fazer senhores os Castelhanos, mandando a ellas cada dous annos huma companhia para ver se os Paulistas as povoão, e hé Director dela Simão Barboza Franco." (Dorizotto – Sermo, Documentos Interessantes - Cartas e registros dos séculos XVIII e XIX referentes a Piracicaba e região, Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba  IHGP, 2015: 52 - http://www.ihgp.org.br/wp-content/uploads/2014/09/livro_Doc_Interessantes_bx.pdf).
Marques de Pombal foi o todo poderoso Secretário de Estado dos Negócios Interiores do Reino de Portugal, de 1750 a 1777.
O estudioso Manuel Eufrásio Azevedo Marques em seus "Apontamentos Históricos, Geográficos, Estatísticos, Noticiosos da Província de São Paulo(1879: 147, Tomo I)sobre a formação de Botucatu menciona que "(...) o paulista Simão Barbosa Franco foi quem deu começo a esta povoação em 1766 por ordem do governador e capitão-general D. Luiz Antonio de Sousa Botelho Mourão (Morgado de Matheus). A sua invocação é Senhora das Dores".
Elesbão, Martinho e Faustina, como exemplos, aparecem moradores no alto da serra em dois documentos oficiais distintos em anos diferentes: em 1776 no Livro de Assentos Batismais, e em 1779 por ocasião do Censo de Itapetininga, aproximando provas que o 'Bairro Botucatu' foi assentado na sede da fazenda dos padres jesuítas, no 'Vutucatu' por Simão Barboza Franco por ordem do Morgado de Mateus.

2. Capitão José Gomes Pinheiro Velozzo - quiseram-no fundador de Botucatu
A civilização branca nos anos 1830 chegava até o Cimo da Serra Botucatu, onde o capenga 'Bairro Botucatu', no município de Itapetininga, oficializado desde 1766 (https://celsoprado-razias.blogspot.com/2009/12/botucatu-historico-oficioso.html), habitado por administradores e empregados, livres ou não, das cinco grandes fazendas existentes:
-Fazenda Monte Alegre, do capitão José Gomes Pinheiro Velozzo, formada por propriedades menores: Capão Bonito, Morrinhos e Pedras.
-Fazenda Rio Claro, do capitão Ignacio Dias Baptista, alcunhado Capitão Apiaí.
-Fazenda Boqueirão/Pulador, do capitão Raymundo de Godoy Moreira, repassada aos genros major José Inocencio da Rocha e o capitão Joaquim Gabriel de Oliveira Lima.
-Fazenda Bom Jardim, de João Marques, sesmeiro agrupado a outros na região botucatuense, citado o Rio Tietê como referência.
-Fazenda Sobrado, de Domingos Soares de Barros, de antiga sesmaria com o mesmo nome, em atual município de São Manuel, administrada por Joaquim da Costa e Abreu.
Numa versão que se pretendo por oficial na formação botucatuense, o político liberal, capitão José Gomes Pinheiro [Vellozo], morador em Itapetininga, teria sido o fundador de Botucatu, o que não foi, embora por lá fosse o fazendeiro mais influente e demandador de terras contra arranchados e indígenas desde 1808. 
O Capitão ambicionava, ainda, apoderar-se das terras adiante da Serra, ou, povoar o Sertão para, expulsos os indígenas, entregá-las 'limpas' ao capital, aplicar-lhe a civilização, porém,  nenhum documento documento comprova estas intenções.
No ano de 1842 o Capitão, derrotado na Revolução dos Liberais, em Sorocaba, homiziou-se em sua fazenda Monte Alegre até 1844, tempo para enviar cartas a conhecidos, e interessá-los naquelas terras, inclusive ao 'amigo' José Theodoro de Souza, mineiro de Pouso Alegre, que viesse ao sertão, combater indígenas e possuir as terras, não se arrependeria (Marins - Francisco. 'Clarão na Serra', 1973: 25).
Não há duvidas quanto a participação de Gomes Pinheiro na Revolução dos Liberais de 1842 , nem que esteve escondido na Fazenda Monte Alegre, mas, com certeza não escreveu carta alguma a conhecidos, para interessá-los nas terras adiante da Serra. Se efetivamente escritas e enviadas, os argumentos do Capitão não foram convincentes para atrair interessados. 

3. Capitão Tito Correa de Melo - das suas narrativas descabidas
Com a morte do capitão Gomes Pinheiro, aos 08 de março de 1848, o genro Tito Correa de Melo, também capitão, fixou residência em Botucatu para assumir o mando político e a representação dos fazendeiros locais, também com a mesma ambição do sogro em ocupar o Sertão, igualmente enviando cartas aos amigos, em especial o 'compadre' José Theodoro de Souza, convocando-os reunir bandos para combater indígenas e tomar-lhes as terras, adiante da Serra, com expectativas de muitas riquezas. (Avaré News - Periódico, 'Pesquisas de Gilberto [Fernando] Tenor': 1) 'Capitão Tito Correa de Mello - O mais Poderoso Monarquista da região', coluna de 05/06/2002; 2)  'José Theodoro de Souza, O Desbravador do Sertão', 17/06/2002. CD: A/A).
Narrativas duplicadas, com o diferencial que os contatados pelo Capitão Tito Correa de Melo atenderam sua 'convocação', entre eles José Theodoro de Souza, com o qual, segundo o próprio Tito em autorrelatos de 1889, traçou os planos para a conquista sertaneja fazendo-se  o mentor e o seu principal nome ('Avaré, História e Geografia', apud Opúsculo de Avaré, 1939: 3-4).
Tenor prossegue numa de suas informações: "Numa manhã, apareceu em Botucatu um grande bando anônimo de origens diversas, para um fim em comum. Entrar no “Desconhecido Sertão” e lá foram eles abrindo o caminho para o desbravamento da região, até então, inóspita." (AvaréNews, op.cit, 06/06/2002).
O capitão Tito bravateou sua importância na conquista sertaneja, sem ninguém para contestá-lo, em 1889, inclusive quanto a fundação de Botucatu, pelo sogro o capitão José Gomes Pinheiro, vertente esta que os autores, memorialistas e historiadores, acreditaram (Opúsculo - Avaré, História e Geografia, 1939: 6 transcrição), e a história da conquista sertaneja nisto se fundamentou, e permaneceu 'oficializada' até 2018.
No ano de 1849 o José Theodoro de Souza e sua mulher, dona Francisca Leite da Silva, já residiam em Botucatu, declarados fregueses do lugar, ou seja, residência mínima exigida de dois anos, e aos 02 de julho daquele ano, presentes num batizado da família Nolasco (Botucatu, Livro de Batismos, 1849/1856, 02/07/1849: 26), enquanto a presença de Tito no sertão, documental, somente após 1863.
A história aponta Euzebio da Costa Luz e José Theodoro de Souza, associados, os maiores responsáveis pela estratégia e invasão sertaneja de 1850/1851, sem influências e ordens de Tito.
Tito não teve a importância arvorada sobre a conquista do Sertão; suas narrativas não correspondem à verdade histórica (SatoPrado, Razias (...), https://celsoprado-razias.blogspot.com/2009/12/razias-capitao-tito-o-iniciativo.html).

4. Os fazendeiros contidos na Serra Botucatu
Em 1808 o capitão José Gomes Pinheiro [Vellozo] chegou à região da Serra dimensionando terras e, em 1816 adquirido a antiga sesmaria do capitão João Pires de Lara [nome mudado para João Pires de Almeida Taques], e a seguir anotado demandador contra pequenos posseiros instalados na propriedade.
Político liberal em Itapetininga, Gomes Pinheiro reivindicava apoio do governo paulista para conter os perigos indígenas que ameaçavam os fazendeiros e famílias trabalhadoras na serra. O atendimento, caso ocorresse, significaria a autorização para o avanço armado, como medida preventiva, sobre tribos indígenas; e não o conceder seria expor os brancos à sanha dos selvagens.
A tensão sobrecarregou-se com a edição da Lei Imperial de 27 de outubro de 1831, revogando as disposições das antigas 'Cartas Régias' nas partes que permitiam declarar 'guerra' aos índios, ainda que preventiva, até o extermínio se necessário, e a servidão dos capturados.
Com a política indigenista então afeta ao poder central, o governo paulista não demonstrava qualquer interesse com fundações de povoados ou expansões territoriais civilizadas na região e adiante dela, menos ainda nos investimentos em infraestruturas de sobrevivência ou na colonização exploratória.
A atenção provincial mantinha-se para os lados da Mantiqueira e Vale do Paraíba onde prósperas a cafeicultura para exportação, enquanto para o interior em direção ao rio Paraná, os investimentos maiores destinavam-se às regiões de Araraquara e Ribeirão Preto, pela importância da criação de gado e as primeiras lavouras de café.
O avanço entre os rios Tietê e Paranapanema, portanto, preocupava tão somente os fazendeiros do alto da serra, e isto deveria ocorrer sem a presença ordenadora do governo paulista, que não possuía condições ou vontade em manter medidas de segurança para evitar o chamado perigo indígena; não avalizava a retirada dos índios e nem se prestaria para mediar conflitos.
Pesava que o extermínio indígena, ou sua escravização, não estava bem visto internacionalmente, e sobre o Brasil incidiam pressões e sanções econômicas nada interessantes para o comércio exportador, principalmente do café. Oficialmente, pela citada Lei Imperial de 1831, os índios estavam declarados órfãos e tutelados pelo Império, que deveria então protege-los em aldeamentos, ou de qualquer maneira evitar massacres.
Para os fazendeiros, no entanto, o sistema de aldeamento precisava ser repensado, pois o aldear naturais sem as retribuições ou obrigações de prestações de serviços compulsórios gratuitos, seria o mesmo que acometimento pacífico por forçar os proprietários e a população contribuírem com a manutenção indígena.
Os selvagens não apenas incomodavam como tocaiavam e matavam os brancos com extrema crueldade, empalando, crucificando, degolando ou esquartejando corpos de maneira a causar terror entre as famílias desbravadoras.
Adotaram também métodos de luta dos brancos, transmitindo táticas de combate, como não se defrontarem com o inimigo em campo aberto, preferindo as matas onde mais facilmente se abrigavam dos tiros e podiam imprimir fugas pelos rios e ribeirões, além da facilidade por ataques surpresas ou combates corpo a corpo, cientes que suas flechas eram quase sem efeito contra as proteções que os brancos usavam sobre o corpo, os escupis e couras, ou pelas corridas ziguezagues que praticamente lhes impediam fixar o alvo.
Outro eficiente sistema indígena era chegar, pelas matas, em grupos diversos, até onde estavam os brancos e ali atacá-los de surpresa para assim impedir-lhes os avanços até as aldeias. Apesar das tantas tentativas, os brancos não conseguiam avançar sertão, dada a feroz resistência indígena encarnada nos Caiuá, pelos lados de Itatinga e Avaré; os brancos, quando não trucidados, fugiam.
Se região despovoada no alto da serra, exceto trabalhadores de fazendas e arranchados algures, a parte territorial botucatuense voltada para o Tietê tinha algumas sesmarias ativas, associadas ou individuais, como as do citado João Marques - em consórcio, e a Sobrado, particular, de Domingos Soares de Barros, em atual município de São Manuel.
Na fazenda Sobrado trabalhava, o capataz e tropeiro Joaquim da Costa e Abreu, que viria se destacar na formação da história botucatuense.

5. O Joaquim da Costa [e] Abreu povoador de Botucatu
Mineiro, capataz e tropeiro a serviço da fazenda Sobrado, atual município de São Manuel - SP, de propriedade de Domingos Soares de Barros - morador em Piracicaba [Constituição], quando distrito de Porto-Feliz, antes, Araritaguaba. O Soares de Barros possuía terras também em Araraquara - Bairro Jacaré, onde bem transitava o Joaquim da Costa Abreu, por lá instalando famílias trazidas ou vindas do sul de Minas Gerais.
Costa e Abreu buscava tropas de muares, equinos e bovinos, do Rio Grande do Sul, por rotas alternativas para evitar pagamentos de taxas de barreiras, impostos sobre os animais e pedágios cobrados nos caminhos oficiais, além dos elevados custos de pousos e pastagens.
Na província paulista entrava por Faxina [Itapeva] ou Piraju, então Tijuco Preto – nome por semelhança fonética com o tupi 'teyquê-pê' - 'caminho de entrada', trecho desde o Paraná para a Serra Botucatu, e depois condução seguida até Araraquara e Minas Gerais, além das localidades próximas ao trajeto, negociando diretamente com compradores, em seu nome ou do patrão Soares de Barros.
Nestas andanças Costa Abreu conheceu vãos de sesmarias, terras abandonadas e devolutas, inclusive entre as fazendas Monte Alegre, do capitão Gomes Pinheiro, e a Sobrado, do Soares de Barros, que podiam ser apossadas se repelidos os povos originários assentados das matas.
Interesses mútuos, o Gomes Pinheiro e o Costa Abreu celebraram acordo verbal para posses daquelas terras, que fossem originariamente do capitão ou aquelas livres de ocupações primárias, distintas em 'campos e matos', estabelecido os matos para Costa Abreu e os campos para o Gomes Pinheiro, mais intencionado na segurança de suas propriedades, livres da incômoda presença indígena que seria certamente expulsa da região com as ocupações do mineiro.
Com o acordo selado, Costa Abreu de imediato trouxe dezenas de famílias mineiras interessadas em povoar o sertão, afugentar índios e trabalhar a terra, instalando-as nos arredores do povoado Nossa Senhora das Dores do Botucatu, para cujo patrimônio doara, informalmente, porção adicional de terras para acomodar a população chegante: "Em 1835, com o aparecimento por aqui, do sertanista Joaquim Costa, que resolveu POSSEAR o Ribeirão que ficou conhecido como 'dos Costas', hoje Ribeirão Lavapés. É que começou de fato crescer o burgo sertanejo." (Almeida Pinto, 1994: 23).
Gomes Pinheiro e Costa Abreu se desentenderam. Ou o Gomes Pinheiro teria se arrependido do combinado, ou, o Costa Abreu descumprido o tratado ao invadir e assumir para si parte dos campos, e entre eles acontecida a célebre 'Contenda da Porteira'que os zelosos de Costa Abreu defenderam a bala impingindo derrota ao bando do Capitão.
Insatisfeito o Gomes Pinheiro entrou em juízo para reaver pressupostos direitos, mas Joaquim da Costa Abreu morreu antes da decisão, no ano de 1840, e em seu lugar assumiu o filho Euzebio da Costa Luz, político conservador.
— Todo o histórico, até onde possível, sobre o tropeiro povoador de Botucatu, Joaquim da Costa e Abreu: https://celsoprado-razias.blogspot.com/2009/12/joaquim-da-costa-e-abreu-o-tropeiro.html
O sucesso de Costa Abreu garantiu segurança no alto da serra como lugar resguardado e fortificado atraindo interessados, fazendeiros e trabalhadores, para elevar a população para mais de duzentas pessoas, e instituir o irmão Euzebio da Costa Luz seu representante local e sucessor mandante. 

6. Das terras além da Serra: êxitos e fracassos
Com a firmeza estabelecida por Costa Abreu nos anos de 1830, alguns fazendeiros ousaram posses para adiante da serra.
O agricultor Pedro Ribeiro Nardes, contado entre os moradores de Tatuí, "Quarteirão nº 14 do Bairro de Tatitu, Districto de Paz do Municipio de Itapetininga, no ano de 1835." (Apud Franceschi, 2009), se estabeleceu em 1834, com sua família, agregados e escravos, às margens do Ribeirão Grande, nas cercanias de Aimorés, atual região de Bauru (Bauru, edição histórica, 1977: 7).
Numa desvantajosa refrega com os índios, Nardes retirou-se do lugar e depois se mudou para Castro (PR), com a família, e daí ao Rio Grande do Sul onde fez crescer a descendência e parentela. Anos mais tarde, Manoel Rodrigues de Almeida, promoveu o Registro Paroquial de Terras do lugar 'Campos Novos' [Bauru], título de posse adquirido de Pedro Nardes Ribeiro em 1834 (AESP: RPT/BTCT nº 344: 119-v, levantamentos de SatoPrado).
O capitão José Gomes Pinheiro Machado também avançou conquistas adiante da serra, e em seu nome registradas terras confinantes ao Nardes, na região de Bauru; no entanto, sentindo as agruras do Nardes, optou por permanecer na serra.
As terras do capitão no "Sertão do Bairro de Bauru" constam no Livro de Registros Paroquiais de Terras, nº 123 (AESP: RPT/BTCT Nº 01 - Aviso-Circular, Imperial, de nº 22/10/1858).
Os associados sorocabanos, Procópio José de Mattos e Domingos Palmeira, em 1835 avançaram além dos limites da Boa Vista, a antiga fazenda jesuítica, e apossaram terras para formar a fazenda Palmeira, lugar não tão distante da civilização, sem registros significativos de ataques indígenas.
Ignácio Dias Baptista, o 'Capitão Apiaí', em 1834/1835 senhoreou-se de terras de campos e matas entre os rios Claro e Turvinho, e desde as nascentes e vertentes dos Ribeirões São Domingos e Forquilha, até os respectivos despejos no Turvo, abandonando o projeto. A história não registrou o motivo do recuo do Apiaí para a sua fazenda Rio Claro, no alto da serra, onde assaltado por índios bravios e morto por crucificação em 1838. Anos depois os herdeiros e a viúva meeira registraram partes das posses herdadas e alienaram outras (AESP: RPT/BTCT).
As crescentes ações indígenas no alto da serra apavoravam os brancos. Os agressores, após os ataques noturnos ou às claras contra grupos isolados, retornavam rápidos para as encostas onde bem conheciam e se faziam praticamente imbatíveis, colocando em risco as conquistas civilizadas.
Aos fazendeiros restavam as alternativas: ou abandonavam a região ou contratavam bugreiros para uma limpeza étnica regional e, de vez, restabelecer a segurança às famílias e trabalhadores.

7. Euzebio da Costa Luz: o início da ocupação sertaneja além da Serra
Costa Luz, mandador em Botucatu no lugar do pai, Joaquim da Costa Abreu morto em 1840, era nome fortemente vinculado a José Theodoro de Souza, historicamente comprovado em, pelo menos, três oportunidades. em três oportunidades.
No mês de maio de 1842, na localidade de Sorocaba-SP, quando da deflagração da Revolução Liberal e os revoltosos, senhores da situação num primeiro momento, prenderam o conservador chefe político botucatuense, Euzébio da Costa Luz, aconteceu pronta reação de Theodoro para o tornar livre (
Aloisio de Almeida, publicação O Estado de São Paulo, 11/11/1951), gesto inimaginável como ação solidária ou solitária que não retribuída com algum vínculo.
O historiador Hernani Donato não deixa dúvidas tratar-se de José Theodoro de Souza, o desbravador do Sertão Botucatu, assim ajustado em dois textos de sua obra (Donato. op.cit, pgs 72 e 110 – Notas 1).
Noutro vínculo solidário, Costa Luz deixou o mando botucatuense para se aventurar na conquista sertaneja, ocupando ponto estratégico de apossador de terras ao longo do Paranapanema, entre os atuais municípios Timburi e Salto Grande, lugar perigoso e sensível às invasões indígenas; também foi o Coata Luz acompanhante de José Theodoro de Souza à província mineira, em 1852, inclusive servindo de testemunha na doação de terras feita pelo pioneiro e sua mulher para os patrimônios de São João Batista e São Pedro, aonde hoje São Pedro do Turvo, de acordo com escritura lavrada em atual São João da Boa Vista.
Talvez a ligação entre José Theodoro de Souza e a família Costa e Abreu / Costa Luz, venha desde os tempos de Joaquim da Costa e Abreu, com Theodoro trabalhando como homem de confiança e espia de tropeiradas e boiadas, à frente dos mateiros e atiradores, para a garantia dos condutores e das cargas, com decisões rápidas ante os perigos. Não encontrado documentos que possam atestar algum contrato entre as partes.
Costa Luz era muito mais interessado na conquista sertaneja além da Serra, que o mando e representação política botucatuense, desde 1847 em curso a invasão branca sobre territórios indígenas movimentos perceptíveis nas diversas famílias mineiras, de onde sairiam os bugreiros, se estabelecendo em vilas ou freguesias paulistas, ditas civilizadas, Araraquara, Botucatu, Brotas, Dois Córregos e Jaú; documentos eclesiais comprovam tais cheganças (SGU, FamilySearch).
Ao ensejar a conquista do último rincão inculto da província paulista, Costa Luz e José Theodoro, ou às suas ordens, teriam feito esquadrinhar o sertão, mais ou menos das dimensões da Holanda, para saber onde localizadas as aldeias indígenas, os números de seus guerreiros, os acidentes geográficos, os caminhos e os usos e costumes dos povos a sofrerem as ofensivas, apresentando assim a possibilidade de ataques relâmpagos, quase simultâneos, em toda a área a ser ocupada, conforme viria acontecer.
Considere-se nisto o uso de índios mansos para levantamentos, aliados ao costume do selvagem não atacar passantes, situações de valia para os observadores.

8. A conquista sertaneja - A 'Guerra ao Indígena'
José Theodoro de Souza iniciou a incursão sertaneja antecipando-se à Lei [Imperial] de Terras, nº 601, de 18 de setembro de 1850, num momento que o governo 'cedia' aos conclamos dos fazendeiros, com ato permissivo de repressão aos índios vagantes e hordas selvagens.
Numa brecha legal ou regra de interpretação, o Decreto Imperial nº 426, de 24 de julho de 1845 - 'Regulamento das Missões', reconhecia o direito de posse ou usufruição de terras aos índios aldeados, dentro dos limites da Missão, mas não aos índios selvagens e aqueles recalcitrantes ao aldeamento, e, então, o avanço do branco podia ser justificado, pois tais hordas impediam o progresso e colocavam em risco as famílias trabalhadoras.
Ademais, não havia aldeamento indígena na região de Botucatu, e o de São Sebastião do Tijuco Preto - Piraju, o primeiro, implantado apenas em 1854.
O bandeirante apresentou-se à frente de verdadeiro exército, cerca de mil homens, conforme inferido em documento de junho de 1851 (AESP/BTCT, 22/02/1851: 1, Caixa 40, Pasta 1), com o duplo propósito em fazer a extirpação étnica indígena e a imediata ocupação das terras pelos brancos.
Theodoro dividira sua tropa em frentes ou colunas fortemente armadas, com líderes postos e instruídos para as razias através das dadas. Os comandos receberiam suas pagas em porções de terras e as fracionariam para os comandados, além das partes que seriam postas a vendas e os lotes destinados aos povoados.
O avanço bugreiro de 1850/1851 teve início a partir de Avaré, com extermínios das tribos Caiuá e Botocudo, numa guerra sangrenta e desigual, episódio do qual Tito se apropriaria minimizando carnificina quase quatro décadas depois::
"De volta de sua excursão nas terras dos índios Caiuá e Botocudos, José Teodoro de Souza, que chefiava o bando de 'posseiros' consultou-me se devia conservar o nome dado pelos selvagens aos rios e morros encontrados, bem como aos campos, ao que retorqui ser melhor dar-lhes nomes novos, de acordo com a nossa linguagem. E então ficou combinado o registro das posses efetuadas." (Opúsculo - Avaré, História e Geografia, transcrição, 1939: 6).
Dos acometimentos contra os índios, documentos oficiais contam os horrores praticados:
"(...) pellos bugreiros, e de maneira que foi totalmente destruido, sendo os homens á balla, e as mulheres e crianças a faca, com o único fim de apropriarem os optimos terrenos, que desgraçados occupavão, os quaes com a mania de novas posses os seos conquistadores venderão por pouco mais de nada, para levarem mais longe a devastação." (DAESP/BT, Caixa 39, Doc. 41-B, Pasta 2: 0225-0226).
Não há de se falar em conquista territorial sem a presunção da resistência indígena. "Houve lutas ferozes dos índios contra os exploradores e colonizadores, (...) e com violentos massacres e represálias recíprocas" (Dantas, 1960: 40). Mas, as armas e as proteções de guerras eram desiguais.
O objetivo dos conquistadores "era tornarem-se realmente senhores da área que o registro lhes attribuiu, consentissem ou não os donos primitivos (...) encarniçada a lucta e só teve fim depois que os selvagens foram completamente exterminados." (Nogueira Cobra, 1923: 48).
Fragmentos históricos mostram o lado cruel dessa atividade exercida pelo pioneirismo, avocado ao processo da dizimação indígena para ocupação territorial e de produção, conforme exigências do capital e interesses do estado.
A empreitada ocorreu num curto espaço de tempo, a contar de 1850, quando tribos inteiras exterminadas e os índios sobreviventes arredados, e entre maio e junho de 1851 já se discutia a elevação da primeira 'Capela' sertaneja, aonde a atual Lençóis Paulista (DAESP/BT, Caixa 40, Pasta 1, 22/07/1851: 1), porém a escolha política e eclesiástica recairia sobre São João de São Domingos, localidade melhor centralizada.             
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1849 - JOSÉ THEODORO DE SOUZA - O ÚLTIMO BANDEIRANTE

José Theodoro de Souza - biografia*
1. A família 
J
osé Theodoro de Souza, filho de João de Souza Barboza e de Maria Theodora do Espírito Santo, nasceu em Juruoca [Aiuruoca] - MG, batizado na Capela do Senhor do Porto do Turvo, aos 27 de maio de 1804, sendo padrinhos Manoel Joaquim da Silva e Margarida de Souza (Aiuruoca, Livro de Batizados 1797-1808). Com a idade de dezenove anos casou-se com Francisca Leite da Silva, aos 07 de fevereiro de 1823, em Camanducaia, MG (Eclesial, Livro 1806-1823), ela nascida em Campanha, MG, batizada a 1º de dezembro de 1801, filha de João Tavares da Cunha e Anna Maria do Nascimento (Campanha, Batizados, Livro 1812-1846).
O casal teve filhos e filhas relacionados no inventário do pioneiro (1875) e assentos eclesiais:
-Francisco Sabino de Souza: nascido em 07 e batizado aos 21 de agosto de 1825 (Eclesial, Capela do Alambari, Camanducaia - MG, Livro 1823/1831), casado com Maria Francisca do Carmo.
-Flausina Maria de Souza: nascida aos 02 e batizada em 20 de julho de 1828, em Cambuí - MG (Eclesial, Batismos, Camanducaia - MG. Livro 1823/1831), casada com Josué [ou José] Antonio Diniz.
-Maria: nascida aos 26 de dezembro de 1829 e batizada aos 03 de janeiro de 1830, em Capivari, MG (Eclesial, Batismos, Camanducaia - MG, Livro 1823/1831), a tratar-se de Maria Theodora de Souza, também conhecida por Maria - Theodora do Espírito Santo, casada com Francisco de Paula Moraes.
-José Theodoro de Souza Junior: nascido aos 22 e batizado aos 30 de abril de 1836 (Eclesial, Batismos Consolação, MG, Livro 1836/1855), casado com sua prima Marianna de Souza Pontes, conhecido no Sertão como Theodorinho.
O casal Theodoro e Francisca, ainda residentes na província mineira, tiveram as filhas Leopoldina, nascida aos 09 e batizada aos 20 de novembro de 1831 (Batismos, Capivari - Camanducaia-MG, 1823/1831); Balbina, nascida aos 25 de março e batizada em 08 de abril de 1833 (Batismos, Consolação-MG, Livro 1833/1866); e Anna, nascida aos 21 de maio e batizada aos 29 de maio de 1835 (Eclesial, Batismos, Consolação-MG, Livro 1833/1866). Nenhuma delas teve história registrada no sertão e nem descendentes citados no inventário do pioneiro.
São conhecidos também, os irmãos e irmãs de José Theodoro de Souza, todos com história no Sertão, assim como alguns dos aparentados seus e familiares de Francisca Leite da Silva e de Anna Luiza de Jesus, as duas mulheres do pioneiro. (SatoPrado, Razias (...) https://celsoprado-razias.blogspot.com/2009/12/razias-tributo-ao-pioneiro-mor_20.html).
Nenhum outro documento conhecido sobre José Theodoro de Souza, como morador em Minas Gerais, após o nascimento do filho Theodorinho em 1836.

2. Morador na província paulista desde 1837
José Theodoro e sua mulher Francisca Leite da Silva foram mencionados residentes em São João da Boa Vista-SP, aos 06 de outubro de 1837, no batizado de Rita, filha de Domiciano José dos Reis (Records Preservation, Livros Eclesiais, Cópias Digitalizadas em Arquivos dos Autores - CD: A/A). 
Aos 07 de dezembro de 1842, ainda em São João da Boa Vista, nasceu a filha Agostinha Maria [Teodora] de Souza, batizada aos 07 de dezembro de 1842 (Records Preservation, Livros Eclesiais, Cópias Digitalizadas em Arquivos dos Autores - CD: A/A), que viria se casar e fazer vida no Sertão do Botucatu com José Ignácio Pinto (Inventário de José Theodoro de Souza, 1875: 7). 
Francisca, a primeira mulher de Theodoro, faleceu aos 16 de dezembro de 1868, no sertão, e ele, enviuvado, casou-se em 1871 com Anna Luiza de Jesus (DOSP, 20/10/1939: 34), nascida aos 20 de janeiro de 1857 (Eclesial, Batismos/Botucatu, Livro 1856/1859), filha de Manoel José de Jesus e Maria Luiza da Conceição
De José Theodoro de Souza e Anna Luiza de Jesus nasceu José Luiz de Souza, aos 23 de junho de 1875, https://celsoprado-razias.blogspot.com/2009/12/razias-tributo-ao-pioneiro-mor_20.htmlpouco antes da morte do pioneiro.

3. 'Cabeça de Bandeira'
José Theodoro de Souza não entrou no Sertão por ordem do capitão Tito Corrêa de Mello, como antes narravam as tradições tomadas como acontecimentos, por autores, historiadores e memorialistas, e sim numa combinação com Euzebio da Costa Luz, fazendeiros e capitalistas financiadores da empreitada, ou, os fornecedores de homens para engajamentos diretos na luta armada, portanto, missão considerada bandeira e não entrada. 
Não descartada a importância de Theodoro, fortemente vinculado ao Euzebio, nos planos da invasão sertaneja, nem as valias dos empreendedores interessados, para compras de armas, munições, alimentações e coberturas outras, inclusive das necessidades familiares.
'Não se faz guerra sem homens, e estes custam dinheiro como formas de retribuições, para si e família'.
Theodoro teve custeadores na empreitada com a garantia, se exitosa a campanha, receberem terras, por si, seus herdeiros ou sucessores, muitos fazendo ocupar suas posses tão logo livres as terras da presença indígena, destacados o Raymundo de Godoy Moreira e o genro major José Inocencio da Rocha, pelos lados de atual Borebi; Francisco Antonio Ramos e Eliseo Antunes de Oliveira Cardia - descendente do sesmeiro Antonio Antunes Cardia, em Lençóis Paulista; Faustino Ribeiro da Silva, vindo de Minas Gerais para ocupar terrenos na região de Agudos; Sebastião Pereira, Pedro Francisco Pinto, também chamado Pedro Francisco Franco e os irmãos, Antonio e Francisco Rodrigues de Campos, associados a José Theodoro de Souza em Bauru e adjacências; Francisco de Assis Nogueira e José Machado de Lima, sócio de Theodoro, nos termos de Platina e Assis; e o José da Costa Allemão Coimbra em Santa Cruz do Rio Pardo e Ibirarema; entre outros investidores.
Os envolvidos por, conta própria, nas operações contra os indígenas seriam recompensados com frações de terras, uma aguada menor, e, em caso de morte do partícipe nos confrontos, sua cota seria entregue à viúva e ou herdeiros, 'com ou sem os artifícios de posses articuladas', situações observadas em alguns registros paroquiais de terras requeridos diretamente pelas viúvas.

Alguns nomes constam como posseiros primitivos, divisantes ou negociantes de títulos de posses, em lugares diferentes e distantes, que são aqueles envolvidos no 'sistema de posse articulada' para intermediações nas transações de propriedades, ou seja, prover histórico de anterioridade de domínios para adequações às exigências da Lei  nº 601/1850 e sua regulamentação, pelo Decreto nº 1318/1854, que a manda executar, sem juízo de mérito, pelos autores, quanto às datas retroativas dos títulos e posses informadas.

Os acordos, a despeito de não escritos, eram cumpridos à risca, e os antigos acreditavam na palavra empenhada por José Theodoro de Souza, louvavam-no, e ele, às vezes se sacrificava para atender assuntos não bem firmados ou 'terras desviadas', a exemplo do sobrinho e procurador João da Silva e Oliveira, dilapidador de muitos dos bens de Theodoro.
Os 'chefes de colunas' tinham suas pagas regionais, como mandatários maiores, e a eles o cumprimento na distribuição as partes combinadas de terras aos financiadores e às partes aos envolvidos nas desocupações dos povos originários, guardando as partes para si, colocadas às vendas.
Para si, José Theodoro teve respeitado o quinhão limitado pelo rio Paranapanema e divisor  Paranapanema/Peixe, iniciado no alto Turvo, na barra do Correguinho da Porteira, pela margem margem esquerda ao espigão e, por este adiante, a procurar e despassar o Pardo, rumo ao Paranapanema, pelo qual abaixo até o tributário paranaense Tibagi, dimensão estendida até o afluente paulista 'Ribeirão da Figueira' (Nogueira Cobra, 1923: 30), para melhor confinar a posse, em alguns documentos até a margem esquerda do 'Ribeirão das Anhumas' (Giovannetti, 1943: 27-28), ou, o 'Ribeirão Água Boa', situado entre os dois ribeirões, Figueira e Anhumas, todos no Paranapanema, perfazendo um latifúndio apossado com o compromisso em amanhar o sertão, abrir estradas, fundar povoados, alienar terras e trazer gentes.
A grande posse de José Theodoro de Souza, como um todo, abrangeu outros registros de terras promovidos por diferentes posseiros, a exemplos, partes dos territórios de Forquilha e São Domingos [São João de São Domingos], no Turvo;  Óleo, no Pardo; Timburi, Ipaussu [Ilha Grande] até Salto Grande, no Paranapanema; algo combinado entre as partes, sem contestações, num tempo em que já se negociavam títulos de propriedades - compras, vendas e permutas, entre os anos 1850/1851 e 1856, não incomuns com datas retroativas. Outros apossamentos do próprio Theodoro também estavam inseridos na grande posse.

4. O 'senhor das terras' - as posses de Theodoro
Ainda, em 2006, as tradições lembravam, exageradamente, de José Theodoro de Souza, apossara-se de vasto território, entre os rios Tietê e Paranapanema, desde a descida da Serra Botucatu às barrancas do Rio Paraná, quando ainda desconhecidos os Vales do Feio-Aguapeí e do Peixe.
O bandeirante apresentara-se à frente de verdadeiro exército, cerca de mil homens, conforme inferido pelos autores num documento de junho de 1851 (DAESP/BT, 22/02/1851: 1, Caixa 40, Pasta 1), com o duplo propósito em fazer a extirpação indígena e a imediata ocupação das terras. 
O cabecilha dividira sua tropa em frentes ou colunas fortemente armadas, independentes, com líderes postos e instruídos para as ações predatórias; os comandos receberiam pagas em porções de terras e as fracionariam para os comandados, além das partes que seriam postas a vendas e os lotes destinados aos povoados. 
Inimaginável Theodoro, fisicamente e quase ao mesmo tempo, presente em encarniçadas lutas contra indígenas nas distantes regiões, exemplos: Lençóis Paulista, Agudos, Bauru, Avaré, Santa Bárbara do Rio Pardo - Águas de Santa Bárbara, São Pedro do Turvo, Santa Cruz do Rio Pardo, Campos Novos e Salto Grande.  
Pelas datas aproximadas das guerras aos indígenas e ocupações dos territórios, impossível Theodoro ter diretamente participado, por exemplo, nas exterminações dos Botocudo e Caiuá em Rio Novo, atual Avaré, ou, em Lençóis Paulista e outras regiões que tiveram comandos próprios. Ele estaria envolvido nas ocupações das terras, registradas em seu nome, desalojando originais.
Theodoro estabeleceu-se no Sertão em meado de 1851, imediatamente após a 'Guerra ao Indígena' entre 1850 a 1851, assentando seus principais colaboradores no Turvo, Pardo e Paranapanema, estrategicamente, como chefes bugreiros para garantias e cuidados iniciais do sertão, além de repassar partes combinadas aos envolvidos na conquista sertaneja, conforme graus de participações, para então dimensionar as terras, conferir divisas e reconhecer os rios, tributários paulistas do Paranapanema, formar povoados, abrir estradas e vender terras. 
Ardilosamente promovera, em seu nome, quatro registros paroquiais de terras sob os números 516, 518, 519 e 520, sendo o primeiro conhecido como 'a grande posse'. Com a propositada divisão o declarante indicava outros posseiros na região, como artifício para adequações à Lei das Terras, demonstrando o sertão já habitado, e cada confrontante, no seu respectivo assento, declararia as mesmas e outras vizinhanças como provas de moradia habitual. Não sem razões os divisantes iniciais eram todos parentes, bugreiros e aqueles vinculados pelo compadrio. 
Foram os seguintes registros em nome de José Theodoro de Souza:
-Registro Paroquial de Terras nº 516: "Principiando esta divisa no barranco do Rio Turvo, barra do Correguinho da Porteira, divisando com os herdeiros e meeira de José Alves de Lima, e cercando as vertentes com quem direito for até encontrar terras de José da Cunha de tal até atravessar o rio Pardo, por outro lado até o espigão fóra com quem direito for até cahir no mesmo barranco do Paranapanema, por este abaixo até frontear a barra do rio Tibagy, e daqui cercando as vertentes desta agua que se acha dentro deste círculo até encontrar-se com terras de Francisco de Souza Ramos, daqui descendo até o barranco do São João, por elle abaixo até sua barra no Turvo, por este acima até encontrar com a barra do Correguinho da Porteira donde foi o princípio e finda esta divisa." (RPT/BT nº 516: 168-v).
-Registro Paroquial de Terras nº 518: "Principiando no lado de cima divisando com Messias José de Andrade, e pelo alto, com quem direito for até encontrar com terras de Manoel Alves dos Reis, e pelo espigão abaixo com o mesmo Alves até o rio, e pelo veio do rio acima até encontrar o princípio desta divisa." (RPT/BT 518: 170-v).
-Registro Paroquial de Terras nº 519: "Principiando na barranca do rio São João e seguindo por um espigão divisando com Matheus Leite de Moraes e rodeando as vertentes de um braço do São João até encontrar com terras de Francisco de Souza Ramos, até o veio do rio São João e por este acima até onde principia e finda esta divisa." (RPT/BT 519: 170-v).
-Registro Paroquial de Terras nº 520: "Principiando esta divisa no barranco do rio São João defronte de um pau de cabiúna aonde faz ponto de divisa com Francisco de Souza Ramos até encontrar com terras de João Vicente de Souza daqui seguindo por um espigão dividindo com o mesmo Souza até encontrar com terras de Manoel Joaquim da Cunha até a barranca do rio São João e por este acima até encontrar com terras de Anastácio José Feliciano, divisando com José Antonio Diniz até encontrar com terras de Francisco de Souza Ramos onde fez princípio e finda esta divisa." (RPT/BT 520: 171-a).
O Registro de nº 517 foi emitido a favor do posseiro José Joaquim de Faria, no Ribeirão de São João – afluente do Turvo.
Relatos infundados ditam que naquele mesmo 31 de maio de 1856:
"José Theodoro de Souza obtém semelhante registro paroquial [de terras] junto ao vigário Modesto Marques Teixeira, de Botucatu (então, uma vila), para a vastíssima área entre a cidade de Bauru e as margens do rio Paraná. O registro denomina a área Fazenda Rio do Peixe, ou Fazenda Boa Esperança do Aguapeí" (Silva, 2008: 34). O autor não cita referências e nem da provas quanto ao alegado.             
Os historiadores, quase todos, nada sabem ou pouco mencionam José Theodoro de Souza nesta transação, ou que ele fosse titular de terras em regiões de Bauru, todavia documentos oficiais confirmam Theodoro na região do Rio Batalha, Bauru, dando combate aos indígenas: 
"...esta imensa área na sua quase totalidade tem sido apropriada e vendida por José Theodoro de Souza e pelos irmãos Francisco e Antonio de Campos" (Carta de 03/09/1861, do Juiz Municipal de Botucatu, Filippe Correa Pacheco, à Presidência da Província se São Paulo, DAESP/BTCT, Doc. 41-B, Pasta 2: 0225-0226).
Da posse Boa Esperança do Aguapeí antigos documentos apontam, conforme "SatoPrado, Razias (...) - https://celsoprado-razias.blogspot.com/2009/12/razias-tributo-ao-pioneiro-mor_20.html, 'A posse especulada no Feio/Aguapeí'."
As posses de Theodoro eram todas livres de ocupações primárias e nelas não havia sinais de entradas e assentamentos de exploração, a não restar dúvida ser ele o primeiro branco a entrar nelas e apropriar-se, sendo o fundador das atuais localidades de São Pedro do Turvo, Campos Novos Paulista - Estância Climática, e, posteriormente, Conceição de Monte Alegre no atual município de Paraguaçu Paulista. 
Theodoro não teve passagens comprovadas, dando combate aos indígenas em 1850-1851, nas atuais localidades de Águas de Santa Bárbara - Estância Hidromineral, Agudos, Avaré, Cerqueira Cesar, Lençóis Paulista, Salto Grande e Santa Cruz do Rio Pardo. Sabe-se, no entanto, de sua presença, tardia, em Bauru no ano de 1861 combatendo indígenas nas terras apossadas por seus sócios, os irmãos Francisco e Antonio de Campos; também presente em Lençóis Paulista, uma só vez, para obtenção de um documento camarário de 'bons antecedentes'.
Desconhecendo a geografia regional e as antigas denominações, por cento e cinquenta anos os estudiosos entendiam que a grande posse de José Theodoro de Souza, iniciava-se na barra do 'Córrego da Divisa', nome antigo, no Alambari, tributário do Turvo, onde, do outro lado a contraverter com o 'Ribeirão da Porteira' (RPT/BTCT nº 132: 55, 02/02/1856), e, assim a seguir pelo divisor Peixe/Paranapanema, até a Água Boa, desta ao Paranapanema por este a subir até despejo do Pardo, e, por ele acima ao Turvo e deste ao início das divisas, a totalizar algo em torno de 60 quilômetros de testada por 150 de fundos, ou seja, quase nove mil quilômetros quadrados de terras, muito acima dos limites legais de posses permitidos ou tolerados pelo Império. 
Para os pesquisadores e historiadores anteriores, Theodoro não assumira terras no Pardo santa-cruzense, exceto aquela parte abaixo das águas do Turvo até o Paranapanema, destarte a contraditar o Registro Paroquial de Terras nº 516, que marcava o início da 'grande posse' no desague do 'Correguinho da Porteira', no Turvo.
Localização definitiva do início da grande posse, conforme levantamentos consolidados em 2019 por SatoPrado, o Correguinho da Porteira, como Córrego da Porteira, no ano de 1946 trazia o nome Santo Antonio - Saltinho (AESP: Folha [Mapa] para Santa Bárbara do Rio Pardo), e, em documento posterior, como Córrego do Salto (IBGE, 1973: Turvinho, Mapa SF-22-Z-B-IV-2). Corrobora o Registro Paroquial de Terras nº 302, em nome de Francisca Maria de Jesus, divisante no Correguinho da Porteira com José Theodoro de Souza, ao apresentar outros divisantes e denominações de acidentes geográficos que permitiram a localização do tal córrego no Turvo (AESP: RPT/BTCT, nº 302: 107-v e 108-a, 17/02/1856). 
Documentos outros de transações e regularizações de terras comprovam que propriedades transacionadas, aquém do Turvo e de partes do Pardo santa-cruzense, às duas margens, situavam-se dentro da grande posse de José Theodoro de Souza, a exemplos entre outros, as fazendas 'Jacu, Furnas, Paredão e Chumbeada', em atuais municípios de Ipaussu, Chavantes e Ourinhos (DOSP, 03/08/1909: 23-24); a 'Fazenda Santa Tereza', desde a barra do Pardo e partes do rio acima, em Salto Grande (DOSP, 17/06/1908: 1.869); terras à margem esquerda do Pardo, quinhão onde a 'Fazenda Água do Pires', em Santa Cruz do Rio Pardo (DOSP, 18/06/1909: 4.310-4.311); e porções às margens direita e esquerda do mesmo Pardo identificadas na 'Fazenda São José do Rio Pardo' (DOSP, 16/02/1908: 451).
Antigas transmissões apontam que as fazendas no 'Guacho, Capivari e Rico', foram 'terras adquiridas' de José Theodoro de Souza, por Antonio de Oliveira Marinho, entre os ribeirões Guacho e Capivari, divisando com as terras de José Belisario de Oliveira, apossador entre os ribeirões do Capivari, Rico e uma parte no Capivara, estas repassadas a José Lourenço de Lima, em 28 de maio de 1855 (Pupo e Ciaccia, 2005: 201 - F 29 e mapa). A montante no rio Pardo, Francisco de Paula Souza e Luiz Antonio da Cunha, são identificados em transações de terras "Na paragem denominada Capivara, terras compradas de José Theodoro de Souza (...)." (Pupo e Ciaccia, 2005: 207 - F 35).

5. A morte do pioneiro
O inventário de José Theodoro de Souza revela-o falecido na localidade de São José do Rio Novo [Campos Novos Paulista], aos 24 de julho de 1875, e não em São Pedro do Turvo, no mês de abril daquele ano, conforme se pensava. 
A data da morte foi informada em expediente de 23 de setembro de 1875: "Dona Anna Luiza de Jesús, passou a mesma a fazer perante o Juiz suas primeiras declarações pela maneira e fórma seguinte: que seu finado marido José Theodoro de Souza, no dia vinte quatro deste, fazem dois meses que faleceu (...)." (I/JTS, 1875: 5-7), ou seja, aos 24 de julho de 1875, um mês após o nascimento do filho José Luis que, então, não lhe seria póstumo.
Também, Theodoro não foi morto por nenhum indígena, e sim por doença "em estado paralytico", de acordo com o testemunho do Padre Francisco José Serôdio, prestado aos 10 de setembro de 1877 (I/JTS: 111). 
Aos 22 de junho de 1875 Theodoro, doente e paralítico, teria feito testamento, em São José dos Campos Novos, perante Juventino de Oliveira Padilha, Escrivão do Juízo de Paz e Tabelião de Notas da Freguesia de Santa Bárbara do Rio Pardo, sem testemunhos, exceto Antonio Alves Nantes que assinou a rogo do testador. 
O testamento sugere falcatruas pelas exclusões de algumas fazendas que Theodoro sabia ainda existir. Para a Procuradoria de Terras do Governo, José Theodoro de Souza morreu pobre, endividado e sem a menor referência a qualquer porção de terras, limitando-se pedir aos filhos do primeiro matrimônio para reporem a quantia que lhe faltava para inteirar o pagamento da sua terça, deixada à segunda mulher, Anna Luiza de Jesus, que os filhos então renunciaram os direitos em favor da viúva inventariante e do filho José Luiz, de três meses, aquinhoado com o que restara, ou seja, "uma morada de casa assoalhada e coberta de telha na capella de S. José dos Campos Novos, no valor de seiscentos mil reis." (DOSP, 16/03/1938: 36).
A inventariante não arrolou fazenda alguma, que informara existir, mas não sabia onde, assim como desconhecia a localização das matrículas de escravos. Anna até reconhecera, num primeiro momento, parte das dívidas contraídas pelo marido, e de outras nunca ouvira dizer, para mais adiante contestá-las, quase todas, e requerer embargos, entendendo ela que o seu procurador, João da Silva e Oliveira, apresentara débitos inexistentes e informações fraudadas.
Comprovaram-se as forjicações por parte de Oliveira e Silva, conluiado com outros interessados nas dissipações dos bens do falecido, e Theodoro de Camargo Prado, Juiz Comissário residente em Santa Cruz do Rio Pardo, requereu em nome da viúva Anna Luiza de Jesus, nova análise do processo, e o Juiz de Direito da Comarca de Lençóis Paulista, Dr. Joaquim Antonio do Amaral Gurgel, deferiu pedido de embargo e determinou novas providências, para declarar irregularidades e má fé praticadas pelo procurador.

5.1. João da Silva e Oliveira - 'grileiro', sobrinho e procurador 
O pioneiro-mor não sabia ler e nem escrever, portanto, para as transações de terras, recorrera ao sobrinho alfabetizado, João da Silva e Oliveira, nomeando-o durante tempos seu bastante procurador, com amplos poderes para alienar propriedades.
João nasceu aos 02, batizado a 12 de agosto de 1827, em Camanducaia-MG, filho de José da Silva e Oliveira e Maria Silveria (Livro 1823-1831: 90), uma das irmãs de José Theodoro de Souza (Projeto Compartilhar, coordenação Bartira Sette e outra 
http://www.projetocompartilhar.org/Familia/p02BernardaMariadeAlmeida.htm - 3.7.3, CD: A/A); foi casado com Rosa Maria de Jesus, falecida em data anterior a 18 de setembro de 1880 (DOSP, 20/10/1939: 30-35 - item 7), deixando os seguintes filhos conhecidos no sertão: 'José da Silva - casado; Maria - casada com Antonio Rodrigues, vulgo Antonio Ourives; Rita - casada com José Manoel da Luz; Manoel da Silva, casado; e Anna - casada com João Manoel Claro' - (DOSP, op.cit: 31 - item 12).
O Ourives, a título de informação, era irmão de Francisco de Paula Moraes, o Chico Paula, genro de José Theodoro de Souza.
Com a idade de 57 anos, João, "já viúvo, veio a falecer no ano de 1884, em São Pedro do Turvo [ainda não localizado o documento], distrito de Santa Cruz do Rio Pardo, então no termo da antiga comarca de Lençóis" (DOSP, op.cit: 31 - item 11), sendo procedido inventário "para o qual foi, pelo juiz, nomeado inventariante o cidadão Bernardino Silva Oliveira, irmão do inventariado (...)." (DOSP, op.cit: 31 - item 12).
João, entre 1868/1875, 'traiu' Theodoro ao declarar suas as terras pretendidas pelo pioneiro-mor, adiante de suas próprias posses no Ribeirão Água Boa, ou do Ribeirão das Anhumas, sem uma definição coerente do início: 
"[Terras que] começavam duas leguas abaixo da barra do fronteiriço Rio Tibagi, dividindo com eles vendedores, desciam o Paranapanema até o espigão por baixo do Ribeirão Cuiabá, de onde seguiam pelo espigão, acima até as últimas vertentes, daí continuando pelo espigão adiante, cercando todas as vertentes até frontear as duas leguas abaixo da barra do Tibagi e daí desciam em rumo direito até o ponto inicial." (DOSP, 20/10/1939: 31). 
Para consolidar o 'golpe' João da Silva apresentou escritura de 04 de outubro de 1868, que as terras eram suas, adquiridas do próprio José Theodora de Souza e sua mulher Francisca da Silva Leite, documento falso, assentado e melhorado em cima de expediente particular datado de 11 de janeiro de 1853, citados os mesmos vendedores e comprador, só depois transcrito em notas públicas (DOSP, edição de 20/10/1939: 31-32). 
Citado Diário Oficial do Estado de São Paulo, de 20/10/1939: 30-35, sem discussões de méritos pelos autores SatoPrado, trata-se de Edital de citação de interessados na ação demarcatória com queixa de esbulho, etc, citados e juntados os documentos inerentes.
Também João induziu seu genro Ourives e o irmão deste, Chico Paula - genro de Theodoro, para a ocupação de todo o Vale do Peixe, extensão intentada por Theodoro após 'a traição' que lhe fora desferida por João da Silva e Oliveira (SatoPrado, 'Razias, Falsas escrituras e os grandes grilos').
As pretensões de Theodoro e os feitos de João, Ourives e Francisco de Paula Moraes, o Chico Paula, eram atos ilegais, quando não mais vigoravam posses firmadas na 'Lei das Terras, nº 601/1850, e seus regulamentos - Decreto 1.318/1854'.
João da Silva, perdida a confiança, deixou de ser procurador de Theodoro, porém sem a destituição oficial, o que favoreceu, após a morte do pioneiro-mor, casos de falsas escrituras de compras, vendas e permutas de terras, favorecendo 'grilos' e atos de extremadas violências, assunto melhor observado em SatoPrado (Razias, idem, 'Falsas escrituras e os grandes grilos'). 
A despeito do rompimento entre José Theodoro de Souza e João da Silva e Oliveira, ambos, aparentemente, teriam se reconciliado, tanto que pioneiro-mor passou seus últimos dias de vida na casa e sob os cuidados do sobrinho João, em São José dos Campos Novos [do Paranapanema] - atual Estância Climática de Campos Novos Paulista, conforme testamento de Theodoro e testemunhas em seu inventário (I/JTS, 1875).

5.2. A decisão quanto ao espólio de José Theodoro de Souza
Diante dos recursos apresentados e as juntadas de novos documentos, o processo de inventário do pioneiro foi encaminhado de Santa Cruz do Rio Pardo ao Tribunal de Relações da Província de São Paulo, aos 16 de agosto de 1882, e quase três anos depois a sentença homologatória com a veneranda sentença:
"Accordão em Relação, vistos, relatados e discutidos estes autos, despresão a preliminar de se não conhecer da appellação, bem como o aggravo do processo de fls. 146, e dando provimento a mesma appellação interposta a fls. 211, reformão a sentença appellada de fls. 108, por não se fundar em prova legitima e mandar em consequencia, que subsista a sentença de fls. 79-v que homologou a respectiva partilha e rateio; indo, porém, a praça para ser arrematada a escrava Honorata, separada para pagamento do appellante credor; a quem não se admitte ser ella adjudicada contra direito expresso em inventario de órfãos. - Pagas as custas pela appellada. S. Paulo, 17 de julho de 1885. Villaça, P. Uchôa, A. Brito Melo Matos." (DOSP, 16/03/1938: 2).
Os comprovados invasores das terras de Theodoro, no uso de artifícios criminosos, das violências físicas e mortes, ou de imposturas de títulos primitivos de posses, escudavam-se que pioneiro vendera muitos de seus bens, a totalidade deles, e os títulos seriam legítimos.
Quanto a essa dissipação dos bens é preciso compreender que José Theodoro adentrara no sertão para desbravá-lo e povoá-lo, vendendo terras e, mesmo assim, "No espólio do mineiro, sobre tudo, sabemos que existiam muitas águas que reunidas às outras, irregularmente alienadas, por falta de registro, formavam bloco, assaz considerável" (Nogueira Cobra, 1923: 99).
Entre 1896/1897 o herdeiro José Luiz "Attingindo a maioridade, induziram-no a tomar conta da herança que desconhecia e, em seguida, alienou dando origem esse acto a uma contenda." Nogueira Cobra, 1923: 57). A demanda foi contra, sobretudo, o Coronel Francisco Sanches de Figueiredo.
O herdeiro pressuposto apresentara e requerera, informam as fontes, 'direitos hereditários' (DOSP, 16/03/1938: 36), de propriedades que entendera suas, em partes não inventariadas nem postas em testamento de seu pai, contraditado inclusive pela Procuradoria de Terras, obteve pronunciamento favorável da justiça, e depois vendeu as terras para residir em Botucatu e lá falecer.
O fazendeiro Manoel Pereira Goulart e sua mulher eram ou se pronunciavam:
—"(...) cessionários de José Luiz Souza e sua mulher, no inventário de José Theodoro de Souza e sua mulher Dona Anna Luiza de Jesus. O immovel é constituido de toda a vertente do Santo Ignacio, excluindo as vertentes directas à cabeceira do Ribeirão Bonito, e dividindo com o Rio Novo - Rio do Peixe e vertentes às cabeceiras do S. João e Anhumas ..." (O Contemporaneo, 15/05/1920: 2, edital de citação de herdeiros).
O coronel Francisco Sanches Figueiredo, que se dizia dono daquela propriedade, já havia contestado judicialmente ao Manoel Pereira Goulart como cessionário de José Luiz de Souza, e a Justiça lhe fora desfavorável, inclusive em recurso apresentado:
"Recurso Crime nº 1367 - Campos Novos do Paranapanema – Recorrente, o promotor público da comarca e o coronel Francisco Sanches de Figueiredo, recorrido, Manoel Pereira Goulart; relator, o sr. C. Canto. (...). Negaram provimento, com a advertencia ao escrivão e recommendação ao juiz quanto à calligraphia daquele" (DOSP, 11/05/1901: 4).

6. Theodoro sob o ponto de vista histórico
A história não destaca maior importância ao bandeirismo de José Theodoro de Souza que, à frente de bugreiros, invadiu o sertão centro sudoeste/oeste paulista, mais em especial o Vale do Paranapanema, para exterminar tribos indígenas inteiras, através das razias e dadas, no mais cruento etnocídio paulista do século XIX.
Documentos oficiais 'resgatados' comprovam o pioneiro como figura controversa, porém sua sagacidade e força na promoção de certos modos, aplicados no tratamento aos indígenas, que o tornavam benquisto pelos fazendeiros e simpático à maioria das autoridades provinciais, apresentando-se hábil negociador em situações conflitantes, sem, no entanto, abrir mão de seus objetivos em ocupar terras e vende-las, sob garantias de segurança relativa. 
No ano de 1862, quando denunciados alguns sangrentos combates entre brancos e índios, Theodoro, acompanhado de uns tantos selvagens já pacificados, apresentou-se ao governo paulista para entrega das principais reivindicações dos sertanejos, num abaixo assinado que dizia das hostilidades indígenas e a sugestão de aldeamento, em Salto Grande, à maneira sugerida pelo mensageiro. 
Os documentos oferecidos foram firmados pela Câmara Municipal de Lençóis Paulista, pela Subdelegacia de Polícia e Guarda Nacional de São Domingos, inclusive declaração de idoneidade de Theodoro assinada pelo padre André Barra, que serviram de instrução, processual burocrática, na criação do Aldeamento para Salto Grande (ALESP, 64.22.1 e seguintes).
A viagem foi bem-sucedida impressionando positivamente a quase todos que conheceram o pioneiro. Bruno Giovannetti, em sua obra 'Esboço Histórico da Alta Sorocabana' (1943: 129), mencionou deles, Joaquim Antonio Pinto Junior e João Mendes Junior.
Dr. Joaquim Antonio Pinto Junior, advogado dos indígenas, político e historiador, autor da obra 'Memoria sobre a Cathechese e a civilisação dos indigenas da Província de S. Paulo',  1862: 20-21, descreveu José Theodoro de Souza como um homem de:

"(...) coração bem formado, tem-se constituído o desvelado protector d'aquelles infelizes que com rasão lhe dão até o nome de pai; foi ele que á expensas suas conduzio á esta Capital os que á pouco se apresentárão ao Governo; é elle que os auxilia em suas necessidades mais urgentes; é em sua fazenda que encontrão todos os socorros: de uma modestia á toda prova, não faz ostentação de seus serviços, por isso o seu nome ficaria ignorado se no recinto dos representantes da Provincia não tivesse sido por mais de uma vez apontado como um cidadão prestante á quem o paiz deve relevantes serviços." (Almeida Junior, 1862: 20-21).

Desta apresentação João Mendes Junior escreveria, em 1912, em sua obra 'Os Indígenas do Brasil', às páginas 66:

"Um dos maiores posseiros, talvez o maior posseiro das regiões do Paranapanema, foi o sertanejo José Theodoro de Souza. Em 1862 elle apareceu nesta capital, seguido de alguns indios (...).

Este sertanejo poude pacificamente manter e registrar todas as suas posses, que por muitas transmissões deram origem a grande numero de fazendas actualmente estabelecidas naquelles sertões. Os indios, ate poucos annos antes de sua morte, nunca tiveram lucta nem queixas deste sertanejo, os seus parentes e adherentes, sob pretexto de represalia ao assassinato desse seu irmão (assassinato que não ficou provado ter sido feito pelos indios, por cabôclos, ou mesmo parentes e adherentes), principiram em uma série de vinganças contra os indios." (1912: 66).

Mendes Junior foi defensor constitucional das terras dos indígenas, como legítimos e primeiros donos anteriores, à formação do próprio Estado brasileiro.
A proposta do aldeamento para Salto Grande, ao gosto do governo, dos políticos e dos organismos indigenistas do Brasil e internacionais, tinha por objetivo evitar matança e integrar o indígena à sociedade, tornando-o útil, através da prestação compulsória de serviços gratuitos.
Isto escondia a realidade e todos sabiam. As frentes de ocupações precisavam de mão-de-obra escrava para trabalhar o sertão, e o aldeamento a isto se prestaria, como conjunto de soluções, para se burlar a legislação a respeito da escravização indígena, e os bugreiros e preadores se transformaram em elementos de convencimento ao indígena aldear-se, cabendo ao administrador repassá-lo aos interessados em 'colaborar na educação e profissionalização do bárbaro', com isso a evitar extermínios ou guerras desiguais entre índios e fazendeiros, mascarando o escravização nativa, proibida por lei. 
O parecer favorável das autoridades ao Aldeamento em Salto Grande satisfez as necessidades dos fazendeiros apressados em cuidar de suas terras e livrá-las de vez do perigo indígena à solta nas matas, sem problemas com políticos e imprensa. Theodoro guindado ao cargo de Diretor do Aldeamento teve a indignação do Diretor Geral dos Índios, José Machado d'Oliveira:
"Augmentou-se a minha repulsa à criação do projetado aldeamento, ao constar-me que seria nomeado como diretor um homem que, na primeira entrada que fez no sertão de Botucatu, cometeu contra os selvagens as mais horríveis e nunca vistas atrocidades, massacrando a tudo quanto encontrava, sem distinção de sexo e idade, só para assenhorear das terras do sertão e em seguida vendê-las aos mineiros que começaram a povoar aquelas matas" (ALESP, EE. 64: 22).
O pioneiro abandonaria o Aldeamento pouco depois, quando a certeza da Guerra com o Paraguai, antevendo-se chegada em massa de famílias mineiras fugidas do recrutamento militar. 
Em 1872, diante do expansionismo sertanejo e o crescente interesse por mais terras, Theodoro intentou avançar posses para além do Ribeirão das Anhumas/Água Boa, e preparava-se para o processo de integração, sendo o primeiro passo a obtenção de documento expedido pela Câmara Municipal de Lençóis Paulista (Livro 1, 1872: 86, apud Chitto 1972: 23), comprovante de sua idoneidade e dos relevantes serviços prestados por ele no sertão, à própria custa, como abridor de estradas, fundador de povoados, empregador em suas propriedades, colaborador com a fé católica e pacificador de índios.
O procurador de Theodoro, João da Silva e Oliveira, antecipara-se, no entanto, tornando 'ilegitimamente' suas as terras pretendidas, e o pioneiro então voltou-se ao Vale do Peixe para lá encontrar o genro, Francisco Paula de Moraes.
Theodoro, duplamente traído, certamente conseguiria seu intento, 'de modo legalizado', pois agia sempre sob os olhares coniventes e tolerantes do Estado e da Igreja.
Atualmente compreende-se que a atividade exercida pelo pioneiro-mor se enquadrava na solução dos conflitos civilizacionais, sensível:
"(...) às pressões dos proprietários e aos interesses do Estado para proteger as localidades ocupadas por gente civilizada, laboriosa e útil ao país – requisitos efetivamente não preenchidos pelos grupos indígenas na perspectiva do capitalismo – faz com que a presidência da Província oficialize a repressão, mesmo com os proprietários já usando das ações armadas das dadas, comandadas por bugreiros" (Brandão, 1989/1990: 2).
 
6.1. José Theodoro na Conquista Sertaneja: Revisão Crítica das Fontes - 12/08/2026 (10 horas)
A tradição sertaneja consolidou, ao longo de décadas, a figura de José Theodoro de Souza como protagonista das razias contra os Caiuá e Botocudo no vale do Abaré‑y, atual Avaré. Essa versão, repetida em opúsculos e memórias regionais, sustenta que Theodoro teria comandado pessoalmente a coluna exterminadora que abriu caminho à ocupação branca em 1850/1851. No entanto, a documentação disponível — e sobretudo a análise cronológica das frentes de conquista — demonstra que tal participação não se sustenta historicamente.
A mesma impossibilidade se verifica quando se examinam outras regiões onde a tradição também o coloca como chefe de expedições de extermínio: Lençóis (atual Lençóis Paulista), Agudos, Bauru e Santa Bárbara do Rio Pardo (Águas de Santa Bárbara). A simultaneidade atribuída a Theodoro nessas frentes é incompatível com sua atuação documentada no período. Entre 1850 e 1856, ele estava empenhado na conquista, ocupação e dimensionamento de suas próprias terras em São Pedro do Turvo e São José dos Campos Novos (atual Estância Climática de Campos Novos Paulista), processo que exigia presença contínua, deslocamentos específicos e negociações locais.
Assim, a análise crítica das fontes — registros paroquiais, documentos administrativos, demarcações de posses e cronologias regionais — permite concluir que José Theodoro de Souza não esteve presente no Abaré‑y durante o massacre, nem poderia ter estado, dadas as exigências logísticas e territoriais de suas atividades naquele período. A figura do “chefe exterminador” atribuída a ele resulta de construções tardias, sobretudo das narrativas de Tito Corrêa de Mello, que não testemunhou os fatos e os registrou apenas décadas depois, quando nenhum dos envolvidos podia contestá‑los.
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*Todos os assentos eclesiais neste trabalho, quando não mencionadas outras fontes, são apanhadas de cópias creditadas https://www.familysearch.org.
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